Intro

Bem vindo ao blog Cuiqueiros, um espaço exclusivamente dedicado à cuica – instrumento musical pertencente à família dos tambores de fricção – e aos seus instrumentistas, os cuiqueiros. Sua criação e manutenção são fruto da curiosidade pessoal do músico e pesquisador Paulinho Bicolor a respeito do universo “cuiquístico” em seus mais variados aspectos. A proposta é debater sobre temas de contexto histórico, técnico e musical, e também sobre as peculiaridades deste instrumento tão característico da música brasileira e do samba, em especial. Basicamente através de textos, vídeos e músicas, pretende-se contribuir para que a cuica seja cada vez mais conhecida e admirada em todo o mundo, revelando sua graça, magia, beleza e mistério.

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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Cuiqueiros 7 - Marcelino de Oliveira

*por Marcello Sudoh e Paulinho Bicolor

Marcelino de Oliveira, mais conhecido como Oliveira da Cuíca, nasceu provavelmente no início do século XX, nos paradouros do Estácio de Sá, bairro próximo ao centro do Rio de Janeiro. Segundo depoimentos de sambistas que o conheceram pessoalmente, como o mestre-sala Acelino dos Santos, conhecido como "Bicho Novo", Oliveira era filho de dona Marcelina, respeitada senhora que mantinha um prostíbulo muito conhecido naquela região.

Oliveira da Cuíca (Revista "O Malho" - 16/12/1937)

Logo cedo, o sambista esguio e boa pinta, da turma de bambas como Brancura, Baiaco e Bucy Moreira, se envolveu com o samba "estaciano" e com o famoso bloco "Deixa Falar", que ainda não era conhecido como escola de samba. Sua presença tocando cuíca na bateria do bloco foi descrita por importantes sambistas e antigos moradores do Estácio em uma serie de depoimentos coletados pelo jornalista Francisco Duarte. Alguns desses depoimentos estão no CD que acompanha o livro "Samba de sambar do Estácio - 1928 a 1931", onde há uma preciosa fala de Xangô da Mangueira (disponível no player abaixo) sobre o fato de Oliveira ter aprendido a fabricar cuícas seguindo os ensinamentos de João Mina. O mangueirense informa ainda que muitos grupamentos carnavalescos da época compravam as cuícas fabricadas por Oliveira.



Com o crescimento da indústria fonográfica coincidindo com o período em que o governo brasileiro firmava o conceito de "cultura brasileira", músicos e compositores de diversos matizes passaram a atuar em discos de gravadoras como a Odeon e a Victor. Era uma chance imperdível para os ritmistas dos morros, que viam ali a possibilidade de obter renda com aquilo que faziam por lazer: tocar samba. Instrumentos "rudimentares", então usados em terreiros e desfiles de rua, tiveram que ser adaptados para os estúdios de gravação. Caso contrário, aqueles músicos estariam fora de um novo mercado que remunerava os sambistas. Foi nessa época que apareceram as primeiras cuícas com afinadores e aros cromados, substituindo as antigas cuícas que tinham a pele presa com taxinhas. Eram exigências que os estúdios de gravação impunham já que era impossível acender fogueira em ambientes fechados a fim de esticar o couro dos instrumentos e obter a afinação desejada.

Oliveira certamente foi um dos pioneiros na fabricação de cuícas com essas modificações, mas não é possível saber se as características que a cuíca adquiriu em função desses novos padrões foram ideia dele. Muniz Júnior, por exemplo, afirma que quem primeiro instalou tarraxas (afinadores) na cuíca foi Samuca, da escola de samba "Paz e Amor", de Bento Ribeiro. Seja pela suposta intervenção de Samuca ou de qualquer outro personagem que ainda permanece anônimo, podemos intuir que Oliveira tenha contribuído, em alguma medida, nesse processo de modificações na estrutura da cuíca, e que o crescimento das gravações em discos deva ter lhe garantido bons rendimentos, aumentando a venda de cuícas dentro dos novos padrões, além de ele mesmo tocar em muitos desses discos. Haja vista o fato de que suas atuações em gravadoras e emissoras de rádio o deixaram conhecido como "rei da cuíca" (Boca de Ouro também seria chamado assim, alguns anos mais tarde).

Em 1931, Francisco Alves grava o samba "Meu Batalhão", de Ismael Silva e Nilton Bastos, sendo este o registro dos sons de uma cuíca mais antigo de que temos conhecimento. Nessa época, a cuíca ainda não executava as notas agudas e tinha como função marcar o tempo do samba, como o surdo faz atualmente. É bem possível que o cuiqueiro nessa gravação tenha sido o Oliveira.


Já em 1936, Aracy de Almeida grava "Mandei Carimbar", de Kid Pepe e Germano Augusto, que adaptaram no refrão um tema tradicional das antigas rodas de pernada do Rio de Janeiro. Segundo o amigo Barão do Pandeiro, que nos indicou essa bela gravação, a cuíca que nela escutamos foi gravada pelo Oliveira. É interessante notar que, diferente da gravação de "Meu Batalhão", onde o instrumento emite apenas notas graves marcando o andamento do compasso, em "Mandei Carimbar" a cuíca é aplicada com maior variedade rítmica, sendo nítida a execução de notas graves e agudas, embora a afinação ainda fosse "grave" em comparação à sonoridade que nos habituamos escutar hoje em dia.


Se, como acreditamos, Oliveira foi mesmo o cuiqueiro dessas duas gravações, podemos concluir que ele contribuiu não só para o processo de modificações na estrutura da cuíca, como fabricante do instrumento, mas também participou ativamente do processo de modificações na técnica de execução, na função da cuíca em um arranjo musical, e na evolução sonora do instrumento.

Mas a carreira artística de Oliveira da Cuíca foi além de sua enorme importância enquanto cuiqueiro. Em 1933, ele teria formado um trio vocal-instrumental para excursionar pelo país com dois outros sambistas que também carregavam o seu sobrenome: Wilson Baptista (de Oliveira) e Agenor de Oliveira, o Cartola. Lamentavelmente – reproduzindo as palavras de Rodrigo Alzuguir , "poucos tiveram a sorte de assistir a esse encontro inusitado. A turnê brasileira do conjunto se resumiu a sacolejar por algumas horas num trem da Estrada de Ferro Central do Brasil, indo e voltando pela Linha do Centro até a cidade fluminense de Barra do Piraí - onde Oliveira, Wilson e Cartola se apresentaram sem deixar lembranças. E o trio se desfez". Entretanto, em outras oportunidades, Oliveira pôde se apresentar inclusive fora do país. A "Embaixada Brasileira", grupo criado por Heitor dos Prazeres, tinha entre seus membros Paulo da Portela, Oliveira da Cuíca e a cantora Marília Batista. O grupo foi convidado a se apresentar no Uruguai, em dezembro de 1937. Antes da viagem, a "Embaixada" ocupou os microfones da Rádio Nacional a fim de apresentar o que mostrariam em Montevideo.

O fato de Oliveira ter trabalhado ao lado de compositores tão importantes leva a suspeitar que ele possa ter sido também compositor, e tudo indica que "Samba Raiado", gravado em 1931 por Ismael Silva, seja uma música dele. Fontes atribuem a autoria desse samba a Marcelino de Oliveira, o que nos leva acreditar, portanto, que seja uma composição do nosso cuiqueiro. "Samba Raiado" é um belo exemplo da transformação que o gênero samba sofreu durante sua migração do maxixe para o samba que conhecemos. O tema é ainda hoje muito usado em rodas de partido-alto, sendo Aniceto do Império o seu principal divulgador e, mais recentemente, chegando às novas gerações através do grupo Revelação.



Oliveira da Cuíca faleceu precocemente, em maio de 1938, conforme publicado em nota pelo jornal "A Noite". Segundo Mestre Marçal, em depoimento ao jornalista Sérgio Cabral, "o enterro dele saiu ali do baixo meretrício, passou por dentro, correu aquilo tudo", afirmando ainda que Oliveira foi o primeiro cuiqueiro que ele conheceu. Esta simples afirmação de uma das nossas maiores referências, como o é Mestre Marçal, nos dá a dimensão da enorme importância de Oliveira, não só para a história da cuíca, mas para toda a história do samba.


FONTES:
  • Pioneiros do samba: Bicho Novo, Carlos Cachaça e Ismael Silva - livro de Arthur de Oliveira Filho publicado em 2002 pelo Museu da Imagem e do Som.
  • Vida e morte do Deixa Falar, o bloco que deixou escola - reportagem de Francisco Duarte publicada em 13 de fevereiro de 1979 no Jornal do Brasil.
  • Samba de sambar do Estácio: 1928 a 1931 - livro de Humberto M. Franceschi publicado em 2010 pelo Instituto Moreira Salles.
  • Do batuque à escola de samba: subsídios para a história do samba - livro de J. Muniz Júnior publicado em 1976 pela editora Símbolo. 
  • Wilson Baptista: o samba foi sua glória - livro de Rodrigo Alzuguir publicado em 2013 pela editora Casa da Palavra.
  • A morte do "rei da cuíca" - nota publicada em 23 de maio de 1938 no jornal A Noite.
  • As escolas de samba do Rio de Janeiro - livro de Sérgio Cabral publicado em 1996 pela editora Lumiar.
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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Música 19 - Guia cruzada [Douglas Germano]

De todas as músicas onde existe alguma citação ao nosso estimado instrumento musical, "O ronco da cuica", de João Bosco e Aldir Blanc, talvez seja a mais emblemática. Outra, não tão conhecida, mas também muito importante é "Como se faz uma cuica", de Haroldo Lobo e Wilson Baptista, um verdadeiro documento histórico que registra as características da cuica nas décadas de 1930 e 1940. Hoje, podemos incluir "Guia Cruzada" nesse seleto repertório, música do compositor (e cuiqueiro) Douglas Germano, que generosamente enviou as seguintes palavras para enriquecer esta postagem:

A música "Guia Cruzada" é uma Ode à personagens que são reservas éticas e justas em diversas situações e grupos. A metáfora traça o ponto de vista de um cuiqueiro de bateria de escola de samba avesso ao esfacelamento da tradição, da noção de trajetória e às transformações impostas por ações que não sejam fruto de desenvolvimento a partir destas experiências. A inspiração é um excepcional cuiqueiro com muitas décadas na fila de cuicas da bateria do G.R.E.S. Nenê de Vila Matilde: Seu Mussum.

Para ouvir "Guia Cruzada", clique no player abaixo:



Guia Cruzada
(Douglas Germano)

Era linha de frente na ala de cuica,
já viu muita cabrocha envelhecer.
O seu ronco encobria os "tarol" e as "ripa",
no samba botava pra ferver.
No talabarte a cuica cobria o coração,
Num alguidá é que ele molhava o gorgurão.

Era linha de frente na ala de cuica,
Já viu muitos "apitador" cair.
Sua bronca era gente de classe mais rica
que vinha em fevereiro querendo sair.
Sua cuica rugia, dizia:
— Não! "Tão" loteando as "faixa" do nosso pavilhão.

"Nêgo" tirava:
Sempre arrumando confusão!
Outro calava e tirava a mesma conclusão.
Mas era Xogum Guia Cruzada
Pr'um lado Xangô, pro outro Ogum.

Você, desavisado, curtindo o seu reinado,
no "vende/compra" qualquer um...
No teu mapa da mina, o X em cada esquina
indica que tem lá mais um.
Igual a Xogum Guia Cruzada:
Oxé de Xangô na mão de Ogum

Era linha de frente na ala de cuica,
Anhembí, Tiradentes, São João...
Adorava contar como era bonita
a avenida antes da televisão.
Sua cuica era ferro com ronco de trovão
Por minha parte, Xogum tava sempre com a razão.


P.s.: Encontrei esse vídeo no Instagram de @juravalenca7, onde vemos o Seu Mussum e sua cuica hermeticamente encaixada, ou melhor, como diz Douglas Germano em poesia, "cobrindo o coração".


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domingo, 10 de setembro de 2017

Disco 3 - Samba, Suor e Ouriço [vol.1]

*Texto do amigo Marcello Portelense especialmente elaborado para este humilde espaço cuiquístico. Obrigado Marcello!

Lançado pela “Soma” - subgravadora da “Som Livre” - em 1976, este LP é o primeiro de uma série comercializada até a década de 90, inclusive em K7. “Samba, Suor e Ouriço” traz faixas com sambas populares e era muito vendido no final de ano, da véspera do Natal até o carnaval.

CAPA - Samba, Suor e Ouriço
Continue lendo AQUI.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Minha cuí@ [Luis Turiba]

Poema de Luis Turiba, o cuiqueiro poeta, publicado em seu livro Qtais (Ed. 7Letras, 2013).


MINHA CUI@

Cuica cuica cuica
Entre a cuica e a cítara
Cui@ se classifica

Faz o samba salpicar
Supimpa sais tapiocas
Faz o samba sincopar
Cintila sóis de pipocas

Meu violino de bambu
Meu tambor de sutilizas
Libertação minha presa
Meu cristal e meu vodu

Turbina de jatos rítmicos
Sorrisos, roncos e choros
Alvorada quase mística
Vara que invade o couro

Primitiva és complexa
Súplica cuica est
Marcas solas, mil firulas
Com tua boca de gula

Cuiqueiro é presepeiro
Vai à frente mostra os dentes
Cuiqueiro é aprendiz
Da vara da meretriz

Mas cuica também falha
Em plena Sapucaí
Quebra a vara, rompe o couro
Desarma o circo e o sigilo
Por isso, digo em sigilo:

Tenho duas cuicas
Florença e Nikita
Enquanto Florença aflora
Nikita quica

E assim floreiam o mundo
Desafinadas, as cuicas

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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Música 18 - Cuica [Rosinha de Valença]

Essa música é uma homenagem da violonista Rosinha de Valença ao nosso mestre Zeca da Cuica, gravada no sétimo disco da compositora, lançado em 1973. É difícil descrever essa gravação, mas a originalidade da composição, o arranjo e a performance de cada músico, são de cair o queixo. Inclusive o trabalho de mixagem, que muitas vezes não prestamos muita atenção, é super bacana. Vale a pena escutar com um bom fone de ouvido para perceber a distribuição em stereo dos instrumentos e, claro, com especial atenção para a cuica do Sr. Zeca. O brilho e a consistência das suas notas agudas são inconfundíveis, e aqui ele ainda explora alguns sons mais inusitados  tirados apertando o pano sobre o gambito com uma leve pressão a mais do que o habitual – logo na introdução, ajudando na dramaticidade que caracteriza a composição.



Um fato curioso é que essa música foi regravada em 1976, no disco Confusão urbana, suburbana e rural, do clarinetista Paulo Moura, mas com outro título: "Tema do Zeca da Cuica". Nesse registro, é precedida por "Bicho papão", de Martinho da Vila, Wagner Tiso e Paulo Moura, mas logo se escutam os acordes do violão pelas mãos da Rosinha e o Sr. Zeca mais uma vez arrepiando na cuica. É muito interessante fazer a comparação entre essas duas gravações. Apesar de ser a mesma composição, são duas interpretações bem diferentes, mas em ambas o Sr. Zeca demonstra porque mereceu ganhar uma música em sua homenagem, partindo de uma artista tão especial como a Rosinha de Valença.
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quarta-feira, 7 de junho de 2017

A cuica do Laurindo [nova temporada]


O premiado musical "A cuica do Laurindo" entrará novamente em cartaz no Rio de Janeiro, no teatro Carlos Gomes, de 16 de junho à 30 de julho (quinta a sábado às 19h / domingo às 17h). Ingressos antecipados AQUI, por módicos R$40 inteira e R$20 meia.

A trama da peça gira em torno do cuiqueiro Laurindo, um personagem fictício criado por Noel Rosa, mas certamente inspirado nas figuras do samba com quem o compositor conviveu. Trata-se de uma comédia musical primorosamente idealizada por Rodrigo Alzuguir e dirigida por Sidnei Cruz. São cerca de quarenta canções contado as peripécias que envolvem os diversos personagens, brilhantemente interpretados por Alexandre Rosa Moreno (Laurindo), Claudia Ventura (Conceição do Zé), Hugo Germano (Tião / Cabaretier / Jota Efegê / Laurindo Filho), Marcos Sacramento (Dodô / Mais Velho / Maestro Strondowski), Nina Wirtti (Guiomar Wendhausen / Cabaretiere) e Vilma Melo (Zizica Tupynambá), além do próprio Rodrigo Alzuguir (Zé da Conceição / Hercule Perrier).

Como muitos seguidores desse humilde espaço cuiquístico não vivem no Rio de Janeiro e dificilmente poderão assistir a peça, compartilho abaixo os registros de algumas cenas, a começar pela interpretação de Triste Cuica, composição em que Laurindo ganhou vida, e também a morte, pois foi nessa música que Noel Rosa criou o personagem, em 1935, embora revelando no fim da canção que Laurindo teria sido misteriosamente assassinado. Vale destacar a bela performance do músico Marcus Thadeu executando a cuíca, acompanhado por Magno Júlio (percussão), Yuri Villar (sopros), Rafael Mallmith (violão 7 cordas) e Luis Barcelos (bandolim e direção musical), que tocam lindamente durante toda a peça. 


Esse segundo registro traz um trecho da música "Como se faz uma cuica", da autoria de Haroldo Lobo e Wilson Baptista, que descreve poeticamente em seus versos as características de uma cuica na década de 1940 (um pedaço de pau / um pedaço de couro / numa barrica / é assim que se faz uma cuica...).


O próximo vídeo traz uma lindíssima interpretação de "Ave Maria do morro", composição de Herivelto Martins, de 1942, que, de modo comovente, narra a devoção dos moradores de uma favela, rezando juntos ao fim do dia por uma vida menos sofrida.


E esse último vídeo registra um dos pontos altos da peça, quando todo o elenco interpreta "Praça Onze", também de Herivelto Martins, em parceria com Grande Otelo, que narra a angústia dos sambistas ao tomarem parte da notícia de que um dos principais redutos do samba no Rio de Janeiro, a Praça 11 de Junho, seria destruída para a abertura de uma nova avenida na cidade.

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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Música 17 - Conversa fiada [Banda Mel]

A exemplo dos posts "A cuica no rock and roll" e "A cuica no jazz", a postagem de hoje também aborda a presença da nossa querida "chorona" em contextos da música popular que ela não costuma ser utilizada com tanta frequência. Dessa vez, no contexto do axé-music.

A música Conversa fiada, da autoria de Marinho, integra o repertório do disco Negra, lançado em 1991 pela Continental, o quinto álbum de uma das bandas precursoras do samba-reggae, a Banda Mel. A intérprete é a cantora Márcia Short e o músico responsável pela gravação dessa cuica esperta, infelizmente, não tem o seu nome registrado no encarte do disco. A ficha técnica registra apenas os integrantes da Banda Mel e músicos convidados, executantes de instrumentos de sopro. Mas ficam aqui os registros da poesia dessa canção e dos sons da cuica suingando bonito no balanço do axé.


CONVERSA FIADA
(Marinho)

Vamos cantar, vamos cantar, vamos mostrar
Vamos cantar, vamos cantar, vamos mostrar
Vamos mostrar pra todos o nosso cantar
Pois a corda só quebra pro lado de cá

Não quero mais essa conversa fiada
Não quero mais ouvir essa piada
Que o Brasil é o país do futuro
Isso é balela pra trouxa, o povo anda duro

Hei galera, vamos nessa!
Nessa onda quero arrebentar
Não quero mais ouvir essa conversa
Papo de deixa disso, ou de deixa pra lá

Vamos cantar, vamos cantar, vamos mostrar
Vamos cantar, vamos cantar, vamos mostrar
Vamos mostrar pra todos o nosso cantar
Pois a corda só quebra pro lado de cá

Consciência anda faltando
Em más notícias ando mergulhando
Pois, hoje, chega! Eu quero gritar!
Que o povo que canta não me deixa calar
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quinta-feira, 30 de março de 2017

Da cupópia da cuica: a diáspora dos tambores centro-africanos de fricção e a formação das musicalidades do Atlântico Negro (Sécs. XIX e XX)

A postagem de hoje é bastante especial, pois destaca um trabalho extremamente significativo para a construção de conhecimento sobre a cuica, um instrumento que, embora desperte muita curiosidade, ainda guarda um passado pouco conhecido, além de uma série de outras questões que, creio eu, permanecem mal compreendidas.

Da cupópia da cuica: a diáspora dos tambores centro-africanos de fricção e a formação das musicalidades do Atlântico Negro (Sécs. XIX e XX) consiste na dissertação de mestrado de Rafael Galante, defendida em 2015 no Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade de São Paulo - USP. Até onde sei, esse é o trabalho de maior fôlego já realizado sobre a cuica, claramente desenvolvido com base em densas pesquisas documentais e etnográficas, assim apresentado pelo seu autor:

O objetivo principal desta dissertação é o de recuperar a dimensão atlântica da história social das musicalidades afro-brasileiras criadas por africanos escravizados e seus descendentes durante o último século de escravismo e ao longo das primeiras décadas do período pós-abolição. O foco recai, sobretudo, no entendimento dos movimentos de transposição histórica dos tambores de fricção, de determinadas áreas do continente africano para as Américas, sua importância na formação das comunidades e culturas musicais afro-brasileiras, especialmente naquelas relacionadas ao samba urbano carioca, bem como nas transformações que o processo de diáspora imprimiu na organologia e na performance realizada por meio destes tambores de fricção. Este estudo, como também o inventário realizado dos instrumentos musicais que compunham as paisagens musicais do Brasil e de determinadas sociedades da África Central, sustenta-se sobre fontes históricas variadas, desde representações iconográficas contidas em crônicas, relatos de viagem e etnografias de viajantes e estudiosos que percorreram as diversas sociedades do período, análise de exemplares de instrumentos africanos pertencentes a coleções museológicas, até a escuta e análise de diversos fonogramas disponibilizados por meios eletrônicos.

Em outras palavras, essa pesquisa contribui não só para o aprofundamento do que se conhece sobre a cuíca, mas também sobre a família instrumental dos tambores de fricção de um modo geral, dando passos fundamentais na ampliação do conhecimento sobre a presença destes instrumentos em diferentes regiões do Brasil, bem como sobre a relação desse patrimônio cultural brasileiro com a extensão atlântica da África central. Enfim, o trabalho como um todo é da maior importância e a forma como foi escrito torna a leitura bastante prazerosa. Para quem se interessar, o download gratuito encontra-se disponível AQUI.

Aproveito a oportunidade para parabenizar o Rafael pela sua iniciativa e dedicação e agradecer o verdadeiro presente que ele nos dá, possibilitando que a gente conheça mais sobre a nossa querida chorona.

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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Amado Jorge, a história de uma raça brasileira [Osvaldinho da Cuica, Namur e Macalé do Cavaco]

Essa postagem traz o registro de um samba do nosso ícone Osvaldinho da Cuica interpretado pelo cantor e compositor Leandro Lehart em seu DVD Ensaio de Escola de Samba, onde celebra alguns dos sambas históricos do carnaval paulista. Em vídeo, ele conta que foram inicialmente selecionados cento e cinquenta sambas, da década de 1960 aos anos 2000, dos quais quatorze entraram no repertório final. O trabalho contou com ritmistas de diversas escolas de samba de São Paulo e do Rio de Janeiro, sendo que os dois cuiqueiros, Edmir e Magrão, representam o excelente naipe de cuicas da Império de Casa Verde. O mais bacana desse registro é que eles fazem uma bela homenagem ao Osvaldinho tocando as cuicas a capella no final da gravação.



Amado Jorge, a história de uma raça brasileira, que Osvaldinho compôs em parceiria com Namur e Macalé do Cavaco, garantiu à Vai-Vai o seu sexto campeonato, no carnaval de 1988. 
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Vídeo-aula de cuica

Faz tempo que me pedem para postar vídeos com dicas de como tocar cuica, como afinar, com sugestões de exercícios, enfim, com orientações gerais sobre a execução do instrumento. A melhor forma que encontrei para atender essa demanda foi criar uma playlist de vídeos cuja temática seja o ensino do instrumento. Este assunto, aliás, já foi abordado em outras postagens onde apresentei métodos de ensino musical com exercícios para a cuica, por exemplo, nos posts Batuque é um privilégio, sobre o método de Oscar Bolão, Percusión Brasileña, método de Fernando Marcon, e também o post Na bateria da escola de samba, sobre o livro de Leandro Braga.

Com relação a essa playlist, selecionei os vídeos com base na ordem em que apareciam nos resultados de busca, mas tentei manter uma sequência em relação à autoria. Até agora são 34, mas vou acrescentar novos vídeos à medida em que os encontrar. A maioria é em português, mas também há registros em inglês e em espanhol. Alguns apresentam boa qualidade de produção, com a imagem e o áudio bem nítidos, enquanto outros são tecnicamente inferiores, mas não menos importantes. Deve dar bastante trabalho fazer um vídeo desses, mesmo aqueles mais "caseiros", então aproveito a oportunidade para agradecer a generosidade dos nossos colegas e parabenizá-los pela iniciativa em compartilhar seus conhecimentos. 


Essa playlist mistura aulas voltadas para quem está começando no instrumento e também para quem já está em um nível de aprendizado mais avançado. Aliás, como diriam os antigos, a cuica é um instrumento um tanto quanto "melindroso", então nunca devemos pensar que já sabemos o bastante sobre ela. Até porque, uma característica essencial que envolve tudo relacionado a tocar este instrumento é o fato de cada cuiqueiro ter as suas preferências e maneiras pessoais de fazer isso ou aquilo. Observar essas diferenças é sempre enriquecedor e esses vídeos são a prova concreta da variedade desses pontos de vista e, consequentemente, da complexidade envolvida na transmissão desses conhecimentos. A propósito, essa playlist também pode servir para quem é professor de cuica se inspirar em algumas ideias e trabalhar com seus alunos. Desejo a todos uma excelente aula!
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