Intro

Bem vindo ao blog Cuiqueiros, um espaço exclusivamente dedicado à cuica – instrumento musical pertencente à família dos tambores de fricção – e aos seus instrumentistas, os cuiqueiros. Sua criação e manutenção são fruto da curiosidade pessoal do músico e pesquisador Paulinho Bicolor a respeito do universo “cuiquístico” em seus mais variados aspectos. A proposta é debater sobre temas de contexto histórico, técnico e musical, e também sobre as peculiaridades deste instrumento tão característico da música brasileira e do samba, em especial. Basicamente através de textos, vídeos e músicas, pretende-se contribuir para que a cuica seja cada vez mais conhecida e admirada em todo o mundo, revelando sua graça, magia, beleza e mistério.

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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Couro de Gato

Seguindo no mesmo texto reproduzido na postagem anterior, Estudo da Cuica, de J. Muniz Jr., desta vez o trecho em recorte é sobre o lendário couro de gato. 

Vale como nota curiosa transcrever uma descrição de Orestes Barbosa sobre a cuica: “Mas veio o samba. E com o samba veio a cuica. E para a cuica o malandro descobriu que o couro mais forte e mais harmonioso é o do gato. Assim, são trágicas as caçadas noturnas, nos arrebaldes e nos subúrbios da Capital. O malandro anda pelos telhados e coradores ladeando laços de arame no enforcamento do simpático animal. Laçado o gato, fazem-lhe dois cortes nas patas dianteiras. Sopram-lhes os cortes com canudos de mamoeiro. E o gato, morto e cheio de vento, fica como uma bola. Então é só dar um talho reto da guela ao fim do ventre, e o couro sai todo. Dentro de oito dias é uma cuica vibrando surda no samba de tão singular emoção. Aquele couro facilmente retirado e posto ao sol, com a cinza do fogão que foi leito amável do animal encantador, continua a nostalgia de bicho trucidado que vem formar na melodia dos que se divertem, líricos como ele, e talvez nostálgicos também, tirando sons da barrica musical, sem pensar na matéria prima emocional, que era aquele companheiro contemplativo, e também cantor nas horas mortas, quando o amor e o luar dos abat-jours fazem as suas conspirações...”. Informa David Nasser* numa reportagem intitulada Vida, Paixão e Morte no Samba, que “a lamurienta cuica é onde todos os gatos do mundo choram as suas dores.”
(*) David NasserA Cigarra-Magazine, (fevereiro de 1944).

Particularmente, fiquei bastante impressionado com essa descrição do Orestes Barbosa na parte em que ele fala sobre os cortes nas patas etc, etc... ainda bem que hoje em dia não precisamos mais fazer isso! E pra aliviar um pouco esse clima tenso, segue abaixo um curta-metragem filmado em 1960/61, com direção de Joaquim Pedro, de conteúdo mais romântico sobre o cruel destino que os felinos tinham antigamente. O título do filme não poderia ser outro: Couro de Gato.
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sábado, 16 de julho de 2011

Estudo da Cuica (por J. Muniz Jr.)

Há algumas semanas tive a imensa honra de conhecer um grande baluarte do samba, o Sr. Djalma Sabiá, fundador da Acadêmicos do Salgueiro e autor de sambas-enredo memoráveis da vermelho e branco. Nascido no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1925, na altura de seus 86 anos, o Sr. Djalma impressiona pela quantidade de lembranças que ainda guarda na memória. Mas o que me deixou mais emocionado durante esse encontro foi perceber o amor e respeito que ele tem pelo samba. Em sua modesta residência, ele preserva um verdadeiro tesouro com fotos e diversos registros sobre o Salgueiro e o samba de maneira geral. As paredes são tomadas por esses documentos, que guardam histórias maravilhosas de se ouvir, contadas por este senhor que viu tudo aquilo acontecer. A generosidade com que fui recebido por Sr. Djalma em seu grande arquivo/residência me deixou numa dívida eterna com ele, que me emprestou um livro intitulado Do batuque à escola de samba, publicado em 1976, cujo autor é *J. Muniz Jr., outro grande sambista, além de jornalista, e que escreveu neste livro um capítulo chamado Estudo da Cuica. O texto é um pouco grande pra colocar em apenas uma postagem, então, separei alguns trechos que virão em postagens futuras. 

Estudo da Cuica

Existe uma afirmativa de que a cuica é de origem oriental, e por ser um instrumento utilizado pelo povo durante as festividades típicas, acabou espalhando-se por toda a Europa. O interessante é que a sua forma sempre foi variada, inclusive o seu nome, pois é chamada ronca em Portugal (...) pouti-pout, em Nápoles (Itália); buha, na Romênia; bukat, na Tchecolslováquia; rum-motopi, na Alemanha, e rommel-pot, na Holanda. Consta que na Romênia, o instrumento servia para animar os festejos natalinos, inclusive na Venezuela, onde é chamado furruco. Também já foi vista na Argélia, Cuba, em Luisiana (Estados Unidos) e na Argentina. No batuque de Angola, a puíta era utilizada como um tambor de fricção, sendo ainda chamada lukombey, no Congo. E com a vinda do elemento africano para o Brasil, foi recebendo várias denominações, conforme a região que ia sendo introduzida. Por exemplo: “tambor-de-onça”, no Maranhão; “roncador”, no Pará; “puíta”, no Ceará; “fungador”, “socador”, “boi” e “porca”, no Nordeste e ainda “puíta” e “cuica”, no Rio de Janeiro e noutras regiões do Centro-Sul. Ladislau Batalha já descreveu a puíta como sendo um tambor indígena, formado por um pedaço de tronco grosso, oco, tendo uma das bases coberta por uma pele de animal, bem ressequida e furada no meio e que “a atravessam por um pequeno atilho também de couro, e atalham-lhe por dentro um pau áspero. Produzem uma espécie de troar monótono e feio, correndo os dedos úmidos pela parte interior que, assim manejado, imprime a pele um movimento vibratório. Sobre esse tipo constroem outros instrumentos que produzem roncos mais ou menos agudos”. (...) Embora os indígenas conhecessem uma espécie de puíta, (...) foi com o africano que o instrumento se projetou, pois estava sempre presente nos batuques das senzalas e nos terreiros das casas grandes, passando depois para os foguedos populares e carnavalescos por todo o território brasileiro. Entretanto, a cuica somente veio a popularizar-se em nosso país a partir de 1915, quando passou a ser adotada pelos cordões carnavalescos e grupamentos, aparecendo, posteriormente, na Praça Onze junto com as “escolas de samba”, em forma de barrica, com a vareta presa por dentro do couro, quando o batuqueiro, que a levava debaixo do braço, acompanhava a cadência do samba com um som bastante rouco. (...) A versatilidade dos brasileiros fez com que o instrumento, que apenas produzia um ronco soturno, chegasse ao ponto de soltar notas agudas e graves, e até de fazer solos de músicas populares e clássicas. (...) foi no Brasil que a cuica se adaptou melhor, adquirindo uma sonoridade bem variada, alcançando uma perfeição que não obteve em nenhum outro país. (...) E por se tratar de um instrumento curioso (até muito melindroso), a cuica mereceu de nossa parte um estudo mais acurado, pois no tempo em que o autor desfilava em escolas de samba, ela teve, também a minha preferência, e embora eu não tenha me tornado nenhum mestre da especialidade, cheguei a conhecê-la muito bem, pois a primeira que tive também era de barrica e inclusive foi montada pelas minhas próprias mãos.
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*J. Muniz Jr. – Jornalista e escritor brasileiro nascido em Penedo, AL, em 1933, e radicado em Santos, SP, desde 1939. Sambista ativo, ex-ritmista, passista, mestre-sala, carnavalesco e dirigente, dedicou-se, a partir de 1957, a promover o intercâmbio entre o samba de sua cidade e o do Rio de Janeiro. Assim, participou de congressos e articulações que levaram à realização, em Santos, de eventos como o Primeiro Simpósio Nacional do Samba (1966) e o Primeiro Festival de Samba (1970). Ex-conselheiro da antiga União das Escolas de Samba do Estado de São Paulo, publicou, assinando-se J. Muniz Jr., vários livros sobre o universo dos sambistas, entre os quais Do batuque à escola de samba e Sambistas imortais, ambos de 1976. Fonte: Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (Nei Lopes)
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quarta-feira, 29 de junho de 2011

O gambito



Vareta, bambu, cambito, palheta, pauzinho... são alguns nomes dados à famosa "haste de madeira presa no centro da membrana de couro, pela parte interna da cuica", mais conhecida também como gambito - pelo menos esse é o nome que a maioria dos cuiqueiros que eu conheço costumam usar. O gambito, assim como a pele, é um elemento importantíssimo da cuica e todo cuiqueiro deve conhecê-lo bem para obter um bom som do instrumento. Sem contar que para nossa imensa frustração, devido a sua fragilidade, volta e meia o gambito quebra e é aí que geralmente percebemos ou nos lembramos do quanto somos dependentes deste ítem.

Falando de uma maneira bem simples, o formato do gambito é o mesmo de um prego, ou seja, ele tem uma "cabeça" em uma das extremidades, que serve para auxiliar sua amarração na pele. O tamanho pode variar na medida de um palito de fósforo à de um palito de churrasquinho, tanto no comprimento, quanto na espessura.

O gambito é feito de bambu - parece que já tentaram usar outros materiais, mas não deu muito certo - e existem duas maneiras de fabricá-lo. Uma delas é pegar uma lasca de bambu e lixar até ela ficar na espessura desejada, esculpindo a cabeça em uma das pontas. Esse é o gambito inteiriço, um verdadeiro trabalho de entalhe na madeira. A outra, é colher um broto de bambu ainda em crescimento e cortá-lo no tamanho desejado, aproveitando o seu nó natural como cabeça.

Nessa foto, vemos três gambitos inteiriços em estágios diferentes de fabricação.


 

Nessa outra, estão dois brotos de bambu. O maior, ainda para ser preparado e o menor, pronto para ser utilizado.


Abaixo, vemos diferentes tipos de cabeças. Reparem as diferenças entre elas (da esquerda para direita): 1) forma triangular; 2) esculpida em diferentes níveis; 3) broto de bambu lixado; 4) forma circular fina; 5) forma circular grossa e estreita; 6) cabeça colada; 7) forma arredondada. No centro, há um broto de bambu com o nó ainda em estado natural.  


O importante na cabeça de um gambito é que ele tenha uma regularidade em sua circunferência em relação à haste, pois assim, irá garantir uma melhor fixação do nó que amarra o gambito na pele.

Uma dica: antes de tocar, é bom sempre passar uma lixa d'água ou um pedaço de bombril no gambito pra limpar e tirar qualquer imperfeição da madeira.  

Por experiência própria, confesso que não sei dizer a diferença na prática entre o gambito inteiriço e o broto de bambu. Já toquei com esses dois tipos de gambito e dou preferência ao inteiriço porque tenho a impressão de que é mais resistente do que o broto. Quem souber algo mais sobre a diferença entre um e outro ou mais informações à respeito deste assunto, por favor, deixe um comentário nessa postagem. É isso pessoal... até!

sábado, 18 de junho de 2011

Por que não "cuiquinista"?

Imagino que a maioria dos visitantes deste blog não lêem os comentários que o pessoal faz em algumas postagens. Eu mesmo não tenho esse costume quando acesso outros blogs, mas tenho a obrigação de ler todos os comentários feitos aqui e na semana passada o amigo Islan Scape me fez uma pergunta que acredito ser do interesse de todos. Não soube muito bem o que dizer sobre essa questão, mas achei um bom tema pra gente debater. Alguém sabe a resposta?


terça-feira, 14 de junho de 2011

Vídeo 8 - Jam da Silva et la cuíca

A postagem de hoje dá continuidade à análise sobre a evolução sonora da cuíca apresentada na postagem anterior. Vimos que mudanças na técnica de execução e no modo de fabricação influenciaram diretamente o processo de transformação que a sonoridade da cuíca sofreu entre as décadas de 1930 e 1950. Mas outros fatores também contribuíram nesse mesmo sentido, como a concepção crescente do uso da cuíca como um instrumento solista, além do avanço nos aparatos tecnológicos que permitem a captação e processamento dos sons do instrumento em shows e estúdios de gravação. O vídeo abaixo, do percussionista Jam da Silva, é uma prova do quanto a tecnologia agregada à cuíca proporciona alternativas ao processo criativo e, de alguma forma, também traz efeitos ao aspecto sonoro em nível prático e conceitual.


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sexta-feira, 10 de junho de 2011

A evolução sonora da cuíca

Assim como os demais instrumentos típicos do samba, a cuíca sofreu muitas modificações desde as suas primeiras inserções em discos e agremiações carnavalescas. Este processo envolveu transformações em todos os seus aspectos, impactando diretamente sua sonoridade, que mudou radicalmente num curto espaço de tempo. Duas questões principais explicam a razão de tal mudança: a primeira diz respeito à técnica de execução e a segunda à fabricação do instrumento. 

Com relação à técnica de execução, no vídeo abaixo vemos um cuiqueiro tocando de uma forma muito comum no passado, que consistia no uso exclusivo de uma das mãos para friccionar o gambito, sem pressionar a pele por fora com a outra mão. Logo, os sons obtidos ressoavam invariavelmente numa região de frequências mais baixa do que seu padrão sonoro atual.  


A sonoridade da cuíca também se modificou em função de inovações no seu processo de fabricação. Os primeiros modelos do instrumento tinham o corpo de madeira, o que imprimia ao timbre uma textura bem menos brilhante do que temos hoje com diferentes tipos de metal. O método de empachamento também era bastante diferente do atual, principalmente em relação à maneira de fixar o gambito no couro, que se dava de modo a não permitir que a pele vibrasse com muita intensidade. Além disso, as primeiras cuícas não possuíam as tarraxas que hoje nos permitem afinar o instrumento. A pele era presa com tachinhas e o método de afinação se dava ao redor de uma fogueira. O calor emitido pelo fogo esticava o couro, mas logo a cuíca voltava a ficar frouxa. Com a adaptação das tarraxas, ficou possível esticar o couro com mais rigidez, bem como manter o instrumento afinado por mais tempo. 

Tudo isso contribui para o desenvolvimento da sonoridade que extraímos da cuíca atualmente. A título de ilustração, seguem abaixo três registros que exemplificam o desenrolar deste processo entre as décadas de 1930 e 1950. 

O primeiro exemplo, A Cuíca tá Roncando, é uma composição de Raul Torres gravada pelo próprio autor, em 1934, e destaca a sonoridade grave que o instrumento tinha naquela época, parecendo de fato com um "ronco".


O segundo exemplo, Iaiá, Ioiô e a Cuíca, originalmente lançado em 1940, é uma composição de Fausto Vasconcelos e Felisberto Martins interpretada de Nena Robledo e J. B. de Carvalho. Percebe-se aí que o cuiqueiro pressiona a pele da cuíca por fora para produzir sons médio-agudos, conforme fazemos atualmente.



Por fim, outra versão de A Cuica tá Roncando, mas dessa vez interpretada pelo multi-instrumentista Mário Gennari Filho, em gravação de 1952. Neste caso, percebe-se que a sonoridade do instrumento já está bem próxima de como o escutamos hoje em dia. Isto nos permite concluir que sua sonoridade tenha atingido, já na década de 1950, o caráter estético que ainda se mantém como padrão nos dias atuais.

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terça-feira, 31 de maio de 2011

Villa Candeia


A fotografia acima registra um quadro com a imagem da capa do disco Axé!, de Antônio Candeia Filho, inquestionavelmente um dos maiores sambistas que esse mundo já viu; e pendurada no canto do quadro está a caricatura de Heitor Villa Lobos, um dos maiores compositores de música de concerto de todos os tempos.

Já faz um tempo que penso em escrever uma postagem reunindo esses dois gênios e fui praticamente obrigado a finalmente escrevê-la ao me deparar com a cena dessa fotografia, há poucos dias, num bar chamado Semente, pequenininho, mas de uma importância sem tamanho para o atual cenário musical do Rio de Janeiro.

Mas essa história é só pretexto para introduzir a verdadeira razão dessa postagem, que é reunir aqui outras duas imagens incríveis destes mesmo personagens (pasmem!) tocando cuíca. O detalhe é que nenhum dos dois era cuiqueiro de fato. O Candeia, como sua própria filha Selma me contou, mal sabia tocar violão; cuíca mesmo, ela nunca viu o pai tocar. Já o Villa Lobos, pelo que nos consta, tocava violoncelo e violão; cuíca também não era a praia dele não.

Capa do LP "A Vez do Morro"
Acima, vemos a imagem da capa do disco A vez do Morro, do conjunto Mensageiros do Samba da Portela. Da esquerda para a direita, estão: Arlindo, no cavaquinho (pai do famoso Arlindo Cruz); Casquinha, no afoxé; Candeia, na cuíca; Picolino, no tamborim; e Jorge do Violão, no próprio violão. Na realidade, o Candeia está apenas fazendo pose com a cuíca para a foto, pois quem realmente gravou a cuíca neste disco foi Casemiro Vieira, eterno integrante da Velha Guarda da Portela, falecido há cerca de dois anos.

Já a foto do Villa Lobos me foi enviada por um grande amigo e professor, Tuninho, vulgo Antônio Miranda, a quem devo minha iniciação no mundo cuiquístico. Não sei onde ele encontrou essa foto maravilhosa do Villa brincando com uma cuíca, que de fato mais parece um brinquedo do que uma cuíca propriamente dita. Trata-se de um registro que demonstra aquilo que nunca foi segredo na personalidade deste genial compositor, sempre atento em aproximar a cultura erudita e a cultura popular, o que aliás é marcante em sua obra.

Heitor Villa Lobos
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Já que estamos falando de "cuiqueiros" inusitados, aproveito o ensejo para dizer que fui informado pelo amigo Barão do Pandeiro, que o cuiqueiro na cena do filme Alô, Alô Carnaval, citado da postagem Vídeo 7 - Molha o Pano, é Alcebíades Barcellos, imortalizado como Bide, autor de sambas antológicos ao lado de Armando Marçal, pai do nosso venerado cuiqueiro Mestre Marçal. Assim como Candeia e Villa Lobos, não constam muitos registros que comprovem a atuação de Bide como cuiqueiro, mas pelas cenas do filme, ele parece ter sim alguma intimidade com a chorona. Completando a bem-vinda informação do amigo Barão, aparecem também naquela cena: Benedito Lacerda, na flauta; Canhoto, no cavaquinho; Ney Orestes e Carlos Lentine nos violões; e Russo do Pandeiro. 
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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Música 7 - Cuica e Viola

Este samba, Cuica e Viola, foi gravado em 1974 pela Elizeth Cardoso, no maravilhoso disco Feito em Casa. Os autores são Romildo e Toninho, hoje em dia conhecido como Toninho Nascimento.


Todo o repertório desse álbum é excelente! As interpretações da Elizeth são "divinas" e o acompanhamento dos músicos, nem se fale! Tenho esse LP, mas está sem o encarte e não pude verificar a ficha técnica para saber quem são os músicos. Mas afirmo com 99,9% de certeza de que a cuica foi gravada pelo Mestre Marçal. Suas frases são inconfundíveis, cheias de sentimento, sutileza e muita malandragem...


Cuica e Viola (Romildo e Toninho)  



Cuica e Viola
(Romildo e Toninho)

Troquei minha viola por uma cuica
Eu troquei
Vamos ver como é que fica
Eu não sei

Viola tem corda, mas não repinica
Viola se afina, cuica se estica
Em roda de samba viola é quem chama
Cuica reclama quem forma o cordão
Diz um verso e vai embora
Quem fica de fora é quem puxa o refrão

Refrão

O meu sapato é o piso do meu bairro
Ando firme e só deslizo quando é ponta de cigarro
A minha casa não tem porta é só telhado
É por lá que o vento entorta, entra e sai por todo lado
O meu pandeiro dá canseira em quem maneja
Ele é feito de madeira e com tampa de cerveja

Refrão

Foste o primeiro embaraço em meu caminho
E passei um bom pedaço com meu peito em desalinho
Sou da Portela, sou de fato partideiro
Teu olhar é meu retrato, teu sorriso é meu dinheiro
Eu nunca fico preso em remandiola
Nem aceito o teu desprezo por cuica ou por viola


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Curtume São Sebastião

Encontrei ontém nuns guardados aqui em casa uma matéria do Jornal do Brasil falando sobre o Curtume São Sebastião. Foi escrita pelo jornalista Múrcio Bezerra e publicada no dia 1º de fevereiro de 2004. Resumi o texto nas partes mais interessantes. Vejam que bacana!

Jornal do Brasil (01/fev/2004)
Um curtume do barulho entra no maior cartaz nessa época do ano, quan- do se transforma no prin- cipal pronto-socorro de cuicas furadas, tamborins estropiados, repiques que- brados e bumbos velhos de guerra. É no curtume São Sebastião, na Rua Doutor Alberto Torres, 2003, em Porto Velho, São Gonçalo, que desde 1930 funciona uma ofici- na de consertos de ins- trumentos de percussão conhecida por dez entre cada dez mestres de bateria das escolas de samba do Rio. (...) Aqui só uso os couros de cabra, bode e cabrito que vêm do Nordeste - diz Nílton Rocha Lopes, viúvo, 71 anos, dono do curtume herdado de seu pai. (...) Nílton também vende couros curtidos e já cortados no tamanho adequado a cada instrumento. Devoto de São Sebastião - há uma imagem do santo, sempre iluminada com luz vermelha dentro do curtume - ele reza para que o tempo fique ensolarado até o carnaval. Precisamos do sol para secar os couros. Sem sol, tenho medo de não dar conta dos pedidos - diz ele, que não está aceitando mais encomendas para este carnaval. Antes de ficar um dia sob o sol, os couros passam dois dias mergulhados numa solução de ácido sulfúrico e alume de potássio. De lá, passam para um tanque com cloro. Em seguida, um funcionário raspa os pelos do couro. As peles, então, são esticadas, pregadas em tábuas e postas para secar. A última fase é a do corte. Um couro de cabra, bode ou cabrito só dá pra fazer um bumbo. (...) Nílton só assiste aos desfiles das escolas de samba pela televisão, em Araruama, para onde vai descansar uns dois dias antes de voltar a preparar os couros para o desfile das campeãs. E diz que o serviço nessa época do ano é duro, mas compensa, porque é preciso acumular dinheiro para enfrentar a fase das vacas magras - ou, no caso, das cabras.

Fotos do Curtume São Sebastião:

 Oficina

Peles de cabra antes do curtimento

Peles já curtidas sendo preparadas para secar ao sol

Peles já curtidas secando ao sol

Peles curtidas secas prontas para o corte

Peles já cortadas prontas para o uso

domingo, 8 de maio de 2011

Cuiqueiros 2 - Alfredo Bessa



Alfredo Bessa nasceu no Rio de Janeiro, em 1933. É um percussionista completo, mas tocando cuica, dava um "molho" todo especial acompanhando um dos maiores compositores da música brasileira, Baden Powell, com quem viveu os principais momentos de sua carreira. Além de tocar com Baden, Alfredo trabalhou também com muitos outros nomes importantes da MPB, dentre eles: Martinho da Vila, Elis Regina, Lamartine Babo, Clara Nunes, Tom Jobim, Chico Buarque de Holanda, Vinícius de Moraes e Paulo César Pinheiro, com quem compôs Ponto do Caboclo Desengano, numa tríplice autoria com João de Aquino. Com esses artistas, teve a oportunidade de fazer inúmeras gravações e se apresentar em diversos  países como Japão, Holanda, Cuba, Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha, tornando-se um cidadão do mundo. Atualmente vive em Oslo, capital da Noruega, onde desenvolve um trabalho de terapia musical com o governo local, mas morou também em outros países, como o Marrocos, onde participou de diversos eventos musicais e deu aulas de música no conservatório de Rabat. Alfredo Bessa é, portanto, um grande representante da música brasileira no exterior, tendo sempre a cuica entre as suas ferramentas de trabalho e tocando com muita alegria, como vemos nos registros abaixo.  

Nesse primeiro vídeo, reparem que ele toca com uma cuica de cinco tarrachas e com porcas-borboleta na extremidade do aro superior, próximas à pele. Muito diferente das cuicas que costumamos ver atualmente, com porcas de chave na base do aro inferior.


Nesse outro vídeo - bem mais recente - Alfredo tira o maior som com uma cuica pequenininha, de apenas seis polegadas, e canta uma sequencia de músicas brasileiras num bar chamado Café Brasil, em Oslo - Noruega.

sábado, 30 de abril de 2011

Blog do Cuica Play


Conheci o Blog do Cuica Play a um tempinho e procuro sempre acompanhar as postagens mais recentes. No dia 31 de março o Luciano - responsável pelo blog - publicou uma postagem sobre o Theo da Cuica e isso me instigou a procurar mais postagens sobre outros cuiqueiros no arquivo do blog. É que o Blog do Cuica Play, apesar do nome, não fala apenas sobre cuica, mas sim sobre percussão de uma maneira geral. As postagens são ricas em fotos, vídeos, músicas e textos, sempre enaltecendo valores da música brasileira e internacional, que dificilmente receberiam a atenção na grande mídia como neste trabalho realizado pelo Luciano. Além da ótima postagem sobre o Theo, encontrei também uma sobre o sr. Zeca da Cuica, outra sobre um jovem sambista de São Paulo chamado Tito Amorim e uma sobre o grande Ovídio Brito. Bom, mas pra começar, acho legal que todos vejam a postagem sobre o próprio Luciano Cuica Play e conheçam um pouco mais sobre este camarada que faz esse belo trabalho em nome da percussão e de todos os percussionistas. Seguem as postagens:


Dêem uma olhada também em tudo do blog porque tem muita coisa legal! Por exemplo, a postagem sobre o maestro Luciano Perrone, já citado aqui algumas vezes. Tem outra muito bacana também sobre o Don Chacal, que para minha surpresa, aparece tocando cuica numa foto. Sabia que ele era um grande percussionista, mas que também tocava cuica, não. Infelizmente o Don Chacal faleceu a pouco tempo e merece muitas homenagens como essa do Cuica Play.

É isso pessoal, tá aí a dica. Aproveitem!

sábado, 23 de abril de 2011

Vídeo 7 - Molha o pano

Por indicação do amigo Sandor Buys, este post traz imagens preciosas da cantora Aurora Miranda e o Regional do Benedito Lacerda interpretando mais uma música relacionada à cuica: Molha o Pano, da autoria de Getúlio Marinho e Cândido Vasconcelos. Encontrei um texto muito bacana sobre Getúlio Marinho, que foi um personagem importante na história do samba, lá no início de tudo, mas é pouco citado por aí. Vale a pena ler! Quanto ao Cândido Vasconcelos, procurei e não encontrei nada. Mas achei uma descrição da cena com a Aurora Miranda que diz o seguinte:

Aurora, a irmã também famosa de Carmen Miranda, aos 20 anos de idade teve dois números cantados, um com Carmen, no filme brasileiro "Alô Alô Carnaval" produzido pela dupla Waldow/Cinédia em 1935, lançado em 1936. Aqui, a graciosa apresentação de seu número nesta produção com o samba "Molha o Pano", de Getúlio Marinho e Cândido Vasconcelos com acompanhamento do Grupo Regional de Benedito Lacerda. Um raro documento histórico da época em que o samba se popularizava. Bom divertimento. 


Molha o Pano
(Getúlio Marinho e Cândido Vasconcelos)

Molha o pano
Pega na cuica
Puxa certo e com cadência
Veja o samba como fica

Fui num pagode
A família deu o não
Aqui não se quer cuica
Porque não é barracão

Fiquei sentida
Coragem! Gritou meu mano
Quem é rico paga orquestra
E quem é pobre molha o pano

Refrão

É um abuso
E por demais autoridade
Fazer pouco em quem é pobre
Só por ter felicidade

Não fiz barulho
Porque me julgo decente

Tratei de molhar o pano
E gritei “vamos em frente!”


É interessante observar que a música publicada na última postagem, Como se faz uma cuica, traz um verso onde se diz que "o piano é de nobre e o instrumento de pobre é a cuica", e agora vemos ser dito que "quem é rico paga orquestra e quem é pobre molha o pano". Antes que alguém se sinta ofendido, acredito que esses versos não tenham sido criados com a intenção de inferiorizar o nosso estimado instrumento musical e nem a nós, seus instrumentistas. Essa polaridade entre o que é de rico e o que é de pobre, onde a cuica aparece ligada à pobreza, evidentemente representa uma série questões econômicas e sociais, o que não cabe agora aprofundar. Mas vale refletir sobre o quanto os cuiqueiros pioneiros sofreram discriminação para firmar a cuica no cenário artístico nacional, a ponto de poder desfrutar a situação de maior aceitação em que a cuica se encontra hoje. Embora ainda exista discriminação.
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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Dia Nacional da Cuíca [21 de abril]

Hoje é o "Dia Nacional da Cuíca", uma data que apesar de ser extra-oficial, é reconhecida e celebrada pelos cuiqueiros e cuiqueiras de todo o Brasil. Inclusive, hoje, no Rio de Janeiro, haverá uma festa na quadra da escola de samba União de Jacarepaguá, à partir das 13:00 horas.

E para não deixar essa data tão especial passar em branco por aqui, selecionei um samba de Haroldo Lobo e Wilson Baptista intitulado Como se faz uma cuíca, que é um verdadeiro documento histórico do nosso instrumento. Lançada em 1944 pelo conjunto vocal Anjos do Inferno, essa é uma das poucas composições cuja temática é especificamente dedicada à cuícaO título é instigante por si só, mas ao longo da letra é que a preciosidade deste belo samba fica de fato evidente.


COMO SE FAZ UMA CUÍCA
(Horoldo Lobo e Wilson Batista)

Um pedaço de pau
Um pedaço de couro numa barrica
É assim que se faz um cuíca

Depois de tudo acabado
Vem outra observação
Arranje um pano molhado
Pra fazer a marcação

Venham ver como é que o samba fica
O piano é de nobre
E o instrumento de pobre é a cuíca

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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Água de cuíca

Hoje é 1º de abril, dia da mentira, e para celebrar essa data tão especial nada melhor do que falar sobre a famosa “água de cuíca”.


Reza a lenda que antigamente, quando um cuiqueiro tinha a oportunidade de viajar para outro país, sabendo que provavelmente algum gringo desejaria comprar sua cuíca, ele levava na bagagem uma ou mais cuícas extras, justamente para serem vendidas. A questão é que durante a negociação da venda o cuiqueiro utilizava uma estratégia bastante arriscada, mas que funcionava direitinho. Conheci essa história mais ou menos assim...

O gringo, impressionado com a performance do cuiqueiro, se dirigia a ele mostrando interesse em comprar aquele instrumento tão interessante, perguntando por quanto o cuiqueiro lhe venderia. O cuiqueiro dizia então um valor bem baixo, como uns 20 dólares ou algo assim. O gringo ficava entusiasmado em adquirir a cuíca pagando tão pouco e comprava imediatamente. Mas em seguida, questionava: ok, mas como faz pra tocar? Nessa hora o cuiqueiro tirava a carta da manga, dizendo o seguinte: bom, pra tocar cuíca você precisa do pano e da água. Essa água serve para molhar o pano e sem ela é impossível tocar! O gringo ficava ainda mais fascinado e perguntava ao cuiqueiro onde conseguir o pano e a água. Com toda sua malandragem, o cuiqueiro emendava: olha my friend, essa água é a “água de cuica”... uma água especial e essa aqui é das boas! Se quiser, te vendo o pano e uma garrafinha da água por apenas mais 500 dólares. Surpreso e não muito contente com essa novidade, mas sem encontrar outra saída por já ter comprado o instrumento, o gringo se via obrigado a pagar esse valor tão mais alto e o cuiqueiro voltava pro Brasil feliz da vida.
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quinta-feira, 31 de março de 2011

Vídeo 6 - A Rainha e a Cuíca (curta-metragem)

Durante uma visita ao Brasil, a rainha da Inglaterra é levada a um ensaio da Portela pelo então presidente Juscelino kubitschek. Hipnotizada pelos sons da cuíca de Bigode, um célebre cuiqueiro da agremiação, a majestade se vê fortemente atraída pelo ritmista, que corresponde ao flerte e convida a nobre visitante para um rolê na Lapa. Entretanto, a fugidinha da rainha é tida como um sequestro pelas autoridades britânicas, levando o Brasil à uma grave crise diplomática. O governo é deposto e os militares tomam o poder, instaurando uma ditadura no país. As investigações do suposto sequestro apontam Bigode como principal suspeito e inicia-se uma grande operação de resgate. O cativeiro é localizado e Bigode vai preso, sendo levado a responder por seu crime na Inglaterra, onde faz um discurso de defesa que surpreende o mundo (curta-metragem de ficção produzido com imagens de arquivo da extinta TV Tupi).



Direção e Roteiro: Felippe Mussel
Montagem: Moisés Zylberberg
Desenho Sonoro: Fabrício Batista, Bruno Mello Conceito e Joana Luz
Edição de Som: Felippe Mussel
Diálogos e Dublagens: Bruno Mello Conceito, Fabrício Batista, Joana Luz, Felippe Mussel, Tchelo Mello, Carolina Fortuna, Leo Rivera e Miquinou

quinta-feira, 24 de março de 2011

3º Encontro de cuícas e desfilantes

Realização: Alex Fabiano, Rodrigo Canavarro e Quirininho.

Atenção cuiqueiros e cuiqueiras do Rio de Janeiro! No próximo sábado (26), será realizado o 3º Encontro de cuícas e desfilantes. Trata-se de uma confraternização entre os cuiqueiros, seus familiares e amigos que desfilam em alas diversas das escolas de samba. A entrada é gratuita, mas como o evento não conta com nenhum tipo de patrocínio, a organização pede que cada pessoa leve 1 Kg de carne e bebida à escolha, além da cuíca, é claro! 

A festa promete muita descontração e batucada para o ecoar das "choronas", mas também nos dará a oportunidade de discutir projetos relevantes para a perpetuação da nossa arte, como a criação do troféu Cuíca de Ouro, que consiste numa premiação para o naipe de cuíca que mais se destacar em cada carnaval. No sábado a gente aprofunda este assunto. Até lá!

Início: 13 horas
Endereço: Rua Brigadeiro Dellamare, nº. 302 - Marechal Hermes
(próximo ao hospital Carlos Chagas)
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terça-feira, 8 de março de 2011

O cuiqueiro e a passista

Se existe uma coisa que todo cuiqueiro gosta é de ser filmado ou fotografado tocando para uma passista da sua escola de samba. Cena obrigatória no roteiro de qualquer filme sobre o carnaval brasileiro, a imagem dessa dupla já faz parte do imaginário coletivo e tem uma representação bastante significativa no universo do samba.

Alguns cuiqueiros e passistas formaram duplas que encantaram plateias mundo afora, como o “Casal 20”, formado por Índio da Cuíca e sua esposa Shirley, e a dupla “Caqui”, da passista Cátia com o saudoso Quirino Lopes. 

De modo geral, os registros dessas duplas sempre mostram os cuiqueiros sorrindo ou fazendo caretas, de modo a expressar a irreverência sonora da cuíca embalando as performances hipnóticas das passistas. Mas apesar de toda graça e beleza, há questões bastante delicadas por trás desse imaginário .

A foto abaixo, por exemplo, originalmente publicada na capa de uma edição do jornal Olé, um importante periódico esportivo da impressa argentina, nos permite problematizar este assunto.

Jornal Olé (junho de 2006)

Publicada durante a copa do mundo de 2006, realizada na Alemanha, esta fotografia é uma clara referência ao imaginário clichê que apela aos elementos de sua composição como símbolos nacionais do Brasil de maneira jocosa e pejorativa. 

A frase "o mais grande do mundo" se refere objetivamente à seleção brasileira, pentacampeã naquela ocasião, mas é também uma analogia maliciosa ao corpo feminino em primeiro plano. Um exemplo típico do assédio que as passistas lamentavelmente são obrigadas a enfrentar, muitas vezes estimulado pelo racismo.

A expressão do cuiqueiro – o mangueirense Dom Gravata – também é digna de reflexão. Apesar de toda simpatia e comicidade individual, esse tipo de expressividade também legitima um estereótipo muitas vezes abordado de maneira “folclórica” e depreciativa, que reduz os cuiqueiros e, consequentemente, todo o patrimônio cultural da cuíca à simples figura de um sujeito engraçado. 

Alegria e irreverência são características dos cuiqueiros tão inerentes quanto a sensualidade das passistas. Mas a riqueza dessas personagens, sobretudo quando se apresentam em dupla, é de tamanha força e beleza que não pode ser diminuída por nenhum preconceito ou visão superficial. Fato, infelizmente, ainda real, que este humilde espaço cuiquístico tem por missão denunciar e combater.
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*atualizado em 10/03/2022

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Cuiqueiros de Floripa

Essa matéria saiu no Blog TAMBORIM, de Ângela Bastos, no dia 16 deste mês. Mostrando que em Florianópolis a cuica também chora bonito! 

A cuica vai roncar...


A cuica vai roncar na festa do Berbigão do Boca, dia 25, no Centro de Florianópolis. Afinal, serão 50 cuiqueiros das cinco escolas de samba formando uma das maiores alas de cuica que se tem ideia.
Dú, mestre da bateria da Unidos da Coloninha, está animado. Tocador apaixonado e professor, ele aproveitou um jantar oferecido por Nivaldinho Machado, agora à noite, para conversar um pouco sobre a importância do exótico instrumento para o samba. Papo vai e papo vem, foi sugerido para após o Carnaval um encontro com a vinda de convidados para uma grande roda. Dú estima que cada uma das cinco escolas desfilem com cerca de 10 cuicas na Nego Quirido.
Pelo que deu para perceber o grupo está disposto a montar uma confraria, como já ocorre em outros lugares.
Democrático
Ver os cuiqueros conversar é um aprendizado. A cuica é um instrumento parecido com um tambor. Pode ser tocada por qualquer pessoa, independente do sexo, seja adulto ou criança. Por isso, democrático. Por dentro, existe uma haste de madeira presa bem no centro da membrana de couro. O som é obtido friccionando a haste com um pedaço de tecido molhado (antes usavam querosene) e pressionando a parte externa com dedo, produzindo um ronco característico. Quanto mais perto do centro da cuica, mais agudo será o som produzido.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Música 6 - Cuícas Loucas

Cuícas Loucas é décima faixa do disco Batucada Fantástica Volume 3 - Luciano Perrone e seus Ritmistas Brasileiros, lançado pelo selo Musidisc em 1972. Trata-se de um "duelo" cuiquístico entre Mestre MarçalMinistrinho, sob uma esplêndida base rítmica conduzida pela bateria de Luciano Perrone.

O "duelo" entre as cuícas se inicia com as duas soando juntas, mas logo Marçal segue sozinho até o momento em que o cronômetro ultrapassa o primeiro minuto, quando então dá a vez a Ministrinho, que prossegue durante todo o restante da música, inclusive na "gargalhada" irretocável que se escuta no final, depois de um breve reencontro com o Marçal alguns segundos antes.

Ambos são viscerais, mas a diferença de estilo entre eles é nítida. Mestre Marçal transborda elegância numa sonoridade polida, em conduções espaçadas e fraseados cheios de suingue. Já Ministrinho apresenta uma estética "suja" (mas não menos deslumbrante), extremamente irreverente e também marcada por muito suingue. Resumindo: Cuícas Loucas é uma obra prima!

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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A cuíca no jazz

Hoje em dia, talvez em função do alcance internacional que a televisão deu ao carnaval brasileiro, é difícil encontrar algum país que não tenha pelo menos uma escola de samba. O enorme sucesso da bossa-nova também contribuiu bastante para que o samba se tornasse um gênero musical globalizado. Assim, não demorou muito para que os seus instrumentos típicos, como a cuíca, passassem a ser utilizados em outros contextos musicais, como no universo jazzístico.


A imagem acima consiste na capa do livro JAZZ – History, Instruments, Musicians, Recordings, de John Fordham, publicado em 1993, onde constam algumas páginas dedicadas a instrumentos sul-americanos, caribenhos, asiáticos e africanos, introduzidos no jazz como resultado da busca por novas sonoridades. O músico que faz a apresentação de tais instrumentos é Naná Vasconcelos – abaixo, à esquerda – pernambucano com vaga cativa entre os maiores percussionistas do mundo e de toda a história da música.


Ampliada na imagem à direita, o livro apresenta a imagem de um modelo de cuíca não muito comum atualmente, com apenas cinco tirantes (parafusos de afinação), trazendo também a seguinte descrição do instrumento: A cuíca é um tambor de fricção brasileiro. Há uma vareta anexada dentro da pele, que o instrumentista esfrega com um pano umedecido, aplicando pressão sobre a pele, criando um gemido vocalizado bastante característico.

É interessante notar que a cuíca está relacionada entre os instrumentos de percussão, mas é descrita como um "tambor de fricção", o que de certa forma corresponde ao debate iniciado na postagem "Cuíca é percussão?". Outro ponto interessante é a definição do som do instrumento como um "gemido vocalizado".

A presença da cuíca no universo do jazz também pode ser constatada através do exemplo compartilhado no player abaixo, um latin-jazz intitulado de Brazilian Sugar gravado em disco do percussionista novaiorquino Steven Kroon, que vemos na imagem. Tive a honra de conhecê-lo no ano passado, em Manaus, durante o 5º Festival Amazonas Jazz, e fiquei surpreso ao vê-lo tocar cuíca naquela ocasião, durante o show em que acompanhou a cantora Carla Cook. Em Brazilian Sugar, sua cuíca pode ser notada a partir dos 4min40seg, aproximadamente.


Outro registro onde a cuíca bate uma bola com o jazz é Rocking with Mocotó, obra instrumental gravada no disco Dizzy Gillespie no Brasil com Trio Mocotó, produzido em 1974, porém, lançado somente 35 anos depois, em 2009, pelo selo Biscoito Fino. O disco celebra o encontro entre o trompetista Dizzy Gillespie, um dos maiores nomes da história do jazz, e o Trio Mocotó, que à época contava com um dos maiores virtuoses da história da cuíca, Fritz Escovão. Dizzy e Fritz estabelecem um diálogo brilhante entre o trompete e a cuíca.


Para finalizar, o registro de uma orquestra comandada por Quincy Jones interpretando a música Soul Bossa Nova, de sua autoria, num famoso programa de TV norte-americano. O cuiqueiro que aparece nas imagens é o paulista Edson Aparecido da Silva, conhecido como Café, residente há muitos anos nos Estados Unidos, onde construiu uma bela carreira baseada no intercâmbio entre o jazz e a percussão brasileira.

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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Confraria da Cuíca de Porto Alegre

No sábado passado, o Diário Gaúcho publicou uma matéria sobre a Confraria da Cuíca de Porto Alegre, reproduzida integralmente abaixo.


Eles fazem a cuíca roncar na avenida

Luiz Armando Vaz
luiz.vaz@diariogaucho.com.br

Criada há quatro anos, a Confraria da Cuíca conta com experientes músicos que, neste ano, darão um molho especial à bateria da Estado Maior da Restinga.

Em Porto Alegre, tem um grupo de músicos que se reúne regularmente para trocar ideias e comentar novidades sobre os sons de um dos instrumentos mais exóticos que existem: a cuíca. É a Confraria dos Cuiqueiros.

Fisicamente, a confraria existe há quatro anos. Porém, integrantes do grupo já se comunicavam virtualmente pela internet. Os primeiros encontros ocorrem nas bandas Itinerante e da Saldanha. Mas, agora, é na escola de samba Estado Maior da Restinga que os cuiqueiros estão se reunindo.

- Agilidade nas mãos

O organizador, Sérgio Barboza, herdou o gosto pelo instrumento do pai, Miro da Cuíca, de Santa Maria. Em Porto Alegre há muitos anos, Sérgio agora é um dos responsáveis pelo naipe de cuícas da Tinga.

O grupo está feliz da vida, pois recebeu do diretor de bateria da Restinga, José Augusto da Silva, o Mestre Guto, a promessa de que irá dobrar, neste ano, o número de cuiqueiros. No Carnaval passado, foram 14.

Fazem parte da confraria algumas figuras de destaque no Carnaval. Uma delas é Jandir Soares, o Biriba, 72 anos, que está há mais de 20 anos na escola, juntamente com seu irmão, Jair Soares, o Caolho da Cuíca, que aprendeu no Rio de Janeiro os segredos do instrumento.

– A cuíca é um instrumento fácil – garante Biriba. Ele diz ainda que a única coisa indispensável é ter agilidade nas mãos.

- Desfilam por até dez escolas

Alguns dos integrantes da Confraria da Cuíca desfilaram por dez escolas no Carnaval do ano passado. Garantem que só não desfilam em mais porque não dá tempo.

Na Muamba Oficial, quando não há exigência de fantasia, porém, desfilam junto com as baterias de todas as agremiações.

Na confraria, há, inclusive, um caso de paixão. Marquinhos e Karla são casados há seis anos. Ele é diretor de bateria da escola Samba Puro. Ela, é dona de casa. É uma união que tem na cuíca um amuleto do amor, garantem os dois.

- O que é

A cuíca é um instrumento semelhante a um tambor, com uma haste de madeira presa no centro da membrana de couro, pelo lado interno. O som é obtido friccionando a haste com um pedaço de tecido molhado e pressionando a parte externa com dedo, produzindo um ronco característico. Quanto mais perto do centro da cuíca, mais agudo será o som produzido.

- Chegou a hora dos ensaios técnicos

Começam neste domingo os ensaios técnicos do Grupo Especial de Porto Alegre, no Sambódromo. Serão quatro escolas que desfilarão a partir das 20h. Pela ordem: Academia de Samba Puro, Praiana, Império do Sol e Acadêmicos de Gravataí. Os ensaios vão até o dia 20, sempre aos domingos. No domingo passado, foi realizada a muamba das cinco escolas do Grupo Intermediário A.

- Folia nas ondas do rádio

A partir deste final de semana, o Carnaval ganha mais espaço na Rádio Gaúcha (AM 600 e FM 93.7). A agitação começa já no programa Gaúcha no Carnaval, que começará às 22h e irá até as 3h de domingo, com apresentação de Odir Ferreira.

No domingo, com Cláudio Brito no comando, a atração vai da meia-noite às 5h da segunda-feira, trazendo todas as novidades sobre a folia.

PENSAMENTOS
- A volta da cuíca é um resgate importante no Carnaval.
- O naipe de cuícas é a comissão de frente das baterias.
- É um instrumento muito pessoal: quem tem, não empresta a ninguém.
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*atualizado em 10/03/2022