Intro

Bem vindo ao blog Cuiqueiros, um espaço exclusivamente dedicado à cuica – instrumento musical pertencente à família dos tambores de fricção – e aos seus instrumentistas, os cuiqueiros. Sua criação e manutenção são fruto da curiosidade pessoal do músico e pesquisador Paulinho Bicolor a respeito do universo “cuiquístico” em seus mais variados aspectos. A proposta é debater sobre temas de contexto histórico, técnico e musical, e também sobre as peculiaridades deste instrumento tão característico da música brasileira e do samba, em especial. Basicamente através de textos, vídeos e músicas, pretende-se contribuir para que a cuica seja cada vez mais conhecida e admirada em todo o mundo, revelando sua graça, magia, beleza e mistério.

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terça-feira, 21 de abril de 2020

Vídeo 24 - 10º encontro de cuiqueiros do RJ

O cuiqueiro é mesmo um ritmista diferente. Investe do próprio bolso para se manter na bateria, comprando couro e demais apetrechos para um instrumento caro por si só. Nenhuma outra peça exige manutenção tão regular como a cuíca e, quando muito, aquelas que necessitam são financiadas pela própria escola (o que aliás é o ideal). Mesmo sem essa sorte, o cuiqueiro não esmorece e segue firme para se garantir no próximo carnaval. E há uma explicação: é que a relação do cuiqueiro com o seu instrumento é especial. A intimidade entre o cuiqueiro e sua cuíca é algo que ultrapassa o caráter utilitário dos objetos e atinge um grau de relação onde a cuíca é vista quase como um ser vivo pelo seu proprietário. E isso fica explícito no sentido de pertencimento no nome que muitos cuiqueiros assumem pela designação "da cuíca". Sem desmerecer os demais instrumentos, nenhuma outra peça da bateria é assimilada ao nome dos seus ritmistas com tanta naturalidade e frequência. Fulano da caixa ou Sicrano do surdo é algo raro de se ver, mas Beltrano da Cuíca tem aos montes! Somos da cuíca, nós é que pertencemos a ela, somos nós os instrumentos dela. Mas isso parece ser incompreensível por parte de alguns que não vivenciam este sentimento. Apesar de ser um instrumento muito admirado em todo o mundo, a cuíca é também muito desprezada, inclusive no próprio ambiente do samba. No entanto, como dito, o cuiqueiro não esmorece e segue firme para se garantir no próximo carnaval. E há outra explicação: é que o cuiqueiro é um ritmista tão diferente que nem espera chegar o período de ensaios do carnaval seguinte para matar a saudade da chorona. Deu um jeito de antecipar o encontro entre seus pares para extravasar o sentimento que não aguenta segurar por muito tempo. Assim, instituiu o dia 21 de abril como o Dia da Cuíca e, desde então, passou a celebrar a data informalmente. Entretanto, novamente sem a intenção de desmerecer os outros naipes, a data agora é oficial e nenhuma outra peça da bateria tem o seu próprio dia sacramentado em lei, conforme se lê no Projeto de Lei Nº 197/2013 que oficializou o Dia da Cuíca no calendário da cidade do Rio de Janeiro: "o dia 21 de abril de 2005 marcou a realização do 1º Encontro de Cuiqueiros - RJ, na quadra da G.R.E.S. União de Jacarepaguá, reunindo ritmistas de várias escolas, amantes da cuíca, num ambiente de harmonia, confraternização e alegria, sem fins lucrativos e com entrada franca, por iniciativa de João da Cuíca da GRES Portela, aliado a um seleto grupo de amigos igualmente cuiqueiros tais como: Hildebrando (Portela), Hélio Naval (Império Serrano), João Grande, Xanduca e Carlinhos (Mangueira), Reginaldo (Império Serrano), Hélio e Niquinho (Imperatriz Leopoldinense), Luiz (Caprichosos de Pilares), Sena (Arranco) etc". A cuíca ganhou seu próprio dia graças à iniciativa desses mestres e, indiretamente, graças a todos os seus admiradores e cultores que vêm se renovando de geração em geração, ano após ano, em toda parte. Neste ano, devido à pandemia, infelizmente não será possível celebrar a 16ª edição do encontro que marca o início de toda essa história. Mas pra gente não esmorecer e, simbolicamente, reviver este momento, seguem imagens inéditas do evento de 2014, nos projetando para aquele ambiente de plena felicidade. Viva a cuíca e viva todos os cuiqueiros e cuiqueras de hoje, de ontem e de sempre! Parabéns pra todos nós!

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segunda-feira, 30 de março de 2020

A cuíca nas baterias universitárias

*por Lineker Oliveira e Paulinho Bicolor

Reza a lenda que a expressão "escola de samba" surgiu de uma analogia feita pelo compositor Ismael Silva entre o bloco Deixa Falar, criado por ele e seus amigos no bairro carioca Estácio de Sá, e a Escola de Normalistas situada no mesmo bairro, que formava professoras para os colégios do município. Ismael via os bambas da Turma do Estácio como "professores" e o Deixa Falar seria a "escola" onde eles ensinavam samba. Mas há quem duvide que a expressão tenha surgido deste insight do sambista, afirmando ser mais provável que o famoso rancho Ameno Resedá, conhecido como "rancho escola" antes do Deixa Falar existir, tenha inspirado a denominação que os sambistas passaram a usar em suas agremiações. De todo modo, o que há de mais significativo na origem dessa expressão é o fato de vincular uma prática cultural marginalizada - o samba - a uma instituição socialmente respeitada - a escola. Segundo o historiador Luiz Antônio Simas, na década de 1920, enquanto os sambistas buscavam pavimentar caminhos de aceitação social, o Estado procurava disciplinar as manifestações culturais das camadas populares. A expressão "escola de samba", portanto, independente de como surgiu, possivelmente logo se firmou por sintetizar um grave dilema social, equilibrando os interesses do Estado e dos sambistas naquela época. Desde então, outras expressões ligadas ao sistema educacional foram assimiladas ao universo do samba, como o termo "acadêmicos", presente no nome de várias agremiações, o termo "mestre", dado aos regentes das nossas orquestras e, mais recentemente, com as jovens e irreverentes baterias universitárias, que levam esse jogo de palavras, na prática, para muito além do vocabulário.



As baterias universitárias foram originalmente criadas para incentivar torcidas e atletas em torneios esportivos. A primeira de que se tem notícia, a Bateria Charanga, foi criada em 1969 por alunos do curso de engenharia da Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais. Hoje, segundo levantamento do blog Bateria S/A, existem aproximadamente trezentas espalhadas por todo o Brasil. Elas continuam animando as arquibancadas dos torneios esportivos, mas adquiriram vida própria, organizadas em ligas regionais como a LIBURJ, a LBMG e a CWBU, associadas à liga nacional - LNBU, contando com sistemas de gestão e programas de atividades cada vez mais elaborados. Além do cronograma de ensaios, a agenda inclui festas de casamento e formatura, bem como uma série de campeonatos acirrados e, claro, regados por muita curtição. Os principais são o Balatucada, o Interbatuc, a Taça das Baterias Universitárias - TABU, e a Copa das Baterias Universitárias - CBU. O regulamento desses campeonatos se assemelha aos critérios de julgamento aplicados às baterias das escolas de samba, que servem também de parâmetro às características da batucada e instrumentação de cada grupo. Nesse ponto, uma bateria em especial se destaca de todas as demais por ser a única com um naipe de cuíca consolidado em sua formação: a Bateria Bandida.
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Fundada em 2007 na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo - EACH-USP, a Bateria Bandida não hesita em ostentar o prestígio de ter a chorona em sua formação, o que fica evidente em seu brasão e também no seu lema: se a cuíca chorou é o Bonde da Leste! A swingueira que sacode a torcida EACHiana! O primeiro diretor das cuícas do Bonde da Leste, Renan Costa, nos deu um interessante relato sobre a representatividade da Bandida no cenário universitário e o quanto isso se deve à sua própria atuação e pioneirismo, como se observa nesse trecho da nossa conversa:



O protagonismo da cuíca na Bateria Bandida, apesar de ainda não se refletir em outras baterias universitárias, tem reverberado de forma bastante efetiva no meio das escolas de samba. O próprio Renan, por exemplo, é o atual diretor de cuíca na Unidos de Vila Maria e sua substituta na direção das choronas na Bateria Bandida, Alice Caliento, mais tarde saltaria do Bonde da Leste para liderar o histórico naipe formado só por mulheres na Acadêmicos do Tatuapé.

Outra forma da Bandida demonstrar o quanto a cuíca é importante em sua formação se dá por meio de um momento em suas apresentações chamado "chora cuíca", um breque especialmente reservado para o destaque das choronas, recriado a cada ano em novas convenções. O vídeo abaixo registra o "chora cuíca" de 2014, apresentado no torneio Balatucada. Com ele encerramos essa postagem torcendo que seu título - no plural - um dia faça sentido em gênero, número e grau. Vida longa à Bandida! Chora cuíca!!!


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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Osvaldinho da Cuíca - 80 anos

Hoje é dia de reverenciar um dos nossos maiores mestres: Osvaldo Barro, o nosso querido Osvaldinho da Cuíca, completa hoje 80 anos de vida! Paulistano nascido no Bom Retiro, foi cedo viver com a avó em Poá, cidade próxima à capital paulista. Ouvindo-a cantar cateretês à luz da lamparina, escutando rádio pelo serviço de autofalantes da pracinha e observando os festejos do carnaval local, o pequeno Osvaldinho teve ali os seus primeiros contatos com a música. No final dos anos 1940, voltou a morar com uma tia em São Paulo, onde definidamente se encantou pela batucada ao ver e ouvir nomes como Herivelto Martins, Monsueto e Ataulfo Alves nos cinemas que contagiavam a atmosfera cultural na década de 1950. A inspiração dos filmes o levou a transformar a ferramenta de trabalho do seu primeiro ofício, uma caixa de engraxate, no instrumento musical em que pôde dar as primeiras exibições de sua imensa habilidade percussiva.


Habituado a fazer ponto na frente de uma gafieira do Tucuruvi, engraxando sapatos e batucando na caixa, Osvaldinho logo fez amizades com os sambistas da região, integrantes dos cordões que viriam a formar algumas das atuais escolas de samba da Paulicéia. Aos 14 anos, entrou para o cordão Garotos do Tucuruvi, onde compôs os seus primeiros sambas e se aproximou dos instrumentos que o tornariam famoso, principalmente a sua amada cuíca, inspirado por grandes cuiqueiros da época como Zé da Rita e Boca de Ouro. Aos 18 anos, já havia se tornado um músico profissional, participando de gravações em discos como percussionista, acompanhando diversos cantores e cantoras em casas noturnas e programas de rádio, mas foi no grupo de teatro popular do poeta Solano Trindade que ganhou seu nome artístico, conforme ele mesmo relata em entrevista ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo. O nome Osvaldinho da Cuíca, ao se espalhar pelo mundo, se transformou numa verdadeira bandeira de popularização da "chorona" e não faltam provas para evidenciar o quanto ele foi e ainda é um cuiqueiro excepcional.



Muito mais do que um ícone para a cultura da cuíca, Osvaldinho herdou o posto de autêntico símbolo do samba paulista, equiparando-se a nomes como Geraldo Filme, Henricão, Adoniran Barbosa e Germano Mathias, dos quais continua sendo um discípulo fiel. A passagem pelo conjunto Demônios da Garôa foi um importante acontecimento em sua ascensão artística, bem como a constante atuação em diversas frentes da Vai-Vai, sua escola do coração, por três vezes campeã com sambas de sua autoria, dos seis que ele teve a felicidade de cruzar a avenida sambando com a maestria digna de um genuíno mestre-sala. Sua trajetória é também marcada pela discografia que apresenta seu valioso trabalho autoral (num total de sete discos) e ainda pela grande contribuição à preservação da memória do samba em publicações como Batuqueiros da Paulicéia, do qual é coautor. Já o livro Sampa, Samba, Sambista, de Maria Aparecida Urbano, narra a vida desse grande artista de forma muito mais detalhada do que cabe na singela homenagem que prestamos aqui. Devemos ser gratos ao tempo por dar ao nosso mestre tamanha longevidade. Osvaldinho chega aos 80 anos de vida, mas há muito que seu nome já se tornou eterno. Viva Osvaldinho da cuíca! Viva o nosso mestre!
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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

A cuíca nos discos de samba-enredo [Parte 1]


A história nos conta que os primeiros desfiles das escolas de samba datam do início da década de 1930, sendo a famosa Praça Onze, no Rio de Janeiro, o berço do que hoje é conhecido como "o maior espetáculo da terra". Desde aquela época, a cuíca já se destacava como um elemento importante nesse contexto. O concurso para cidadão samba de 1936, por exemplo, avaliou os candidatos com base nos critérios convívio no morro, boa conduta, saber tocar pandeiro, puxar cuíca, bater tamborim e surdo, e ter três composições próprias. Muita coisa aconteceu da Praça Onze à "espetacularização" dos desfiles e um fator importante nesse processo é a produção anual dos discos de samba-enredo, iniciada em 1968 com o LP Festival de Samba.



Gravado ao vivo nos terreiros das escolas que naquele ano disputaram o principal título do carnaval carioca, Festival de Samba é um marco na discografia brasileira. Muito poderia e deve ainda ser dito a seu respeito, mas com relação à cuíca, chama atenção a presença discreta da chorona na maioria dos sambas, inclusive na faixa acima, que destaca o som das baterias de cada escola. A dificuldade técnica imposta pelos equipamentos de gravação disponíveis na época certamente justifica a má captação do som das cuícas, mas é oportuno associar tal fato aos discos do gênero produzidos atualmente.

Os amantes da cuíca vem tendo grande frustração com os discos de samba-enredo nos últimos anos, pois o som da chorona tem sido suprimido das gravações como se ela nem existisse nas baterias. Mas, por qual razão isso está acontecendo se hoje o aparato tecnológico já é capaz de superar qualquer dificuldade de produção? Nada melhor do que ouvir uma das maiores autoridades no assunto para buscar uma resposta. Convidamos Nilsinho Neon para expor a opinião de quem tem na bagagem quase cinquenta anos de desfiles no carnaval carioca e mais de três décadas de gravações de cuíca em discos de samba-enredo. Com propriedade, seu depoimento trás uma breve análise do tema e um resumo de sua própria experiência no samba.



A origem do seu apelido, por usar luz neon buscando maior visibilidade nos desfiles, é análoga ao desejo de que a cuíca também se faça mais notada nos discos de samba-enredo. Conforme Nilsinho nos revela, a justificativa dos produtores com relação à redução do som da cuíca nos discos seria então a prioridade dada ao canto do samba, mantendo a base instrumental em planos secundários para favorecer o aprendizado da letra. Entretanto, diminuir o som da cuíca nas gravações a ponto de praticamente eliminá-la do áudio é uma decisão que descaracteriza a diversidade sonora das baterias e que compromete a experiência de quem escuta os discos na expectativa de apreciar toda a riqueza musical das escolas de samba. Se considerarmos a discografia completa dos sambas-enredo do Rio de Janeiro, bem como a discografia de São Paulo, além de outras cidades que também possuem suas produções como Santos e Porto Alegre, veremos, no entanto, que há bons exemplos de gravações onde a cuíca se faz claramente notada, em equilíbrio com os demais instrumentos, e sem interferir no canto e aprendizado do samba. Partindo dessa observação, destacaremos essas gravações em postagens futuras, torcendo para que surjam novos exemplos com a cuíca em alto e bom som nos discos dos próximos carnavais. Porque a cuíca não pode calar, como diz um bordão já famoso nas redes sociais.
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domingo, 21 de abril de 2019

Vídeo 23 - Água de Cuíca [Ernani Cal e Lucas Gralato]

Hoje é o dia dela! Ela que teve o seu legado jurado à extinção, que deixaria órfãos verso, refrão e uma legião de boas praças. Parente da onça, barrica, puíta, sarronca e tantos outros esturros largados. Ela é de fato um tanto estranha, mas estranho mesmo é quem não sabe admirar essa peça rara da história. Essa tinhosa! De choros e sorrisos, euforias e lamentos. Que faz quebrar cintura de mulata e entortar perna de bamba. Ela é o cão! Fonte de inspiração e comunhão que nos faz querer protegê-la. E hoje, novamente, é o dia dela. Um brinde à cuíca! Um brinde com Água de Cuíca! Bebam sem moderação e apreciem sem pestanejar.


Água de Cuíca

Juraram seu legado, a extinção
Quizeram órfão verso e refrão
E uma legião de boas praças
Onça, barrica, puíta, sarronca
Ferina do esturro largado
Estranha, peça rara da história
Tinhosa de choros sorrisos
De euforias e lamentos
Quebrou cintura de cabrocha
Entortou perna de bamba

Tanto fez, foi cão e inspiração
Foi motivo de comunhão
Ninguém vai te condenar
Sou a sua proteção

Bebo água de cuíca
Bebo dela todo dia
Bebo água de cuíca
Bambo nela sem pestanejar
Brinco ela e vou

FICHA TÉCNICA

Composição: Ernani Cal e Lucas Gralato

Gravado no estúdio Podrera Records (2018)
Produção musical: Sidon Silva
Mixagem e masterização: Sidon Silva
Arranjo: Sidon Silva e Ernani Cal

Naipe de Cuícas e Coro gravados no EcoSom (2018)
Imagens: Sidon Silva, Ernani Cal e Yamê Valente
Edição: João Oliveira
Voz: Mako
Voz Tema: Lucas Gralato
Violão: Lucas Gralato
Bateria: Sidon Silva
Percussão: Sidon Silva e Ernani Cal
Cuícas: Ernani Cal e Lucas Gralato
Naipe de Cuícas: Antonio Simões, Doda Sodré, Edu Aguiar, Fabiano Magdaleno, Lia Wogel, Leandro Jordão, LERC, Mako, Neco, Rejane Rodrigues, Renight da Cuíca, Tom.
Coro: Antonio Simões, Doda Sodré, Edu Aguiar, Ernani Cal, Fabiano Magdaleno, Lia Wogel, Leandro Jordão, Lucas Gralato, LERC, Neco, Rejane Rodrigues, Renight da Cuíca, Sidon Silva, Tom, Yamê Valente.
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domingo, 31 de março de 2019

Cuiqueiros 8 - Manoel Quirino

"A fotografia que eu gostaria de ter encontrado na época da escrita do mestrado: a cuíca carioca na transição de sua forma e técnica de execução antiga (ainda como puíta) aqui apresentada por Manoel Quirino, o 'ás da cuíca' da escola de samba Lyra do Amor, de Bento Ribeiro... (Rio de Janeiro, Revista O Cruzeiro - 1935)".

As palavras acima são do historiador e etnomusicólogo Rafael Galanteautor de uma brilhante dissertação de mestrado, já comentada AQUI no blog, onde aborda a relação entre a cuíca e os tambores de fricção da África Central, como a puíta angola. 

E esta é a fotografia em questãoUma imagem que deveria ser impressa em nossos livros escolares e merecia ganhar uma versão em escultura de bronze exposta em praça pública, tamanha a sua beleza e valor histórico.

Originalmente publicada em 16 de novembro de 1935, esta foto ilustra uma reportagem da revista O Cruzeiro sobre a visita de dois bailarinos russos, Clotilde e Alexandre Sakharoff, ao terreiro da escola de samba Lyra do Amor, no bairro carioca de Bento Ribeiro, acompanhados de personalidades da alta sociedade brasileira.

Segundo a revista, os visitantes "se deliciaram ouvindo o ritmo estranho do samba de nossa terra, com suas cuícas, seus tambores monótonos, seus violões plangentes e seus cavaquinhos. Os artistas russos mostraram-se maravilhados com aquele espetáculo de arte primitiva, revelando seu invulgar interesse pelos instrumentos e pelos motivos musicais que escutaram".

Aí vemos Manoel Quirino, um completo desconhecido nos dias de hoje, assim como muitos outros cuiqueiros do passado. Apesar do seu atual anonimato, é provável que ele tenha sido um protagonista de seu tempo, pois ter seu nome citado na principal revista da época, descrevendo-o como "ás da cuíca", significa que ele devia ocupar um lugar de destaque entre os seus contemporâneos. Talvez nunca saibamos maiores detalhes de sua biografia, mas o fato é que ele certamente foi um dos primeiros cuiqueiros do samba, e devemos a pessoas como ele o prazer de, hoje, tocar nossas "choronas".

Além da enorme satisfação que nos dá simplesmente saber da sua existência, esta bela imagem de Manoel Quirino traz também a oportunidade de observar algumas características que a cuíca tinha no passado. Como o próprio Rafael Galante observa, vemos aí um instrumento "na transição de sua forma e técnica de execução antiga". Essa antiga técnica de execução já foi tema de um post AQUI no blog. E quanto às suas antigas características físicas, vale comparar esta cuíca de Manoel Quirino com o seguinte relato de Mestre Marçal a respeito das cuícas que ele via em sua infância:

"Naquela época a cuíca ainda era encourada com tachinhas. Esticava a pele e ia colocando tachinhas. E a vareta não era como a de hoje não. Furava-se a pele com alfinete quente, pregava-se uma arruela de couro por cima e por baixo da pele e amarrava o bambu com arame. Aquilo tinha pouca duração porque o próprio arame ia cortando a pele. Ou então o arame partia. Depois apareceram as cuícas como essas de hoje, que só arrebentam mesmo quando a pele arrebenta" (Depoimento prestado ao jornalista Sérgio Cabral em 1979).

Vemos nitidamente a arruela de couro mencionada por Marçal no centro da pele da cuíca de Manoel Quirino. Já o bambu preso com arame não dá pra enxergar, assim como as tachinhas, mas podemos deduzir que estas estejam ali, fixando o couro em toda a circunferência na barrica de madeira. Desta forma, o método de afinação consistia em aproximar o instrumento à uma fogueira para esticar o couro sob efeito do calor. Depois, como disse Mestre Marçal, apareceram as cuícas como essas de hoje, não mais com tachinhas, arame e arruelas. Mas quando exatamente teria ocorrido essa transição na estrutura do instrumento e também em sua técnica de execução?

Não é simples responder esta pergunta. Entretanto, comparando esta imagem de Manoel Quirino, registrada em 1935, como outra fotografia também já publicada aqui no blog, de Marcelino de Oliveira,  produzida em 1937, vemos que numa diferença de apenas dois anos, o atual mecanismo de afinação e a atual técnica de execução já estavam em uso. Mas além disso tudo, tem ainda o que é de fato importante: o sorriso no rosto de Manoel Quirino demonstra que tocar cuíca traz felicidade há muito mais tempo do que um famoso meme fez, recentemente, todo mundo acreditar.
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Música 20 - Tem brabo no samba [Cena de Escola de Samba]

A música em destaque neste post vem do álbum Tam… Tam… Tam…!, considerado uma das produções mais preciosas da discografia brasileira, e traz uma gravação de cuíca sem dúvida das mais importantes na história do nosso estimado instrumento musical.

São diversos fatores que tornam Tam... Tam... Tam...! um disco tão precioso. Trata-se da trilha sonora do espetáculo teatral Brasiliana, de Miecio Askanasy, composto de quadros que apresentaram aspectos da história e da cultura afrobrasileira a platéias de países da América do Sul, Europa, África e Oriente Médio, entre 1950, quando o espetáculo estreou no Rio de Janeiro, e 1958, ano em que o disco foi lançado pela gravadora Polydor.

O repertório é formado em grande parte por pontos de candomblé, dentre eles Nanã Imborô, que parece ter inspirado Mas que Nada do genial Jorge Ben Jor. Mas para além deste dado curioso, são os arranjos do maestro José Prates e a execução da orquestra, com destaque para o solo vocal do cantor Ivan de Paula, que de fato traduzem a grandeza do disco. Suas faixas correspondem aos quadros daquele espetáculo teatral, como “O Navio Negreiro”, “Festa do Côco”, “Macumba”, “Funerais de Rei Nagô” e ainda “Cena de Escola de Samba”, subtítulo da faixa Tem brabo no samba, executada para a encenação de um desfile carnavalesco assim descrito na contracapa do álbum:

A escola de samba desceu o morro e já se encontra no centro da grande metrópole carioca em pleno carnaval, enquanto os passistas e cabrochas se refrescavam nos bares das proximidades. O surdo, devidamente afinado, novamente invocou os deuses do ritmo que baixaram, se incorporando nos tamborins, reco-recos, cuícas e agogôs, fazendo-os bradarem num crescente infernal! Tam... Tam... Tam...! Porta-estandarte! Mestre-sala! Cabrochas! Passistas! Bateria! Cantam agora o samba! Hino de alegria... evocação à liberdade daqueles que sofreram o cativeiro, músicas benditas por Deus que fazem o povo sorrir na sua hora mais triste. 



Desde a introdução, a música surpreende pela originalidade, revelando gradativamente a diversidade de timbres da sessão de ritmo formada pelos músicos Mateus (tarol), Waldemar (surdo), Hugo (surdo), Darcy (tamborim), Sabú (agogô), Hélio (reco-reco) e o grande Eliseu Félix (pandeiro), que mais tarde formaria o famoso trio percussivo com Luna e Mestre Marçal. Quanto à gravação da cuíca, nem precisava ter o nome Boca de Ouro na ficha técnica para identificar que foi ele o executante.

Com seu estilo inconfundível, nessa performance o Boca nos dá ainda mais elementos para considerá-lo um dos maiores cuiqueiros de todos os tempos. Esse registro evidencia que ele aplicava a cuíca como um instrumento de função essencialmente melódica, produzindo escalas, glissandos e intervalos de notas nitidamente orientadas pelo sistema tonal. Temos aí, portanto, o que justifica a enorme importância dessa gravação, pois ela nos serve como um excelente material para a reflexão em torno da função musical da cuíca, um assunto ainda pouco discutido, mas muito mais complexo do que podemos imaginar.
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Vídeo 22 - Estudo para cuíca sobre gravação de Pretinho da Serrinha [por Juan Carlos Marras]

Que a cuíca é um instrumento musical internacionalmente conhecido nós já sabemos. E sabemos também que grande parte desta fama internacional está diretamente ligada à sua forte presença no contexto das escolas de samba espalhadas por todo o Brasil e também em muitas outras partes do mundo. A transmissão televisiva do carnaval brasileiro ao longo das últimas décadas sem dúvida contribuiu muito para este processo e um exemplo incrível do enorme alcance que a cuíca atingiu no mundo é a Confederação de Cuiqueiros do Japão, sediada em Tóquio.

Mas além de ter sua história fortemente ligada ao carnaval, sabemos também que a cuíca tem vaga cativa em outros contextos e formas de se tocar samba, como nas rodas e pagodes de mesa, nos palcos e estúdios de gravação, assim como em instituições de ensino musical. E tal como no universo carnavalesco, a cuíca também tem os seus representantes internacionais nesses diferentes ambientes do samba. Um deles é o percussionista argentino Juan Carlos Marras, que tem realizado um trabalho belíssimo com seus alunos, dedicando-se a transcrever em partitura algumas performances emblemáticas de cuiqueiros que costumamos escutar em gravações. Neste vídeo, Marras e seu aluno Lucio Schmer reproduzem a linda execução de cuíca que o excepcional Pretinho da Serrinha gravou em Tristeza pé no chão, na interpretação da cantora Teresa Cristina com o Grupo Semente.


Já vimos aqui alguns casos de exercícios para cuíca escritos em pauta, como em Batuque é um privilégio e em Percusión Brasileña, mas nunca a transcrição inteira de uma execução do instrumento na gravação de um samba. Mais abaixo estão as partituras que resultaram deste excelente e, talvez, inédito trabalho.

É certo que muitos de nós gostamos de tocar cuíca pelo simples prazer de brincar em um bloco de carnaval, ou pela emoção de desfilar numa grande bateria, ou apenas pra tirar uma onda num pagode com os amigos no fim de semana, sem que pra isso seja necessário conhecer teoria musical. Mas ninguém há de negar o quanto este exemplo é admirável. ¡Gracias hermanos!

Estudo para cuíca - Tristeza pé no chão - Página 1

Estudo para cuíca - Tristeza pé no chão - Página 2

Estudo para cuíca - Tristeza pé no chão - Página 3

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Disco 5 - Mina da Cuíca

Esse mundo da cuíca tem sempre alguma coisa reservada para nos surpreender. Quando a gente pensa que já viu de tudo, eis que surge algo inusitado como esse disco, Mina da Cuíca, produzido pela gravadora Building Records e lançado em 2004 pela Filmax Music.


Não tenho a intenção de fazer aqui qualquer tipo de julgamento sobre a qualidade artística desse disco, mas a curiosidade sobre a sua concepção é inevitável. Os destaques dados à cuíca no título do trabalho e na imagem da capa não se justificam em relação ao conteúdo musical. E o "som da cuíca"  anunciado na frase de introdução dita pela cantora – é tão artificial que sequer parece ter sido sampleado de um instrumento real. Mas o fato do lançamento desse disco ter ocorrido apenas na Espanha leva a pensar que todo esse destaque dado à cuíca possa ter sido feito com a intenção de explorar um instrumento "exótico", e assim chamar a atenção do público europeu. Independente dessa possível estratégia de marketing antropológico dos produtores, fato é que tanto a gravadora quanto o selo envolvidos nessa produção são voltados ao mercado de Dance Music. Deixo então aos experts do gênero qualquer complementação ao que já foi pontuado. Talvez o vídeo-clipe oficial desse hit os ajudem a tirar conclusões mais apuradas. Mas uma coisa é certa: a cuíca aí não passa de mera alegoria de mão.


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quarta-feira, 20 de junho de 2018

Antiga técnica de execução

*por Marcello Sudoh e Paulinho Bicolor

Desde o início da década de 1930, chegando até a década de 1950, várias ilustrações publicadas em diversos jornais e revistas retrataram a cuíca sendo tocada sem que o instrumentista comprimisse a região central da pele, próxima ao "umbigo", conforme fazemos atualmente para extrair as notas agudas. Os exemplos destacados no slide abaixo apresentam os cuiqueiros segurando seus instrumentos debaixo do braço, com a boca da cuíca virada pra frente e a pele para trás, exatamente na direção oposta de como posicionamos o instrumento hoje.



Conforme já mencionado em uma postagem sobre a evolução sonora da cuíca, essa antiga técnica de execução permitia que apenas as notas graves fossem executadas, tendo como função marcar o tempo binário do samba. Uma prova muito evidente disso se encontra no trecho do filme That night in Rio que reproduzimos abaixo, uma comédia musical lançada em 1941, com a cantora Carmen Miranda entre os protagonistas do elenco. Vemos claramente o cuiqueiro (cujo nome ainda não identificamos) executar a cuíca desse jeito antigo, que deixaria de ser utilizado na medida em que se firmava a técnica que utilizamos atualmente.

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segunda-feira, 21 de maio de 2018

Mapeamento das informações relativas à cuíca disponíveis em fontes bibliográficas

Há cerca de um ano, nosso blog foi enriquecido com uma postagem sobre a dissertação de mestrado do amigo Rafael Galante, que contribui imensamente para o aprofundamento do que se conhece sobre a cuíca e, num sentido mais amplo, sobre a família instrumental dos tambores de fricção de um modo geral. 

Agora, tenho a alegria de compartilhar a pesquisa de mestrado que desenvolvi no Programa de Pós-graduação em Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, sob orientação da professora Regina Meirelles, e que também traz a cuíca como objeto de estudo. 

Nesse trabalho eu procurei fazer um mapeamento das informações sobre a cuíca que se encontram registradas em livros, dicionários, enciclopédias, artigos científicos, teses e dissertações. Consegui reunir ao todo mais de trezentas e cinquenta fontes de dados, das quais 154 serviram efetivamente às etapas mais trabalhosas da pesquisa, que envolveram um processo de categorização das informações por correspondência temática e, em seguida, a análise dos dados com base em determinados critérios de avaliação. 

Pretendo fazer novas postagens abordando os pontos mais significativos dos resultados obtidos, mas quem quiser se adiantar e já conhecer o trabalho na íntegra, basta clicar AQUI

É fato que trabalhos acadêmicos não costumam ser um tipo de leitura muito agradável. No primeiro capítulo, por exemplo, trato da metodologia que utilizei para a realização da pesquisa, um tipo de assunto muitas vezes cansativo. Mas acredito que o segundo e o terceiro capítulos sejam mais interessantes, pois estão repletos de informações sobre variados aspectos e características da cuíca. Essa nuvem de palavras aqui embaixo contém os cem termos mais repetidos em todo esse conjunto e informações, dando uma dimensão resumida da diversidade de temas.  

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