Intro

Bem vindo ao blog Cuiqueiros, um espaço exclusivamente dedicado à cuica – instrumento musical pertencente à família dos tambores de fricção – e aos seus instrumentistas, os cuiqueiros. Sua criação e manutenção são fruto da curiosidade pessoal do músico e pesquisador Paulinho Bicolor a respeito do universo “cuiquístico” em seus mais variados aspectos. A proposta é debater sobre temas de contexto histórico, técnico e musical, e também sobre as peculiaridades deste instrumento tão característico da música brasileira e do samba, em especial. Basicamente através de textos, vídeos e músicas, pretende-se contribuir para que a cuica seja cada vez mais conhecida e admirada em todo o mundo, revelando sua graça, magia, beleza e mistério.

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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Exposição - Zeca, 60 anos de cuíca

A exposição Zeca, 60 anos de cuíca é uma bela e merecida homenagem a um nossos grandes mestres, Zeca da Cuíca. A organização do evento é do núcleo de cultura da Comlurb, instituição para a qual o seu Zeca dedicou muitos anos de serviço, até a sua aposentadoria.


ZECA: 60 ANOS DE CUICA - A mostra reúne imagens fotográficas da carreira e da vida de José de Oliveira, o Zeca da Cuíca, funcionário da Comlurb que acompanhou grandes nomes da música popular brasileira. O espaço contará também com a transmissão de imagens e entrevistas, um estande interativo para o público tocar cuíca, além da exposição de troféus e medalhas do instrumentista. Na noite de abertura, Zeca se apresentará numa animada roda de samba. Aos 75 anos, ele é ainda um músico atuante, participa de shows, gravações e é integrante da Velha Guarda da Escola de Samba Estácio de Sá, embora tenha também como escola do coração a Acadêmicos do Salgueiro, pela qual ganhou o Estandarte de Ouro. Fonte: Jornal do Brasil - 31/01/2011

Serviço: Galpão das Artes Urbanas Helio G. Pellegrino, Rua Padre Leonel Franca s/n, Gávea - Rio de Janeiro (2249-2286). 2ª a 6ª, das 10h às 17h. Grátis. A partir de 4 de fevereiro, até 31 de março de 2011.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Música 5 - Triste Cuíca

Triste Cuíca é uma linda composição de Noel Rosa em parceria com Hervé Cordovil, originalmente gravada por Aracy de Almeida, em 1935, com o acompanhamento do Regional de Benedito Lacerda.


O próprio título desta canção fala de uma das características mais marcantes da cuíca, sua capacidade de nos remeter ao sentimento de tristeza, de lamento, através da sua sonoridade.

Mas há outra questão interessante neste samba, especificamente no verso "parecia um boi mugindo...". Trata-se de uma clara referência ao padrão de afinação que as cuícas possuíam no passado, quando soavam numa faixa de frequências bem mais grave do que o padrão de afinação atual. É uma pena que a gravação original não tenha uma cuíca em sua instrumentação para provar a pertinência da comparação entre a sonoridade da chorona com o som de um boi mugindo. Porém, em 1966, Aracy de Almeida regravou Triste Cuíca e, desta vez, contando com a impecável cuíca de Mestre Marçal, já com o instrumento em sua sonoridade moderna.



Triste Cuíca
(Hervé Cordovil e Noel Rosa)

Parecia um boi mugindo
Aquela triste cuica
Tocada pelo Laurindo
O gostoso da Zizica

Ele não deu à Zizica
A menor satisfação
E foi guardar a cuica
Na casa da Conceição

Diferente o samba fica
Sem ter a triste cuica
Que gemia feito um boi

A Zizica está sorrindo
Esconderam o Laurindo
Mas não se sabe onde foi

A Zizica está sorrindo
Esconderam o Laurindo
Mas não se sabe onde foi
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Cuiqueiros 1 - Boca de Ouro

Nas comunidades e grupos das redes sociais pautadas na cuíca é comum encontrar comentários sobre cuiqueiros como o Mestre MarçalOvídio BritoZeca da Cuíca, Fritz Escovão, Osvaldinho, Carlinhos, enfim, sobre algum cuiqueiro famoso. Acontece que existem outros nomes além destes que, apesar de também serem muito importantes, não são tão comentados. E nas conversas que tive com cuiqueiros experientes, como o Zeca e o Osvaldinho, e também com sambistas da antiga como o Monarco, eles sempre apontam um nome como o principal cuiqueiro do passado: Boca de Ouro - um nordestino radicado no Rio de Janeiro, mas que também viveu em São Paulo por alguns anos, e fez parte da elite musical brasileira. Não consegui descobrir o seu nome de batismo e nem a data de nascimento, mas provavelmente foi entre as décadas de 1910 e 1920.

Boca de Ouro (em 1959)

Parece que ele foi mesmo o grande cuiqueiro de seu tempo, tendo gravado em discos de nomes como Carmen Miranda, Ataulfo Alves, Herivelto Martins, entre outros, acompanhado esses artistas também em shows por toda parte. Mas um dos trabalhos mais importantes que ele participou certamente foi o disco Batucada Fantástica – Os Ritmistas Brasileiros, gravado em 1964 sob direção do baterista Luciano Perrone. Lançado pelo selo Musidisc, esse disco recebeu vários prêmios e se tornou mundialmente conhecido. Logo na primeira faixa, intitulada "Samba Quente", disponível no player abaixo, podemos ter uma noção de que o Boca de Ouro foi mesmo um cuiqueiro fenomenal.


Encontrei no site do Instituto Moreira Sales outras duas músicas cujas fichas técnicas o referenciam como "Boca Rei da Cuíca", tamanha sua importância para o instrumento. Ambas as músicas foram gravadas em 1948 pelo grupo Vocalistas Tropicais. A qualidade do áudio não é muito boa, mas prestando bem atenção dá para ouvir a cuíca no acompanhamento.   




Como é que vai ser? (Marino Pinto e Mário Rossi)


Além dos inúmeros registros fonográficos, Boca também atuou em alguns filmes, como neste trecho da comédia musical "Quem roubou meu samba?", de 1959, acessível AQUI em sua versão completa.


Sobre a sua morte, parece que ele foi assassinado no Rio de Janeiro em meados da década de 1970, deixando como legado um estilo cuiquístico excepcional. Se hoje podemos tocar e apreciar a cuíca em baterias, rodas de samba, shows e discos, devemos isto a figuras como Boca de Ouro.
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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Vídeo 5 - Índio da Cuíca

Vejam só que feliz coincidência! Hoje fui à loja da Art Celsior e na volta para casa, enquanto esperava o trem chegar na estação de Cordovil, outro trem parou no sentido oposto e vi descer do vagão um sujeito que suspeitei ser o Índio da Cuíca. Num impulso, gritei seu nome. Ele se virou, olhou desconfiado, mas veio falar comigo. Eu me apresentei, disse que era seu fã e que também sou cuiqueiro. Conversamos ali por uns quinze minutos até o meu trem chegar. Fiquei muito feliz por tê-lo conhecido! Que camarada gente boa! E toca uma cuíca muito esperta! O Índio é um dos poucos cuiqueiros que têm a habilidade de solar melodias na cuíca, como se vê nesta apresentação, em 1997, onde sola trechos do choro Brasileirinho, do samba popularmente conhecido como Pega no Ganzê, e da marcha Cidade Maravilhosa.


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domingo, 26 de dezembro de 2010

Homenagem a Ovídio Brito

Essa é a última postagem de 2010 e é especial por ser em homenagem ao já saudoso Ovídio Brito. Amigos e familiares sentem a dor de sua perda e nós, seus fãs, sentiremos a falta de sua arte. Fica o nosso respeito e agradecimento a este grande cuiqueiro. 

Selecionei dois textos que ilustram muito bem o quanto Ovídio nos fará falta. Um deles está neste link do blog do Cláudio Jorge, para quem não o conhece, um compositor de mão cheia e muito amigo do Ovídio. O outro texto achei no blog do Pim, muito bacana também.

Também tive a grata oportunidade de conhecer o Ovídio e uma vez pude tocar ao seu lado. Aproveitei para fazer algumas perguntas sobre cuica e observá-lo tocando. Fiquei muito impressionado! Primeiro, pelo lindo som de sua cuica. Segundo, porque ele estava tocando com pano de chão. E terceiro, pela facilidade que ele tinha em tocar cuica e cantar ao mesmo tempo, fazendo as duas coisas maravilhosamente bem. 

Inclusive, me surpreendi ao ver que além de tocar, ele também era um excelente cantor. Naquela época ele estava prestes a gravar seu primeiro e único disco solo cantando, cujo título é Viajando com Martinho, por conter exclusivamente composições do Martinho da Vila no repertório.

A última faixa é uma versão instrumental da canção Pensando Bem. Uma ideia do próprio Ovídio em acompanhar a bela melodia dessa música com o lamento de sua cuica. João de Aquino, coautor da música, fez o arranjo e seu filho Gabriel de Aquino executou o solo no violão. Nessa faixa, o Ovídio também contou com a participação especial do Índio da Cuica, Quirininho, Neném da Cuica, do Tuca e do Zeca da Cuica, que se unem ao anfitrião durante a música. Um belo encontro de cuicas!



Segue também um vídeo com imagens da roda de samba do Ovídio e de seu parceiro Márcio Vanderley, contanto ainda com a ilustre presença de Arlindo Cruz. Essas imagens foram registradas algumas horas antes do fatídico acidente que tirou o Ovídio do nosso convívio. Vejam como ele estava feliz!



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domingo, 19 de dezembro de 2010

Música 4 - Cuica no Samba de Uma Nota Só

Essa música faz parte do disco "Mestre André e sua Bateria", gravado em 1977, tempos de glória da Mocidade Independente de Padre Miguel. Não sei o nome do cuiqueiro que fez esse registro, mas ele faz progressões e floreios muito bacanas, além de solar um trecho de um dos maiores clássicos da bossa nova: Samba de Uma Nota Só, de Tom Jobim e Newton Mendonça. Boa audição!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A pele

A pele utilizada na cuica é de origem animal, preferencialmente de cabrito, e é num local chamado curtume onde o couro do animal é tratado para que fique em condições de ser utilizado em diversas finalidades, inclusive para tocar cuica. Primeiro, o cabrito é abatido, a pele é extraída e os pelos são raspados. Em seguida, há o processo de curtimento com alguns produtos químicos para evitar que a pele apodreça. Feito isso, está pronta para empachar e usar no instrumento.

Matéria prima
A qualidade da pele influencia muito no som da cuica. Pele grossa, pele fina, pele com ruga, pele lisa, enfim, são nuances que cada cuiqueiro avalia para encontrar o padrão que mais lhe agrada. Já ouvi dizer que até a idade do cabrito influencia na sonoridade da pele, sendo, a dos mais velhos, melhor do que a dos cabritos abatidos ainda quando jovens.

O vídeo da última postagem começa com o rapaz pressionando o centro da pele com a ponta de uma baqueta, marcando o ponto exato onde ele depois faria a amarração do gambito. Porém, é necessário molhar a pele antes desse procedimento. A pele é muito dura em seu estado natural e para empachá-la é imprescindível que esteja amolecida. Para isso, costuma-se deixar de molho por alguns minutos, dentro de um balde cheio d’água ou algum recipiente parecido.

Quando encharcada, a pele fica muito parecida com uma massa de pizza. Essa analogia é um pouco estranha, mas no vídeo da postagem anterior é possível ver que é assim mesmo que ela fica. Depois de molhada e bem amolecida, deve-se amarrar o gambito no centro da pele e, finalmente, empachá-la no arquilho, que é um arco geralmente de madeira onde fixamos a beirada da pele, como vimos ser feito no vídeo citado.

O próximo passo é esperar que a pele fique seca. Dependendo do clima isso pode levar um ou dois dias. Mas atenção, a pele deve secar na sombra, nunca ao sol. Em seguida, com a pele totalmente seca, é só encaixar na cuica, afinar e está pronta para uso. É importante evitar o contato novamente com água depois que a pele estiver instalada na cuica. Um problema muito comum é esbarrar o pano na pele enquanto se está tocando. Sem que se perceba, aos poucos o pano umedecido vai molhando a região envolta do gambito e a pele acaba se rasgando. Para evitar que isso aconteça é recomendável colocar um pedaço de plástico ou de fita adesiva na pele, por dentro da cuica, protegendo toda a circunferência próxima ao gambito.

Nos desfiles das escolas de samba ou nos ensaios que as agremiações costumam fazer a céu aberto antes do carnaval, os cuiqueiros cobrem a pele da cuica quando chove com uma touca de banho, daquelas de plástico que usamos para não molhar o cabelo. Existem experiências bem sucedidas com pele de náilon para cuica, mas há quem diga que o resultado sonoro não é tão bom quanto o da pele de couro. No entanto, o náilon tem a vantagem de não sofrer nenhuma alteração física em contato com água, sendo, portanto, uma boa alternativa para essas situações em que esteja chovendo.

Mas a pele de couro animal é mesmo a de uso mais comum entre a maioria dos cuiqueiros. É bastante resistente, embora necessite de alguns cuidados e manutenção, podendo durar bastante tempo sem rasgar. Sobre essa questão da durabilidade da pele, outra orientação é para nunca guardar a cuica com a pele esticada, quer dizer, deve-se afrouxar a pele toda vez depois de tocar.

Encontrar pele de cuica pra comprar não é tão difícil, principalmente pra quem tem uma cuica da Gope ou da Contemporânea, por exemplo. Como essas marcas têm produção em escala industrial, é fácil encontrar a pele já pronta em lojas de instrumentos musicais. Em São Paulo, situadas à rua General Osório, ficam as lojas dessas duas marcas mencionadas, uma bem próxima da outra. E do outro lado dessa mesma rua fica a loja da Redenção, também de artigos musicais. 

No Rio de Janeiro, há várias lojas na rua da Carioca e também a fábrica da famosa marca Art Celsior, no bairro de Cordovil. E para quem mora em outras regiões fora do Rio de Janeiro ou de São Paulo, acredito que dê pra comprar pelos sites dessas lojas, ou procurar na sua cidade alguma loja de instrumentos musicais que venda ou possa encomendar pele de cuica com algum fabricante. Essas dicas servem tanto pra quem quer comprar a pele já empachada, quanto para quem procura o couro, o gambito, o arquilho, enfim, cada item separadamente para empachar a própria pele. Quanto à linha encerada, tipo de corda ideal para amarrar o gambito na pele, pode ser facilmente encontrada em armarinhos ou lojas de produtos para artesanato.

Mas, independentemente das especificações que vão do gosto pessoal de cada cuiqueiro, assim como a variação de marcas disponíveis nas lojas de música, o fato é que a pele é um item da cuica sobre o qual devemos conhecer muito bem. Fazer testes com diferentes tipos de pele, oriundas de curtumes diferentes, preparadas para diferentes fins, por exemplo: para desfilar no carnaval é conveniente utilizar uma pele mais grossa, que suporte uma afinação mais aguda. Já para gravação em estúdio, uma pele fina pode atender bem às expectativas. E por aí vai, de acordo com a curiosidade e disposição de cada cuiqueiro em querer dominar esse instrumento tão melindroso chamado cuica.

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domingo, 5 de dezembro de 2010

Vídeo 4 - Empachando uma pele de cuica

O vídeo dessa postagem é uma edição de dois outros vídeos encontrados no YouTube, cujas fontes estão relacionas mais abaixo. Ele traz imagens de um rapaz empachando uma pele de cuica. Ao assisti-lo, algumas pessoas poderão até pensar que empachar uma pele é algo relativamente fácil, mas não é bem assim. Na realidade, trata-se de um procedimento que exige muita prática para que fique bem feito.

Devido à qualidade um pouco precária desse registro, alguns detalhes essenciais do processo não estão muito evidentes, por exemplo: como se dá o famoso "nó de porco" para amarrar o gambito no couro; com que tipo de ferramenta o couro é envolvido no arquilho, que é aquele arco de madeira ou alumínio onde o couro é empachado; dentre outras questões que somente a prática nos revela. Mas, mesmo assim, é possível ter uma noção do processo como um todo e do quanto pode ser trabalhoso.

A trilha sonora é uma composição do nosso grande mestre Osvaldinho da Cuica, por sinal, muito apropriada para a ocasião. O título é “A Cuica do Maninho” que, segundo o próprio Osvaldinho, foi inspirada numa situação que realmente aconteceu com ele. Vale ressaltar os seguintes versos: você bem sabe que instrumento não se empresta, se ele quebra acaba a festa e eu vi muita festa acabar; agora, vê se fica mais esperto quando algum curioso por perto quiser na cuica tocar. Sugiro a leitura da postagem “Me empresta a sua cuica?” para complementar essas ideias.


*Fontes para edição do vídeo: How to lap a cuica head / How to lap a cuica skin part 2
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domingo, 28 de novembro de 2010

Vídeo 3 - A cuica (Documentário de 1978)

O vídeo dessa postagem é um documentário chamado "A Cuica – Instrumentos da Música Popular Brasileira", filmado em 1978, com direção de Sérgio Muniz e produção de Thamaz Farkas. O vídeo é protagonizado pelo ilustríssimo Osvaldinho da Cuica, na ocasião com aos seus 38 anos de idade. Aparecem também ritmistas da escola de samba Mocidade Alegre da Casa Verde em algumas cenas, dentre eles, um cuiqueiro chamado Alaor, ao lado do Osvaldinho. Registros preciosos!



*este vídeo foi uma indicação do amigo Thiago F. Obrigado Thiago!
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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Ovídio Brito (1945 - 2010)


Ovídio Moreira Brito

A cuica hoje chora de saudade. Ovídio Brito, grande músico e acima de tudo um autêntico sambista, cumpriu o seu papel e partiu para encontrar outros bambas no céu. Sem dúvidas, foi um dos maiores cuiqueiros da história e certamente o principal em atividade até então. Ovídio participou de inúmeras gravações em discos dos principais nomes da música brasileira, tocando diversos instrumento de percussão, mas a cuica era a sua marca maior. Há dois anos gravou seu próprio disco, desta vez como cantor. Ficam os registros e a memória deste cuiqueiro que tocava com tanta alegria e ainda tinha tanto a nos ensinar.



P.s.: Dia 22 de novembro, dia do músico.
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domingo, 21 de novembro de 2010

Me empresta a sua cuica?

Se existe um momento desagradável na vida de qualquer cuiqueiro, ou pelo menos para a maioria, é quando alguém pede para tocar “um pouquinho” a sua cuica. Pior ainda se quem faz pedido é uma pessoa desconhecida. Confesso que já cometi o erro de pedir cuica emprestada uma vez, mas foi a primeira e última. Depois de ter feito o indecoroso pedido ao cuiqueiro, fui indagado por ele se eu sabia mesmo tocar cuica. Eu disse que sim e ele imediatamente retrucou com a seguinte frase: então você devia saber que cuica não se empresta! Nunca mais me esqueci dessa lição e passei a utilizar essa tática pra me livrar dos pedintes “sem cuica” que às vezes me aparecem.

O que justifica esse dilema a respeito de deixar ou não alguém tocar a sua cuica é o fato de que a relação entre um cuiqueiro e o seu instrumento é de pura intimidade. Algumas coisas na cuica são muito delicadas e exigem um cuidado especial por parte de quem a manuseia. São detalhes que, em geral, cada cuiqueiro desenvolve de uma maneira muito pessoal. Os cuiqueiros gostam até de brincar dizendo que "cuica é igual mulher, cada um cuida da sua". Nessa ótica, um relacionamento monogâmico, de fato.

E, além da maioria dos cuiqueiros não gostarem de emprestar sua cuica pra alguém, também é muito comum encontrar cuiqueiros que não tocam de jeito nenhum outra cuica que não seja a sua. Porque ele sabe que provavelmente encontrará um instrumento muito diferente do seu, preparado de acordo com as preferências do outro cuiqueiro, o que pode dificultar a execução, o impedido de extrair a sonoridade que mais lhe agrada.

Geralmente, enquanto estamos tocando e, principalmente, quando outra pessoa está tocando a nossa cuica - emprestada a contragosto, diga-se de passagem - nossa maior preocupação é com o gambito. O gambito, para quem não sabe, é aquela vareta de bambu presa no centro da pele. Por ser muito frágil, é normal que se quebre em algum momento. No entanto, por mais comum que isso seja, é sempre muito decepcionante quando acontece. Inclusive, dizem que a sensação de quebrar o gambito é pior do que broxar com a mulher amada, e quebrar o gambito da cuica alheia é pior do que broxar com a mulher dos outros. Enfim, resumindo, cuica não se deve emprestar e nem pedir emprestado.
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domingo, 14 de novembro de 2010

Música 3 - Cuica Manhosa

Desta vez apresento a música Cuica Manhosa, interpretada por Osvaldinho da Cuica, um dos maiores especialistas em solar melodias no instrumento musical exaltado neste blog. Essa música é a última faixa do disco Preto no Branco, gravado pelo Osvaldinho em 1985.



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domingo, 7 de novembro de 2010

1º CUICARIOCA

Creio que a maioria dos amantes da cuica não soube do evento que dá título a esta postagem, mas trata-se do 1º Cuicarioca, um encontro de cuiqueiros realizado há exatos dois meses na cidade do Rio de Janeiro. Estavam presentes mais de cinquenta cuiqueiros de diferentes escolas de samba do Rio e alguns vindos também de outras cidades, como São paulo e Brasília, por exemplo. Dentre os membros da comissão organizadora estava o senhor Jovenito Marcelino, também conhecido como Sr. Jovem, a quem coube saudar e agradecer a todos pela presença e contribuição ao evento. Quanto às pessoas que não puderam comparecer, têm agora a oportunidade de ver neste vídeo alguns momentos da festa. Até o próximo Cuicarioca!

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domingo, 31 de outubro de 2010

Cuica é percussão?

Afinal, cuica é ou não é um instrumento de percussão?

Realmente existe uma grande polêmica em torno dessa questão e eu já vivi uma situação que ilustra bem o quanto isso ainda é mal entendido. Foi no ano passado, quando precisei transferir minha carteira da Ordem dos Músicos de Brasília, minha terra natal, para o Rio de Janeiro, onde moro há nove anos. Dentre as classificações de instrumentos qua a Ordem faz a cuica é considerada um instrumento de percussão e por isso eu deveria ser registrado como percussionista. Acontece que não toco instrumentos de percussão, sou cuiqueiro! ...e na minha opinião, cuica não é percussão. Argumentei e até discuti com alguns funcionários da Ordem de que ela não pode receber essa classificação. Já vi alguns textos por aí que dão a cuica como exemplo de um membranofone, instrumento de percussão que produz som através da vibração de membrana distendida. Outras qualificam-na como um idiofone, quando o som é provocado pela sua própria vibração (ex.: agogô; triângulo), sendo a vibração do gambito friccionado pelo pano úmido transmitida à pele por contato. Mas se a gente pensar que um instrumento de percussão deve ser percutido, quer dizer, deve-se “bater” nele com as mãos ou com baquetas para emitir um som, já não podemos mais dizer que cuica é percussão. O som da cuica é obtido através do ato de fricção. A gente fricciona o pano molhado no gambito, o que faz a pele vibrar e assim surge o som. Com a outra mão, apenas encostamos na pele para produzir os sons mais agudos e, talvez, seja esse o gesto que permite taxar a cuica como percussão. Mas em contrapartida, isso traz uma outra questão que dificulta ainda mais classificá-la tecnicamente. Friccionoando o gambito e encostando na pele com diferentes intensidades, são produzidas notas musicais, o que faz dela um instrumento melódico. Bom, particularmente, apoio muito mais a classificação da cuica como um instrumento melódico de fricção do que percussivo.

E vocês, o que acham?

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sábado, 23 de outubro de 2010

Música 2 - Gotas de chuva na minha cuica

Vou de repeteco nessa segunda postagem musical e trago mais uma do Trio Mocotó. Dessa vez é a música Gotas de chuva na minha cuica, onde o Fritz Escovão nos presenteia com mais um solo daqueles na cuica. Tenho certeza que vocês vão gostar!


Além do áudio, disponho também um vídeo aqui embaixo com o Fritz tocando um trecho dessa música... assim, além de ouvir, podemos também assistir à performance deste grande artista.

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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A origem do termo "cuica"

Na última postagem vimos que a cuica é chamada de póica no maracatu rural de Pernambuco. Acontece que ela recebe muitos outros nomes em diferentes manifestações culturais do Brasil. Além de póica, ela também é conhecida como puíta, omelê, adufo, tambor-onça, roncador, fungador-onça, socador, ronca e certamente deve ter ainda outros nomes que desconheço. Pesquisando sobre esse assunto, encontrei uma história engraçada que conta como o termo cuica teria se tornado o nome “oficial” desse instrumento. 

Segundo Cornélio Pires, jornalista, poeta, folclorista e grande contador de causos, foi com o aparecimento do rádio que a puíta passou a chamar-se cuica. Foi um apresentador do rádio que deliberou chamá-la de cuica para evitar qualquer deturpação possível com o vocábulo original daquele instrumento. Possivelmente essa deturpação que o preocupava seria, por exemplo, o nome que se dá ao tocador de puíta (puiteiro). Dá pra entender que o radialista se preocupou em não constranger os ouvintes no caso de apresentar o tocador de puíta, pois imaginem só: Temos aqui a presença do pianista fulano de tal, do violonista beltrano e do puiteiro cicrano... ía cair a audiência!

Não sei se essa história do puiteiro é verídica, mas existe outra explicação sobre a origem do termo cuica que relaciona o instrumento a um animal que tem este mesmo nome. É esse aqui em baixo. Dizem que ele emite um som parecido com o do nosso querido instrumento musical, quando tocado nas notas mais agudas.

Cuíca
Bom, independente das duas versões citadas, não me arrisco a afirmar nada sobre a “oficialização” do termo cuica, mas acredito que isso tenha alguma relação com o destaque que o samba ganhou na cultura nacional, que por ter a cuica em sua formação instrumental, contribuiu  para que isso acontecesse. De qualquer maneira, dá pra ver que a origem desse nome é um tema bem indefinido. Na verdade, quase tudo o que diz respeito à cuica ainda é carente de estudos como, por exemplo, de onde ela veio, as finalidades primárias de seu uso, sua evolução, enfim, sua história. É isso amigos, ainda temos muito o que discutir por aqui. 
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domingo, 3 de outubro de 2010

Póica

Estive em Pernambuco no início deste ano e fui a uma cidade chamada Nazaré da Mata, bastante conhecida por seus tradicionais desfiles de maracatu rural. Fiquei surpreso ao ver que no conjunto musical de cada bloco de maracatu tinha sempre um sujeito tocando um instrumento muito parecido com uma cuica.

Na verdade é uma "póica". Os fundamentos são basicamente os mesmos da cuica "do samba", mas geralmente a póica é feita de tubo de PVC e a afinação é bem grave, além do fato do instrumentista executar apenas uma nota, e numa postura diferente da que normalmente ficamos para tocar cuica.

Além dessas fotografias, também filmei umas cenas dos "póiqueiros" em ação. Só peço desculpas pela má qualidade do vídeo. Filmei com a câmera de um telefone celular não muito boa. Mas dá pra ter uma ideia quanto ao som do instrumento, a posição em que é tocado etc.


Póica de PVC e couro de tamanduá

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sábado, 25 de setembro de 2010

Música 1 - Águas de Março

Além de textos e vídeos interessantes sobre cuica, vou postar também algumas músicas aqui no nosso blog. E para inaugurar as postagens musicais, trago uma gravação incrível do Trio Mocotó onde o Fritz Escovão sola na cuica a música Águas de Março, de Tom Jobim. Boa audição!


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sábado, 18 de setembro de 2010

Vídeo 1 - Meu instrumento

Volta e meia irei postar alguns vídeos interessantes por aqui e para começar, trago uma verdadeira aula sobre a nossa querida "chorona". Quem nos dá esse privilégio é ninguém mais ninguém menos do que Osvaldinho da Cuíca, músico paulistano da maior importância para a música brasileira e referência mundo a fora no que diz respeito ao instrumento, que não por acaso, ele carrega no próprio nome. Bom proveito!

domingo, 12 de setembro de 2010

Aprendiz de cuiqueiro

Bem, como estamos aqui para compartilhar "conhecimentos cuiquísticos", me lembrei de um desenho que eu acho muito bacana chamado Aprendiz de cuiqueiro, cujo autor é Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortelline Rossi, ou simplesmente Lan, como é popularmente conhecido este grande artista.


Aprendiz de cuiqueiro (Lan)

Esse outro desenho do Lan que também retrata um cuiqueiro, mas este desconheço o título.


Título desconhecido (Lan)

sábado, 11 de setembro de 2010

Sejam bem-vindos!

Olá amigos!

Esse blog é uma idéia antiga que eu tenho de construir um espaço onde os amantes da cuica possam compartilhar informações sobre este instrumento. A idéia é debater sobre temas de contexto histórico, técnico e musical, sempre relacionados à cuica, é claro, mas também aos seus instrumentistas, os cuiqueiros. E o título do blog é justamente esse para "marcar" bem esta palavra, já que ela não consta em nenhum dicionário da língua portuguesa, a não ser no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, que menciona apenas alguns cuiqueiros famosos, mas não o significado dessa palavra de uma maneira geral.

Espero que gostem das postagens e, por favor, participem com comentários, sugestões, enfim, fiquem à vontade! A casa é nossa... Sejam bem-vindos!