Intro

Bem vindo ao blog Cuiqueiros, um espaço exclusivamente dedicado à cuica – instrumento musical pertencente à família dos tambores de fricção – e aos seus instrumentistas, os cuiqueiros. Sua criação e manutenção são fruto da curiosidade pessoal do músico e pesquisador Paulinho Bicolor a respeito do universo “cuiquístico” em seus mais variados aspectos. A proposta é debater sobre temas de contexto histórico, técnico e musical, e também sobre as peculiaridades deste instrumento tão característico da música brasileira e do samba, em especial. Basicamente através de textos, vídeos e músicas, pretende-se contribuir para que a cuica seja cada vez mais conhecida e admirada em todo o mundo, revelando sua graça, magia, beleza e mistério.

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segunda-feira, 30 de março de 2020

A cuíca nas baterias universitárias

*por Lineker Oliveira e Paulinho Bicolor

Reza a lenda que a expressão "escola de samba" surgiu de uma analogia feita pelo compositor Ismael Silva entre o bloco Deixa Falar, criado por ele e seus amigos no bairro carioca Estácio de Sá, e a Escola de Normalistas situada no mesmo bairro, que formava professoras para os colégios do município. Ismael via os bambas da Turma do Estácio como "professores" e o Deixa Falar seria a "escola" onde eles ensinavam samba. Mas há quem duvide que a expressão tenha surgido deste insight do sambista, afirmando ser mais provável que o famoso rancho Ameno Resedá, conhecido como "rancho escola" antes do Deixa Falar existir, tenha inspirado a denominação que os sambistas passaram a usar em suas agremiações. De todo modo, o que há de mais significativo na origem dessa expressão é o fato de vincular uma prática cultural marginalizada - o samba - a uma instituição socialmente respeitada - a escola. Segundo o historiador Luiz Antônio Simas, na década de 1920, enquanto os sambistas buscavam pavimentar caminhos de aceitação social, o Estado procurava disciplinar as manifestações culturais das camadas populares. A expressão "escola de samba", portanto, independente de como surgiu, possivelmente logo se firmou por sintetizar um grave dilema social, equilibrando os interesses do Estado e dos sambistas naquela época. Desde então, outras expressões ligadas ao sistema educacional foram assimiladas ao universo do samba, como o termo "acadêmicos", presente no nome de várias agremiações, o termo "mestre", dado aos regentes das nossas orquestras e, mais recentemente, com as jovens e irreverentes baterias universitárias, que levam esse jogo de palavras, na prática, para muito além do vocabulário.



As baterias universitárias foram originalmente criadas para incentivar torcidas e atletas em torneios esportivos. A primeira de que se tem notícia, a Bateria Charanga, foi criada em 1969 por alunos do curso de engenharia da Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais. Hoje, segundo levantamento do blog Bateria S/A, existem aproximadamente trezentas espalhadas por todo o Brasil. Elas continuam animando as arquibancadas dos torneios esportivos, mas adquiriram vida própria, organizadas em ligas regionais como a LIBURJ, a LBMG e a CWBU, associadas à liga nacional - LNBU, contando com sistemas de gestão e programas de atividades cada vez mais elaborados. Além do cronograma de ensaios, a agenda inclui festas de casamento e formatura, bem como uma série de campeonatos acirrados e, claro, regados por muita curtição. Os principais são o Balatucada, o Interbatuc, a Taça das Baterias Universitárias - TABU, e a Copa das Baterias Universitárias - CBU. O regulamento desses campeonatos se assemelha aos critérios de julgamento aplicados às baterias das escolas de samba, que servem também de parâmetro às características da batucada e instrumentação de cada grupo. Nesse ponto, uma bateria em especial se destaca de todas as demais por ser a única com um naipe de cuíca consolidado em sua formação: a Bateria Bandida.
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Fundada em 2007 na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo - EACH-USP, a Bateria Bandida não hesita em ostentar o prestígio de ter a chorona em sua formação, o que fica evidente em seu brasão e também no seu lema: se a cuíca chorou é o Bonde da Leste! A swingueira que sacode a torcida EACHiana! O primeiro diretor das cuícas do Bonde da Leste, Renan Costa, nos deu um interessante relato sobre a representatividade da Bandida no cenário universitário e o quanto isso se deve à sua própria atuação e pioneirismo, como se observa nesse trecho da nossa conversa:



O protagonismo da cuíca na Bateria Bandida, apesar de ainda não se refletir em outras baterias universitárias, tem reverberado de forma bastante efetiva no meio das escolas de samba. O próprio Renan, por exemplo, é o atual diretor de cuíca na Unidos de Vila Maria e sua substituta na direção das choronas na Bateria Bandida, Alice Caliento, mais tarde saltaria do Bonde da Leste para liderar o histórico naipe formado só por mulheres na Acadêmicos do Tatuapé.

Outra forma da Bandida demonstrar o quanto a cuíca é importante em sua formação se dá por meio de um momento em suas apresentações chamado "chora cuíca", um breque especialmente reservado para o destaque das choronas, recriado a cada ano em novas convenções. O vídeo abaixo registra o "chora cuíca" de 2014, apresentado no torneio Balatucada. Com ele encerramos essa postagem torcendo que seu título - no plural - um dia faça sentido em gênero, número e grau. Vida longa à Bandida! Chora cuíca!!!

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Osvaldinho da Cuíca - 80 anos

Hoje é dia de reverenciar um dos nossos maiores mestres! Osvaldo Barro, o nosso querido Osvaldinho da Cuíca, completa hoje 80 anos! Paulistano nascido no Bom Retiro, foi cedo viver com a avó em Poá. Ouvindo-a cantar cateretês à luz da lamparina, escutando rádio pelo serviço de autofalantes da pracinha e observando os festejos do carnaval local, o pequeno Osvaldinho teve ali os seus primeiros contatos com música. No final dos anos 1940, voltou para morar com uma tia em São Paulo, onde definidamente se encantou pela batucada brasileira ao ver e ouvir nomes como Herivelto Martins, Monsueto e Ataulfo Alves nos cinemas que contagiavam a atmosfera cultural da capital paulista dos anos 1950. A inspiração dos filmes o levou a transformar a ferramenta de trabalho do seu primeiro ofício, uma caixa de engraxate, no instrumento musical em que pôde dar as primeiras exibições de sua fascinante habilidade percussiva.


Habituado a fazer ponto na frente de uma gafieira do Tucuruvi, engraxando sapatos e batucando na caixa, Osvaldinho logo fez amizades com os sambistas da região, integrantes dos cordões que viriam a ser as atuais escolas de samba da Paulicéia. Aos 14 anos, entrou para o cordão Garotos do Tucuruvi, onde compôs os seus primeiros sambas e se aproximou dos instrumentos que o tornariam famoso, principalmente a sua amada cuíca, inspirado por grandes cuiqueiros da época como Boca de Ouro e Zé da Rita. Aos 18 anos, já havia se tornado um músico profissional, participando de gravações em discos como percussionista, acompanhando diversos cantores e cantoras em casas noturnas e programas de rádio, mas foi no grupo de teatro popular do poeta Solano Trindade que ganhou seu nome artístico, conforme ele mesmo relata em entrevista ao MIS/SP. O nome Osvaldinho da Cuíca, ao se espalhar pelo mundo, se transformou numa verdadeira bandeira de popularização da "chorona" como talvez nunca ocorrido com outros cuiqueiros. Não faltam provas para evidenciar o quanto ele foi e ainda é um cuiqueiro excepcional.



Muito mais do que um cuiqueiro icônico, Osvaldinho herdou o posto de autêntico símbolo do samba paulista, equiparando-se a nomes como Geraldo Filme, Henricão, Adoniran Barbosa e Germano Mathias, dos quais foi discípulo. A passagem pelo conjunto Demônios da Garôa foi um importante acontecimento em sua ascensão artística, bem como a constante atuação em diversas frentes da Vai-Vai, sua escola do coração, por três vezes campeã com sambas de sua autoria, dos seis que cruzou a avenida sambando com a maestria digna de um genuíno mestre-sala. Sua trajetória é também marcada pela discografia que apresenta seu valioso trabalho autoral, num total de sete discos, e ainda pela grande contribuição à preservação da memória do samba, à exemplo do livro Batuqueiros da Paulicéia, do qual é coautor. Já o livro Sampa, Samba, Sambista, de Maria Aparecida Urbano, narra a vida desse grande artista de forma muito mais detalhada do que cabe nessa singela homenagem. Devemos ser gratos ao tempo por dar ao nosso mestre tamanha longevidade. Osvaldinho chega aos 80 anos de vida, mas há muito que seu nome já se tornou eterno. Viva Osvaldinho da cuíca! Viva o nosso mestre!