Intro

Bem vindo ao blog Cuiqueiros, um espaço exclusivamente dedicado à cuica – instrumento musical pertencente à família dos tambores de fricção – e aos seus instrumentistas, os cuiqueiros. Sua criação e manutenção são fruto da curiosidade pessoal do músico e pesquisador Paulinho Bicolor a respeito do universo “cuiquístico” em seus mais variados aspectos. A proposta é debater sobre temas de contexto histórico, técnico e musical, e também sobre as peculiaridades deste instrumento tão característico da música brasileira e do samba, em especial. Basicamente através de textos, vídeos e músicas, pretende-se contribuir para que a cuica seja cada vez mais conhecida e admirada em todo o mundo, revelando sua graça, magia, beleza e mistério.

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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

A cuíca nos discos de samba-enredo [Parte 1]


A história nos conta que os primeiros desfiles das escolas de samba datam do início da década de 1930, sendo a famosa Praça Onze, no Rio de Janeiro, o berço do que hoje é conhecido como "o maior espetáculo da terra". Desde aquela época, a cuíca já se destacava como um elemento importante nesse contexto. O concurso para cidadão samba de 1936, por exemplo, avaliou os candidatos com base nos critérios convívio no morro, boa conduta, saber tocar pandeiro, puxar cuíca, bater tamborim e surdo, e ter três composições próprias. Muita coisa aconteceu da Praça Onze à "espetacularização" dos desfiles e um fator importante nesse processo é a produção anual dos discos de samba-enredo, iniciada em 1968 com o LP Festival de Samba.



Gravado ao vivo nos terreiros das escolas que naquele ano disputaram o principal título do carnaval carioca, Festival de Samba é um marco na discografia brasileira. Muito poderia e deve ainda ser dito a seu respeito, mas com relação à cuíca, chama atenção a presença discreta da chorona na maioria dos sambas, inclusive na faixa acima, que destaca o som das baterias de cada escola. A dificuldade técnica imposta pelos equipamentos de gravação disponíveis na época certamente justifica a má captação do som das cuícas, mas é oportuno associar tal fato aos discos do gênero produzidos atualmente.

Os amantes da cuíca vem tendo grande frustração com os discos de samba-enredo nos últimos anos, pois o som da chorona tem sido suprimido das gravações como se ela nem existisse nas baterias. Mas, por qual razão isso está acontecendo se hoje o aparato tecnológico já é capaz de superar qualquer dificuldade de produção? Nada melhor do que ouvir uma das maiores autoridades no assunto para buscar uma resposta. Convidamos Nilsinho Neon para expor a opinião de quem tem na bagagem quase cinquenta anos de desfiles no carnaval carioca e mais de três décadas de gravações de cuíca em discos de samba-enredo. Com propriedade, seu depoimento trás uma breve análise do tema e um resumo de sua própria experiência no samba.



A origem do seu apelido, por usar luz neon buscando maior visibilidade nos desfiles, é análoga ao desejo de que a cuíca também se faça mais notada nos discos de samba-enredo. Conforme Nilsinho nos revela, a justificativa dos produtores com relação à redução do som da cuíca nos discos seria então a prioridade dada ao canto do samba, mantendo a base instrumental em planos secundários para favorecer o aprendizado da letra. Entretanto, diminuir o som da cuíca nas gravações a ponto de praticamente eliminá-la do áudio é uma decisão que descaracteriza a diversidade sonora das baterias e que compromete a experiência de quem escuta os discos na expectativa de apreciar toda a riqueza musical das escolas de samba. Se considerarmos a discografia completa dos sambas-enredo do Rio de Janeiro, bem como a discografia de São Paulo, além de outras cidades que também possuem suas produções como Santos e Porto Alegre, veremos, no entanto, que há bons exemplos de gravações onde a cuíca se faz claramente notada, em equilíbrio com os demais instrumentos, e sem interferir no canto e aprendizado do samba. Partindo dessa observação, destacaremos essas gravações em postagens futuras, torcendo para que surjam novos exemplos com a cuíca em alto e bom som nos discos dos próximos carnavais. Porque a cuíca não pode calar, como diz um bordão já famoso nas redes sociais.
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domingo, 21 de abril de 2019

Vídeo 23 - Água de Cuíca [Ernani Cal e Lucas Gralato]

Hoje é o dia dela! Ela que teve o seu legado jurado à extinção, que deixaria órfãos verso, refrão e uma legião de boas praças. Parente da onça, barrica, puíta, sarronca e tantos outros esturros largados. Ela é de fato um tanto estranha, mas estranho mesmo é quem não sabe admirar essa peça rara da história. Essa tinhosa! De choros e sorrisos, euforias e lamentos. Que faz quebrar cintura de mulata e entortar perna de bamba. Ela é o cão! Fonte de inspiração e comunhão que nos faz querer protegê-la. E hoje, novamente, é o dia dela. Um brinde à cuíca! Um brinde com Água de Cuíca! Bebam sem moderação e apreciem sem pestanejar.


Água de Cuíca

Juraram seu legado, a extinção
Quizeram órfão verso e refrão
E uma legião de boas praças
Onça, barrica, puíta, sarronca
Ferina do esturro largado
Estranha, peça rara da história
Tinhosa de choros sorrisos
De euforias e lamentos
Quebrou cintura de cabrocha
Entortou perna de bamba

Tanto fez, foi cão e inspiração
Foi motivo de comunhão
Ninguém vai te condenar
Sou a sua proteção

Bebo água de cuíca
Bebo dela todo dia
Bebo água de cuíca
Bambo nela sem pestanejar
Brinco ela e vou

FICHA TÉCNICA

Composição: Ernani Cal e Lucas Gralato

Gravado no estúdio Podrera Records (2018)
Produção musical: Sidon Silva
Mixagem e masterização: Sidon Silva
Arranjo: Sidon Silva e Ernani Cal

Naipe de Cuícas e Coro gravados no EcoSom (2018)
Imagens: Sidon Silva, Ernani Cal e Yamê Valente
Edição: João Oliveira
Voz: Mako
Voz Tema: Lucas Gralato
Violão: Lucas Gralato
Bateria: Sidon Silva
Percussão: Sidon Silva e Ernani Cal
Cuícas: Ernani Cal e Lucas Gralato
Naipe de Cuícas: Antonio Simões, Doda Sodré, Edu Aguiar, Fabiano Magdaleno, Lia Wogel, Leandro Jordão, LERC, Mako, Neco, Rejane Rodrigues, Renight da Cuíca, Tom.
Coro: Antonio Simões, Doda Sodré, Edu Aguiar, Ernani Cal, Fabiano Magdaleno, Lia Wogel, Leandro Jordão, Lucas Gralato, LERC, Neco, Rejane Rodrigues, Renight da Cuíca, Sidon Silva, Tom, Yamê Valente.
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domingo, 31 de março de 2019

Cuiqueiros 8 - Manoel Quirino

"A fotografia que eu gostaria de ter encontrado na época da escrita do mestrado: a cuíca carioca na transição de sua forma e técnica de execução antiga (ainda como puíta) aqui apresentada por Manoel Quirino, o 'ás da cuíca' da escola de samba Lyra do Amor, de Bento Ribeiro... (Rio de Janeiro, Revista O Cruzeiro - 1935)".

As palavras acima são do historiador e etnomusicólogo Rafael Galante, autor de uma brilhante dissertação de mestrado, já comentada AQUI no blog, onde aborda a relação entre a cuíca e os tambores de fricção da África Central, como a puíta angola. 

E esta é a fotografia em questão. Uma imagem que deveria ser impressa em nossos livros escolares e merecia ganhar uma versão em escultura de bronze exposta em praça pública, tamanha a sua beleza e valor histórico.

Originalmente publicada em 16 de novembro de 1935, esta foto ilustra uma reportagem da revista O Cruzeiro sobre a visita de dois bailarinos russos, Clotilde e Alexandre Sakharoff, ao terreiro da escola de samba Lyra do Amor, no bairro carioca de Bento Ribeiro, acompanhados de personalidades da alta sociedade brasileira.

Segundo a revista, os visitantes "se deliciaram ouvindo o ritmo estranho do samba de nossa terra, com suas cuícas, seus tambores monótonos, seus violões plangentes e seus cavaquinhos. Os artistas russos mostraram-se maravilhados com aquele espetáculo de arte primitiva, revelando seu invulgar interesse pelos instrumentos e pelos motivos musicais que escutaram".

Aí vemos Manoel Quirino, um completo desconhecido nos dias de hoje, assim como muitos outros cuiqueiros do passado. Apesar do seu atual anonimato, é provável que ele tenha sido um protagonista de seu tempo, pois ter seu nome citado na principal revista da época, descrevendo-o como "ás da cuíca", significa que ele devia ocupar um lugar de destaque entre os seus contemporâneos. Talvez nunca saibamos maiores detalhes de sua biografia, mas o fato é que ele certamente foi um dos primeiros cuiqueiros do samba, e devemos a pessoas como ele o prazer de, hoje, tocar nossas "choronas".

Além da enorme satisfação que nos dá simplesmente saber da sua existência, esta bela imagem de Manoel Quirino traz também a oportunidade de observar algumas características que a cuíca tinha no passado. Como o próprio Rafael Galante observa, vemos aí um instrumento "na transição de sua forma e técnica de execução antiga". Essa antiga técnica de execução já foi tema de um post AQUI no blog. E quanto às suas antigas características físicas, vale comparar esta cuíca de Manoel Quirino com o seguinte relato de Mestre Marçal a respeito das cuícas que ele via em sua infância:

"Naquela época a cuíca ainda era encourada com tachinhas. Esticava a pele e ia colocando tachinhas. E a vareta não era como a de hoje não. Furava-se a pele com alfinete quente, pregava-se uma arruela de couro por cima e por baixo da pele e amarrava o bambu com arame. Aquilo tinha pouca duração porque o próprio arame ia cortando a pele. Ou então o arame partia. Depois apareceram as cuícas como essas de hoje, que só arrebentam mesmo quando a pele arrebenta" (Depoimento prestado ao jornalista Sérgio Cabral em 1979).

Vemos nitidamente a arruela de couro mencionada por Marçal no centro da pele da cuíca de Manoel Quirino. Já o bambu preso com arame não dá pra enxergar, assim como as tachinhas, mas podemos deduzir que estas estejam ali, fixando o couro em toda a circunferência na barrica de madeira. Desta forma, o método de afinação consistia em aproximar o instrumento à uma fogueira para esticar o couro sob efeito do calor. Depois, como disse Mestre Marçal, apareceram as cuícas como essas de hoje, não mais com tachinhas, arame e arruelas. Mas quando exatamente teria ocorrido essa transição na estrutura do instrumento e também em sua técnica de execução?

Não é simples responder esta pergunta. Entretanto, comparando esta imagem de Manoel Quirino, registrada em 1935, como outra fotografia também já publicada aqui no blog, de Marcelino de Oliveira,  produzida em 1937, vemos que numa diferença de apenas dois anos, o atual mecanismo de afinação e a atual técnica de execução já estavam em uso. Mas além disso tudo, tem ainda o que é de fato importante: o sorriso no rosto de Manoel Quirino demonstra que tocar cuíca traz felicidade há muito mais tempo do que um famoso meme fez, recentemente, todo mundo acreditar.
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Música 20 - Tem brabo no samba [Cena de Escola de Samba]

A música em destaque neste post vem do álbum Tam… Tam… Tam…!, considerado uma das produções mais preciosas da discografia brasileira, e traz uma gravação de cuíca sem dúvida das mais importantes na história do nosso estimado instrumento musical.

São diversos fatores que tornam Tam... Tam... Tam...! um disco tão precioso. Trata-se da trilha sonora do espetáculo teatral Brasiliana, de Miecio Askanasy, composto de quadros que apresentaram aspectos da história e da cultura afrobrasileira a platéias de países da América do Sul, Europa, África e Oriente Médio, entre 1950, quando o espetáculo estreou no Rio de Janeiro, e 1958, ano em que o disco foi lançado pela gravadora Polydor.

O repertório é formado em grande parte por pontos de candomblé, dentre eles Nanã Imborô, que parece ter inspirado Mas que Nada do genial Jorge Ben Jor. Mas para além deste dado curioso, são os arranjos do maestro José Prates e a execução da orquestra, com destaque para o solo vocal do cantor Ivan de Paula, que de fato traduzem a grandeza do disco. Suas faixas correspondem aos quadros daquele espetáculo teatral, como “O Navio Negreiro”, “Festa do Côco”, “Macumba”, “Funerais de Rei Nagô” e ainda “Cena de Escola de Samba”, subtítulo da faixa Tem brabo no samba, executada para a encenação de um desfile carnavalesco assim descrito na contracapa do álbum:

A escola de samba desceu o morro e já se encontra no centro da grande metrópole carioca em pleno carnaval, enquanto os passistas e cabrochas se refrescavam nos bares das proximidades. O surdo, devidamente afinado, novamente invocou os deuses do ritmo que baixaram, se incorporando nos tamborins, reco-recos, cuícas e agogôs, fazendo-os bradarem num crescente infernal! Tam... Tam... Tam...! Porta-estandarte! Mestre-sala! Cabrochas! Passistas! Bateria! Cantam agora o samba! Hino de alegria... evocação à liberdade daqueles que sofreram o cativeiro, músicas benditas por Deus que fazem o povo sorrir na sua hora mais triste. 



Desde a introdução, a música surpreende pela originalidade, revelando gradativamente a diversidade de timbres da sessão de ritmo formada pelos músicos Mateus (tarol), Waldemar (surdo), Hugo (surdo), Darcy (tamborim), Sabú (agogô), Hélio (reco-reco) e o grande Eliseu Félix (pandeiro), que mais tarde formaria o famoso trio percussivo com Luna e Mestre Marçal. Quanto à gravação da cuíca, nem precisava ter o nome Boca de Ouro na ficha técnica para identificar que foi ele o executante.

Com seu estilo inconfundível, nessa performance o Boca nos dá ainda mais elementos para considerá-lo um dos maiores cuiqueiros de todos os tempos. Esse registro evidencia que ele aplicava a cuíca como um instrumento de função essencialmente melódica, produzindo escalas, glissandos e intervalos de notas nitidamente orientadas pelo sistema tonal. Temos aí, portanto, o que justifica a enorme importância dessa gravação, pois ela nos serve como um excelente material para a reflexão em torno da função musical da cuíca, um assunto ainda pouco discutido, mas muito mais complexo do que podemos imaginar.
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Vídeo 22 - Estudo para cuíca sobre gravação de Pretinho da Serrinha [por Juan Carlos Marras]

Que a cuíca é um instrumento musical internacionalmente conhecido nós já sabemos. E sabemos também que grande parte desta fama internacional está diretamente ligada à sua forte presença no contexto das escolas de samba espalhadas por todo o Brasil e também em muitas outras partes do mundo. A transmissão televisiva do carnaval brasileiro ao longo das últimas décadas sem dúvida contribuiu muito para este processo e um exemplo incrível do enorme alcance que a cuíca atingiu no mundo é a Confederação de Cuiqueiros do Japão, sediada em Tóquio.

Mas além de ter sua história fortemente ligada ao carnaval, sabemos também que a cuíca tem vaga cativa em outros contextos e formas de se tocar samba, como nas rodas e pagodes de mesa, nos palcos e estúdios de gravação, assim como em instituições de ensino musical. E tal como no universo carnavalesco, a cuíca também tem os seus representantes internacionais nesses diferentes ambientes do samba. Um deles é o percussionista argentino Juan Carlos Marras, que tem realizado um trabalho belíssimo com seus alunos, dedicando-se a transcrever em partitura algumas performances emblemáticas de cuiqueiros que costumamos escutar em gravações. Neste vídeo, Marras e seu aluno Lucio Schmer reproduzem a linda execução de cuíca que o excepcional Pretinho da Serrinha gravou em Tristeza pé no chão, na interpretação da cantora Teresa Cristina com o Grupo Semente.


Já vimos aqui alguns casos de exercícios para cuíca escritos em pauta, como em Batuque é um privilégio e em Percusión Brasileña, mas nunca a transcrição inteira de uma execução do instrumento na gravação de um samba. Mais abaixo estão as partituras que resultaram deste excelente e, talvez, inédito trabalho.

É certo que muitos de nós gostamos de tocar cuíca pelo simples prazer de brincar em um bloco de carnaval, ou pela emoção de desfilar numa grande bateria, ou apenas pra tirar uma onda num pagode com os amigos no fim de semana, sem que pra isso seja necessário conhecer teoria musical. Mas ninguém há de negar o quanto este exemplo é admirável. ¡Gracias hermanos!

Estudo para cuíca - Tristeza pé no chão - Página 1

Estudo para cuíca - Tristeza pé no chão - Página 2

Estudo para cuíca - Tristeza pé no chão - Página 3

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Disco 5 - Mina da Cuíca

Esse mundo da cuíca tem sempre alguma coisa reservada para nos surpreender. Quando a gente pensa que já viu de tudo, eis que surge algo inusitado como esse disco, Mina da Cuíca, produzido pela gravadora Building Records e lançado em 2004 pela Filmax Music.


Não tenho a intenção de fazer aqui qualquer tipo de julgamento sobre a qualidade artística desse disco, mas a curiosidade sobre a sua concepção é inevitável. Os destaques dados à cuíca no título do trabalho e na imagem da capa não se justificam em relação ao conteúdo musical. E o "som da cuíca" – anunciado na frase de introdução dita pela cantora – é tão artificial que sequer parece ter sido sampleado de um instrumento real. Mas o fato do lançamento desse disco ter ocorrido apenas na Espanha leva a pensar que todo esse destaque dado à cuíca possa ter sido feito com a intenção de explorar um instrumento "exótico", e assim chamar a atenção do público europeu. Independente dessa possível estratégia de marketing antropológico dos produtores, fato é que tanto a gravadora quanto o selo envolvidos nessa produção são voltados ao mercado de Dance Music. Deixo então aos experts do gênero qualquer complementação ao que já foi pontuado. Talvez o vídeo-clipe oficial desse hit os ajudem a tirar conclusões mais apuradas. Mas uma coisa é certa: a cuíca aí não passa de mera alegoria de mão.


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quarta-feira, 20 de junho de 2018

Antiga técnica de execução

*por Marcello Sudoh e Paulinho Bicolor

Desde o início da década de 1930, chegando até a década de 1950, várias ilustrações publicadas em diversos jornais e revistas retrataram a cuíca sendo tocada sem que o instrumentista comprimisse a região central da pele, próxima ao "umbigo", conforme fazemos atualmente para extrair as notas agudas. Os exemplos destacados no slide abaixo apresentam os cuiqueiros segurando seus instrumentos debaixo do braço, com a boca da cuíca virada pra frente e a pele para trás, exatamente na direção oposta de como posicionamos o instrumento hoje.



Conforme já mencionado em uma postagem sobre a evolução sonora da cuíca, essa antiga técnica de execução permitia que apenas as notas graves fossem executadas, tendo como função marcar o tempo binário do samba. Uma prova muito evidente disso se encontra no trecho do filme That night in Rio que reproduzimos abaixo, uma comédia musical lançada em 1941, com a cantora Carmen Miranda entre os protagonistas do elenco. Vemos claramente o cuiqueiro (cujo nome ainda não identificamos) executar a cuíca desse jeito antigo, que deixaria de ser utilizado na medida em que se firmava a técnica que utilizamos atualmente.

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segunda-feira, 21 de maio de 2018

Mapeamento das informações relativas à cuíca disponíveis em fontes bibliográficas

Há cerca de um ano, nosso blog foi enriquecido com uma postagem sobre a dissertação de mestrado do amigo Rafael Galante, que contribui imensamente para o aprofundamento do que se conhece sobre a cuíca e, num sentido mais amplo, sobre a família instrumental dos tambores de fricção de um modo geral. 

Agora, tenho a alegria de compartilhar a pesquisa de mestrado que desenvolvi no Programa de Pós-graduação em Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, sob orientação da professora Regina Meirelles, e que também traz a cuíca como objeto de estudo. 

Nesse trabalho eu procurei fazer um mapeamento das informações sobre a cuíca que se encontram registradas em livros, dicionários, enciclopédias, artigos científicos, teses e dissertações. Consegui reunir ao todo mais de trezentas e cinquenta fontes de dados, das quais 154 serviram efetivamente às etapas mais trabalhosas da pesquisa, que envolveram um processo de categorização das informações por correspondência temática e, em seguida, a análise dos dados com base em determinados critérios de avaliação. 

Pretendo fazer novas postagens abordando os pontos mais significativos dos resultados obtidos, mas quem quiser se adiantar e já conhecer o trabalho na íntegra, basta clicar AQUI. 

É fato que trabalhos acadêmicos não costumam ser um tipo de leitura muito agradável. No primeiro capítulo, por exemplo, trato da metodologia que utilizei para a realização da pesquisa, um tipo de assunto muitas vezes cansativo. Mas acredito que o segundo e o terceiro capítulos sejam mais interessantes, pois estão repletos de informações sobre variados aspectos e características da cuíca. Essa nuvem de palavras aqui embaixo contém os cem termos mais repetidos em todo esse conjunto e informações, dando uma dimensão resumida da diversidade de temas.  

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quinta-feira, 26 de abril de 2018

Vídeo 21 - Tiê [Dona Ivone Lara]

Desde que criei este blog, em 2010, venho buscando constantemente por novos conteúdos para publicar nas postagens. O acervo que consegui reunir ao longo desse tempo (contanto com importantes colaborações de amigos) contém um vasto material que ainda aguarda a vez de ser publicado. É o caso deste vídeo que apresento agora, sobre o qual tomei conhecimento ao ler o belo trabalho sobre Mestre Marçal escrito por Vinícius Barros.

Além de ser um dos raros registros em vídeo do Mestre Marçal tocando cuíca, a importância deste documento também se justifica por talvez ser o único registro audiovisual na Internet onde vemos o famoso trio formado por Luna, Marçal e Elizeu em ação (Luna tocando surdo e Elizeu no tamborim). As participações de Jorginho do Pandeiro e de Osmar do Cavaco também engrandecem muito a importância dessas imagens, além, é claro, de Dona Ivone Lara com toda a sua preciosidade, doçura e elegância.



Dona Ivone faleceu há poucos dias e certamente foi ocupar seu lugar no panteão dos seres iluminados, pois mesmo aqui, no plano dos mortais, sua representação no mundo do samba sempre fez com que todos a reverenciassem como uma Deusa. Essa postagem é dedicada a ela como uma singela homenagem em gratidão por suas lindas melodias. Pra quem quiser conhecer mais sua história, imensa em longevidade e legado, e que vai muito além de sua atuação como sambista, recomendo o livro Nasci para sonhar e cantar, de Mila Burns, onde há este belo registro fotográfico de Dona Ivone ao lado de outro cuiqueiro (não identificado).

  
Nos discos da Dona Ivone há diversas gravações interessantes de cuíca. Preparei essa playlist dos álbuns completos que encontrei no YouTube. Mas com cuíca ou sem cuíca, a discografia de Dona Ivone é encantadora em cada detalhe. Viva Dona Ivone Lara!!!
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quinta-feira, 1 de março de 2018

Vídeo 20 - Ovídio Brito em um lindo solo de cuíca

Este vídeo registra o solo de cuíca com que Ovídio Brito iniciava o show "Coração de Malandro", de Martinho da Vila, apresentado no fim dos anos 1980. O show completo pode ser apreciado AQUI. Nosso muito obrigado ao amigo Fabiano Salek por esta dica preciosa!

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sábado, 17 de fevereiro de 2018

Ritmistas explicam o segredo do sorriso do cuiqueiro

Matéria de Romulo Tesi, recentemente publicada no Portal da Band, investiga o "meme da cuíca", que se espalhou pelas redes sociais a partir de um tweet.

Integrantes do Império de Casa Verde comentam meme da Internet

Magrão, cuiqueiro do Império de Casa Verde (Foto: Romulo Tesi / Portal da Band)

Nos últimos dias, circulou pelas redes sociais uma brincadeira em que um usuário do Twitter decretava: "Dinheiro não traz felicidade. O que traz felicidade é tocar cuíca. Nunca vi ninguém tocando cuíca irritado". A brincadeira virou meme e viralizou na web. Mas será que ela reflete a verdade sobre o humor dos cuiqueiros? Nós decidimos perguntar aos próprios.

"É isso mesmo! O cuiqueiro está sempre feliz, e não só quando aparece uma câmera. A cuíca é um instrumento diferenciado, ela é mágica, por isso quem toca tem todo esse carisma", garante Roberto, o Magrão do Império de Casa Verde, um dos personagens do meme.

"Queria até agradecer ao menino que fez. Parece que saiu até no stories da Cléo Pires", comemora.


Companheiro de bateria de Magrão, Caio concorda, mas tem outra explicação. "É por causa da energia que sai do instrumento e entra na alma da gente", diz.

Já Alexandre explica que o cuiqueiro pode até estar triste, mas tudo muda quando pega no instrumento.

"A partir do momento que eu pego na cuíca, esqueço todos os problemas e só penso em alegria. O curioso é que ela é chorona, mas faz sorrir", filosofa.

Os ritmistas Alexandre e Caio (Foto: Romulo Tesi / Portal da Band)
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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Disco 4 - Sambas-de-enredo do Grupo 2A (1980)


Dando continuidade às postagens que trazem cuiqueiros em capas de discos, apresentamos o LP dos sambas de enredo das escolas de samba do Grupo 2A, atual Grupo B, de 1980. A capa traz a foto do naipe de cuícas da Unidos de Bangu. Obviamente, como o desfile de 1980 ainda não havia ocorrido, a foto é de 1979, quando a agremiação apresentou o enredo “Brasil, batucai vossos pandeiros”.

Sambas-de-enredo do Grupo 2A (1980) - CAPA

Naquele ano, doze escolas gravaram seus sambas nos estúdios da Top Tape. A maioria das agremiações optou por apresentar levada e solos de cuíca, valorizando a gravação dos sambas de enredo. Este foi o segundo lançamento com os sambas do Grupo 2A, que antes de 1980 havia sido gravado apenas em 1971. Nos outros LPs e CDs posteriormente gravados com os sambas deste Grupo (que mudou de nome várias vezes) não houve outro registro que trouxesse cuiqueiros na capa, o que torna o disco em questão ainda mais especial para nós, amantes da cuíca. Clique AQUI para escutar este importante registro do nosso carnaval.
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domingo, 31 de dezembro de 2017

Fabricação do gambito

Se existe um componente da cuíca de fundamental importância para a boa qualidade sonora do instrumento, esse certamente é o gambito. Essa postagem reúne uma sequência de vídeos a respeito das duas maneiras mais utilizadas para a fabricação desse item tão importante. Uma delas é feita a partir do bambu maciço, e a outra a partir do broto de bambu. 

O gambito de bambu maciço é feito com um pedaço do caule de um bambu adulto, o que muitas vezes implica na poda do bambu, como vemos o Indio da Cuíca fazendo no vídeo abaixo. Ele segue uma antiga crença de que o bambu deve ser podado durante a lua minguante. Essa condição cosmológica, além de demostrar que a fabricação do gambito pode envolver questões mais misteriosas do que se imagina, revela também a riqueza de saberes e práticas historicamente presentes no aspecto cultural da cuíca. Outro exemplo parecido é o costume que antigos cuiqueiros tinham de mergulhar o couro em uma água preparada com ervas antes de empachar a pele, provavelmente por influência de questões religiosas.


Respeitada qualquer questão de caráter místico, fato é que há muito o que fazer de ordem prática no processo de fabricação do gambito após a coleta do bambu. Nesse segundo vídeo o amigo Rogério Vieira, mais conhecido como Mágico da Cuíca, mostra as etapas de fabricação do gambito de bambu maciço, evidenciando o quanto esse processo é trabalhoso.


Já nesse terceiro vídeo vemos o amigo Dedé Santana, coordenador do projeto Vai Cuíca, falando um pouco sobre a diferença entre a fabricação do gambito de bambu maciço e do gambito de broto de bambu. A propósito, o grande Zé Roberto da Cuíca já havia registrado em um comentário que o gambito de broto é ideal para tocar em blocos e escolas de samba, pois o som que ele emite tem maior volume e um timbre mais metálico do que o gambito maciço, que tende a emitir sons mais limpos e aveludados.


Diferente do bambu maciço, a coleta do broto de bambu não exige a poda do bambu adulto, pois o que se colhe são os ramos que crescem nos caules lateralmente. O vídeo abaixo apresenta o experiente Marcos Portela em um bambuzal e nos permite ter uma ideia de como a coleta do broto é realizada.


Feita a coleta, o broto de bambu também passa por certas etapas até ficar adequado para o uso na cuíca. Talvez a principal dessas etapas seja a formação do "cabeçote", que os fabricantes de gambito costumam fazer de diferentes maneiras. No próximo vídeo vemos novamente o Dedé Santana confeccionando o cabeçote com linha.


A seguir, vemos o saudoso Quirininho, filho do nosso baluarte e também saudoso Quirino Lopes, confeccionando o cabeçote com plástico derretido.


Por fim, segue o registro de um cuiqueiro que não identifiquei o nome, mas que demonstra a confecção do cabeçote com filete de couro.


Apesar da simplicidade com que esses vídeos foram produzidos, eles deixam muito claro que a fabricação do gambito é algo a que devemos dar a maior atenção. Paradoxalmente, as principais marcas de cuíca, tanto no Brasil quanto no exterior, parecem se preocupar mais com seus logotipos do que com os gambitos que colocam em seus instrumentos. Por melhor que seja a estrutura de metal das cuícas encontradas no mercado, são raríssimas as vezes que iremos entrar em uma loja e comprar uma cuíca de uma marca famosa com o gambito nas condições adequadas, o que dificulta muito o aprendizado de quem está se aventurando nas primeiras notas.

Se você é um cuiqueiro iniciante, saiba que o gambito é um componente da cuíca extremamente particular, e é importante que você descubra quais são suas preferências pessoais em relação às diversas questões que caracterizam o tipo de gambito que mais vai lhe agradar. Até mesmo os cuiqueiros mais experientes, que já têm um tipo de gambito predileto, vale muito a pena sempre experimentar gambitos feitos por diferentes fabricantes. O Luizinho da Cuíca, por exemplo, pode ser citado como um dos fabricantes de gambito de maior destaque, tanto pela excelente qualidade do material que ele produz, quanto pela constante divulgação dos seus produtos e serviços.


Além do Luizinho, e dos amigos que aparecem nos vídeos acima, muitos outros fabricantes de gambito também merecem ser citados aqui, como o Sandro da Cuíca, o Valdeir Barreto, o Betinho da Cuíca, e tantos outros mais que pedimos a gentileza de deixar os contatos em um comentário nesse post para que todos possam fazer suas encomendas.
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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Cuiqueiros 7 - Marcelino de Oliveira

*por Marcello Sudoh e Paulinho Bicolor

Marcelino de Oliveira, mais conhecido como Oliveira da Cuíca, nasceu provavelmente no início do século XX, nos paradouros do Estácio de Sá, bairro próximo ao centro do Rio de Janeiro. Segundo depoimentos de sambistas que o conheceram pessoalmente, como o mestre-sala Acelino dos Santos, conhecido como "Bicho Novo", Oliveira era filho de dona Marcelina, respeitada senhora que mantinha um prostíbulo muito conhecido naquela região.

Oliveira da Cuíca (Revista "O Malho" - 16/12/1937)

Logo cedo, o sambista esguio e boa pinta, da turma de bambas como Brancura, Baiaco e Bucy Moreira, se envolveu com o samba "estaciano" e com o famoso bloco "Deixa Falar", que ainda não era conhecido como escola de samba. Sua presença tocando cuíca na bateria do bloco foi descrita por importantes sambistas e antigos moradores do Estácio em uma serie de depoimentos coletados pelo jornalista Francisco Duarte. Alguns desses depoimentos estão no CD que acompanha o livro "Samba de sambar do Estácio - 1928 a 1931", onde há uma preciosa fala de Xangô da Mangueira (disponível no player abaixo) sobre o fato de Oliveira ter aprendido a fabricar cuícas seguindo os ensinamentos de João Mina. O mangueirense informa ainda que muitos grupamentos carnavalescos da época compravam as cuícas fabricadas por Oliveira.



Com o crescimento da indústria fonográfica coincidindo com o período em que o governo brasileiro firmava o conceito de "cultura brasileira", músicos e compositores de diversos matizes passaram a atuar em discos de gravadoras como a Odeon e a Victor. Era uma chance imperdível para os ritmistas dos morros, que viam ali a possibilidade de obter renda com aquilo que faziam por lazer: tocar samba. Instrumentos "rudimentares", então usados em terreiros e desfiles de rua, tiveram que ser adaptados para os estúdios de gravação. Caso contrário, aqueles músicos estariam fora de um novo mercado que remunerava os sambistas. Foi nessa época que apareceram as primeiras cuícas com afinadores e aros cromados, substituindo as antigas cuícas que tinham a pele presa com taxinhas. Eram exigências que os estúdios de gravação impunham já que era impossível acender fogueira em ambientes fechados a fim de esticar o couro dos instrumentos e obter a afinação desejada.

Oliveira certamente foi um dos pioneiros na fabricação de cuícas com essas modificações, mas não é possível saber se as características que a cuíca adquiriu em função desses novos padrões foram ideia dele. Muniz Júnior, por exemplo, afirma que quem primeiro instalou tarraxas (afinadores) na cuíca foi Samuca, da escola de samba "Paz e Amor", de Bento Ribeiro. Seja pela suposta intervenção de Samuca ou de qualquer outro personagem que ainda permanece anônimo, podemos intuir que Oliveira tenha contribuído, em alguma medida, nesse processo de modificações na estrutura da cuíca, e que o crescimento das gravações em discos deva ter lhe garantido bons rendimentos, aumentando a venda de cuícas dentro dos novos padrões, além de ele mesmo tocar em muitos desses discos. Haja vista o fato de que suas atuações em gravadoras e emissoras de rádio o deixaram conhecido como "rei da cuíca" (Boca de Ouro também seria chamado assim, alguns anos mais tarde).

Em 1931, Francisco Alves grava o samba "Meu Batalhão", de Ismael Silva e Nilton Bastos, sendo este o registro dos sons de uma cuíca mais antigo de que temos conhecimento. Nessa época, a cuíca ainda não executava as notas agudas e tinha como função marcar o tempo do samba, como o surdo faz atualmente. É bem possível que o cuiqueiro nessa gravação tenha sido o Oliveira.


Já em 1936, Aracy de Almeida grava "Mandei Carimbar", de Kid Pepe e Germano Augusto, que adaptaram no refrão um tema tradicional das antigas rodas de pernada do Rio de Janeiro. Segundo o amigo Barão do Pandeiro, que nos indicou essa bela gravação, a cuíca que nela escutamos foi gravada pelo Oliveira. É interessante notar que, diferente da gravação de "Meu Batalhão", onde o instrumento emite apenas notas graves marcando o andamento do compasso, em "Mandei Carimbar" a cuíca é aplicada com maior variedade rítmica, sendo nítida a execução de notas graves e agudas, embora a afinação ainda fosse "grave" em comparação à sonoridade que nos habituamos escutar hoje em dia.


Se, como acreditamos, Oliveira foi mesmo o cuiqueiro dessas duas gravações, podemos concluir que ele contribuiu não só para o processo de modificações na estrutura da cuíca, como fabricante do instrumento, mas também participou ativamente do processo de modificações na técnica de execução, na função da cuíca em um arranjo musical, e na evolução sonora do instrumento.

Mas a carreira artística de Oliveira da Cuíca foi além de sua enorme importância enquanto cuiqueiro. Em 1933, ele teria formado um trio vocal-instrumental para excursionar pelo país com dois outros sambistas que também carregavam o seu sobrenome: Wilson Baptista (de Oliveira) e Agenor de Oliveira, o Cartola. Lamentavelmente – reproduzindo as palavras de Rodrigo Alzuguir –, "poucos tiveram a sorte de assistir a esse encontro inusitado. A turnê brasileira do conjunto se resumiu a sacolejar por algumas horas num trem da Estrada de Ferro Central do Brasil, indo e voltando pela Linha do Centro até a cidade fluminense de Barra do Piraí - onde Oliveira, Wilson e Cartola se apresentaram sem deixar lembranças. E o trio se desfez". Entretanto, em outras oportunidades, Oliveira pôde se apresentar inclusive fora do país. A "Embaixada Brasileira", grupo criado por Heitor dos Prazeres, tinha entre seus membros Paulo da Portela, Oliveira da Cuíca e a cantora Marília Batista. O grupo foi convidado a se apresentar no Uruguai, em dezembro de 1937. Antes da viagem, a "Embaixada" ocupou os microfones da Rádio Nacional a fim de apresentar o que mostrariam em Montevideo.

O fato de Oliveira ter trabalhado ao lado de compositores tão importantes leva a suspeitar que ele possa ter sido também compositor, e tudo indica que "Samba Raiado", gravado em 1931 por Ismael Silva, seja uma música dele. Fontes atribuem a autoria desse samba a Marcelino de Oliveira, o que nos leva acreditar, portanto, que seja uma composição do nosso cuiqueiro. "Samba Raiado" é um belo exemplo da transformação que o gênero samba sofreu durante sua migração do maxixe para o samba que conhecemos. O tema é ainda hoje muito usado em rodas de partido-alto, sendo Aniceto do Império o seu principal divulgador e, mais recentemente, chegando às novas gerações através do grupo Revelação.



Oliveira da Cuíca faleceu precocemente, em maio de 1938, conforme publicado em nota pelo jornal "A Noite". Segundo Mestre Marçal, em depoimento ao jornalista Sérgio Cabral, "o enterro dele saiu ali do baixo meretrício, passou por dentro, correu aquilo tudo", afirmando ainda que Oliveira foi o primeiro cuiqueiro que ele conheceu. Esta simples afirmação de uma das nossas maiores referências, como o é Mestre Marçal, nos dá a dimensão da enorme importância de Oliveira, não só para a história da cuíca, mas para toda a história do samba.


FONTES:
  • Pioneiros do samba: Bicho Novo, Carlos Cachaça e Ismael Silva - livro de Arthur de Oliveira Filho publicado em 2002 pelo Museu da Imagem e do Som.
  • Vida e morte do Deixa Falar, o bloco que deixou escola - reportagem de Francisco Duarte publicada em 13 de fevereiro de 1979 no Jornal do Brasil.
  • Samba de sambar do Estácio: 1928 a 1931 - livro de Humberto M. Franceschi publicado em 2010 pelo Instituto Moreira Salles.
  • Do batuque à escola de samba: subsídios para a história do samba - livro de J. Muniz Júnior publicado em 1976 pela editora Símbolo. 
  • Wilson Baptista: o samba foi sua glória - livro de Rodrigo Alzuguir publicado em 2013 pela editora Casa da Palavra.
  • A morte do "rei da cuíca" - nota publicada em 23 de maio de 1938 no jornal A Noite.
  • As escolas de samba do Rio de Janeiro - livro de Sérgio Cabral publicado em 1996 pela editora Lumiar.
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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Música 19 - Guia cruzada [Douglas Germano]

De todas as músicas onde existe alguma citação ao nosso estimado instrumento musical, "O ronco da cuica", de João Bosco e Aldir Blanc, talvez seja a mais emblemática. Outra, não tão conhecida, mas também muito importante é "Como se faz uma cuica", de Haroldo Lobo e Wilson Baptista, um verdadeiro documento histórico que registra as características da cuica nas décadas de 1930 e 1940. Hoje, podemos incluir "Guia Cruzada" nesse seleto repertório, música do compositor (e cuiqueiro) Douglas Germano, que generosamente enviou as seguintes palavras para enriquecer esta postagem:

A música "Guia Cruzada" é uma Ode à personagens que são reservas éticas e justas em diversas situações e grupos. A metáfora traça o ponto de vista de um cuiqueiro de bateria de escola de samba avesso ao esfacelamento da tradição, da noção de trajetória e às transformações impostas por ações que não sejam fruto de desenvolvimento a partir destas experiências. A inspiração é um excepcional cuiqueiro com muitas décadas na fila de cuicas da bateria do G.R.E.S. Nenê de Vila Matilde: Seu Mussum.

Para ouvir "Guia Cruzada", clique no player abaixo:



Guia Cruzada
(Douglas Germano)

Era linha de frente na ala de cuica,
já viu muita cabrocha envelhecer.
O seu ronco encobria os "tarol" e as "ripa",
no samba botava pra ferver.
No talabarte a cuica cobria o coração,
Num alguidá é que ele molhava o gorgurão.

Era linha de frente na ala de cuica,
Já viu muitos "apitador" cair.
Sua bronca era gente de classe mais rica
que vinha em fevereiro querendo sair.
Sua cuica rugia, dizia:
— Não! "Tão" loteando as "faixa" do nosso pavilhão.

"Nêgo" tirava:
— Sempre arrumando confusão!
Outro calava e tirava a mesma conclusão.
Mas era Xogum Guia Cruzada
Pr'um lado Xangô, pro outro Ogum.

Você, desavisado, curtindo o seu reinado,
no "vende/compra" qualquer um...
No teu mapa da mina, o X em cada esquina
indica que tem lá mais um.
Igual a Xogum Guia Cruzada:
Oxé de Xangô na mão de Ogum

Era linha de frente na ala de cuica,
Anhembí, Tiradentes, São João...
Adorava contar como era bonita
a avenida antes da televisão.
Sua cuica era ferro com ronco de trovão
Por minha parte, Xogum tava sempre com a razão.


P.s.: Encontrei esse vídeo no Instagram de @juravalenca7, onde vemos o Seu Mussum e sua cuica hermeticamente encaixada, ou melhor, como diz Douglas Germano em poesia, "cobrindo o coração".


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domingo, 10 de setembro de 2017

Disco 3 - Samba, Suor e Ouriço [vol.1]

*Texto do amigo Marcello Portelense especialmente elaborado para este humilde espaço cuiquístico. Obrigado Marcello!

Lançado pela “Soma” - subgravadora da “Som Livre” - em 1976, este LP é o primeiro de uma série comercializada até a década de 90, inclusive em K7. “Samba, Suor e Ouriço” traz faixas com sambas populares e era muito vendido no final de ano, da véspera do Natal até o carnaval.

CAPA - Samba, Suor e Ouriço
Continue lendo AQUI.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Minha cuí@ [Luis Turiba]

Poema de Luis Turiba, o cuiqueiro poeta, publicado em seu livro Qtais (Ed. 7Letras, 2013).


MINHA CUI@

Cuica cuica cuica
Entre a cuica e a cítara
Cui@ se classifica

Faz o samba salpicar
Supimpa sais tapiocas
Faz o samba sincopar
Cintila sóis de pipocas

Meu violino de bambu
Meu tambor de sutilizas
Libertação minha presa
Meu cristal e meu vodu

Turbina de jatos rítmicos
Sorrisos, roncos e choros
Alvorada quase mística
Vara que invade o couro

Primitiva és complexa
Súplica cuica est
Marcas solas, mil firulas
Com tua boca de gula

Cuiqueiro é presepeiro
Vai à frente mostra os dentes
Cuiqueiro é aprendiz
Da vara da meretriz

Mas cuica também falha
Em plena Sapucaí
Quebra a vara, rompe o couro
Desarma o circo e o sigilo
Por isso, digo em sigilo:

Tenho duas cuicas
Florença e Nikita
Enquanto Florença aflora
Nikita quica

E assim floreiam o mundo
Desafinadas, as cuicas

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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Música 18 - Cuica [Rosinha de Valença]

Essa música é uma homenagem da violonista Rosinha de Valença ao nosso mestre Zeca da Cuica, gravada no sétimo disco da compositora, lançado em 1973. É difícil descrever essa gravação, mas a originalidade da composição, o arranjo e a performance de cada músico, são de cair o queixo. Inclusive o trabalho de mixagem, que muitas vezes não prestamos muita atenção, é super bacana. Vale a pena escutar com um bom fone de ouvido para perceber a distribuição em stereo dos instrumentos e, claro, com especial atenção para a cuica do Sr. Zeca. O brilho e a consistência das suas notas agudas são inconfundíveis, e aqui ele ainda explora alguns sons mais inusitados – tirados apertando o pano sobre o gambito com uma leve pressão a mais do que o habitual – logo na introdução, ajudando na dramaticidade que caracteriza a composição.



Um fato curioso é que essa música foi regravada em 1976, no disco Confusão urbana, suburbana e rural, do clarinetista Paulo Moura, mas com outro título: "Tema do Zeca da Cuica". Nesse registro, é precedida por "Bicho papão", de Martinho da Vila, Wagner Tiso e Paulo Moura, mas logo se escutam os acordes do violão pelas mãos da Rosinha e o Sr. Zeca mais uma vez arrepiando na cuica. É muito interessante fazer a comparação entre essas duas gravações. Apesar de ser a mesma composição, são duas interpretações bem diferentes, mas em ambas o Sr. Zeca demonstra porque mereceu ganhar uma música em sua homenagem, partindo de uma artista tão especial como a Rosinha de Valença.
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quarta-feira, 7 de junho de 2017

A cuica do Laurindo [nova temporada]


O premiado musical "A cuica do Laurindo" entrará novamente em cartaz no Rio de Janeiro, no teatro Carlos Gomes, de 16 de junho à 30 de julho (quinta a sábado às 19h / domingo às 17h). Ingressos antecipados AQUI, por módicos R$40 inteira e R$20 meia.

A trama da peça gira em torno do cuiqueiro Laurindo, um personagem fictício criado por Noel Rosa, mas certamente inspirado nas figuras do samba com quem o compositor conviveu. Trata-se de uma comédia musical primorosamente idealizada por Rodrigo Alzuguir e dirigida por Sidnei Cruz. São cerca de quarenta canções contado as peripécias que envolvem os diversos personagens, brilhantemente interpretados por Alexandre Rosa Moreno (Laurindo), Claudia Ventura (Conceição do Zé), Hugo Germano (Tião / Cabaretier / Jota Efegê / Laurindo Filho), Marcos Sacramento (Dodô / Mais Velho / Maestro Strondowski), Nina Wirtti (Guiomar Wendhausen / Cabaretiere) e Vilma Melo (Zizica Tupynambá), além do próprio Rodrigo Alzuguir (Zé da Conceição / Hercule Perrier).

Como muitos seguidores desse humilde espaço cuiquístico não vivem no Rio de Janeiro e dificilmente poderão assistir a peça, compartilho abaixo os registros de algumas cenas, a começar pela interpretação de Triste Cuica, composição em que Laurindo ganhou vida, e também a morte, pois foi nessa música que Noel Rosa criou o personagem, em 1935, embora revelando no fim da canção que Laurindo teria sido misteriosamente assassinado. Vale destacar a bela performance do músico Marcus Thadeu executando a cuíca, acompanhado por Magno Júlio (percussão), Yuri Villar (sopros), Rafael Mallmith (violão 7 cordas) e Luis Barcelos (bandolim e direção musical), que tocam lindamente durante toda a peça. 


Esse segundo registro traz um trecho da música "Como se faz uma cuica", da autoria de Haroldo Lobo e Wilson Baptista, que descreve poeticamente em seus versos as características de uma cuica na década de 1940 (um pedaço de pau / um pedaço de couro / numa barrica / é assim que se faz uma cuica...).


O próximo vídeo traz uma lindíssima interpretação de "Ave Maria do morro", composição de Herivelto Martins, de 1942, que, de modo comovente, narra a devoção dos moradores de uma favela, rezando juntos ao fim do dia por uma vida menos sofrida.


E esse último vídeo registra um dos pontos altos da peça, quando todo o elenco interpreta "Praça Onze", também de Herivelto Martins, em parceria com Grande Otelo, que narra a angústia dos sambistas ao tomarem parte da notícia de que um dos principais redutos do samba no Rio de Janeiro, a Praça 11 de Junho, seria destruída para a abertura de uma nova avenida na cidade.

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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Música 17 - Conversa fiada [Banda Mel]

A exemplo dos posts "A cuica no rock and roll" e "A cuica no jazz", a postagem de hoje também aborda a presença da nossa querida "chorona" em contextos da música popular que ela não costuma ser utilizada com tanta frequência. Dessa vez, no contexto do axé-music.

A música Conversa fiada, da autoria de Marinho, integra o repertório do disco Negra, lançado em 1991 pela Continental, o quinto álbum de uma das bandas precursoras do samba-reggae, a Banda Mel. A intérprete é a cantora Márcia Short e o músico responsável pela gravação dessa cuica esperta, infelizmente, não tem o seu nome registrado no encarte do disco. A ficha técnica registra apenas os integrantes da Banda Mel e músicos convidados, executantes de instrumentos de sopro. Mas ficam aqui os registros da poesia dessa canção e dos sons da cuica suingando bonito no balanço do axé.


CONVERSA FIADA
(Marinho)

Vamos cantar, vamos cantar, vamos mostrar
Vamos cantar, vamos cantar, vamos mostrar
Vamos mostrar pra todos o nosso cantar
Pois a corda só quebra pro lado de cá

Não quero mais essa conversa fiada
Não quero mais ouvir essa piada
Que o Brasil é o país do futuro
Isso é balela pra trouxa, o povo anda duro

Hei galera, vamos nessa!
Nessa onda quero arrebentar
Não quero mais ouvir essa conversa
Papo de deixa disso, ou de deixa pra lá

Vamos cantar, vamos cantar, vamos mostrar
Vamos cantar, vamos cantar, vamos mostrar
Vamos mostrar pra todos o nosso cantar
Pois a corda só quebra pro lado de cá

Consciência anda faltando
Em más notícias ando mergulhando
Pois, hoje, chega! Eu quero gritar!
Que o povo que canta não me deixa calar
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