Intro

Bem vindo ao blog Cuiqueiros, um espaço exclusivamente dedicado à cuica – instrumento musical pertencente à família dos tambores de fricção – e aos seus instrumentistas, os cuiqueiros. Sua criação e manutenção são fruto da curiosidade pessoal do músico e pesquisador Paulinho Bicolor a respeito do universo “cuiquístico” em seus mais variados aspectos. A proposta é debater sobre temas de contexto histórico, técnico e musical, e também sobre as peculiaridades deste instrumento tão característico da música brasileira e do samba, em especial. Basicamente através de textos, vídeos e músicas, pretende-se contribuir para que a cuica seja cada vez mais conhecida e admirada em todo o mundo, revelando sua graça, magia, beleza e mistério.

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sábado, 29 de outubro de 2011

A cuica na música erudita

Esse novo post segue a mesma ideia que já foi apresentada na postagem A cuica no jazz, só que dessa vez veremos exemplos da presença da cuica na música erudita.

Numa análise mais superficial à respeito desse tema, certamente há quem pense que isso não é possível. Como assim, cuica na música erudita? De fato, todos nós sabemos que a cuica é um instrumento musical típico do carnaval, que tem em sua sonoridade o simbolismo da alegria, da sensualidade, da festa, da malandragem, enfim, características muito distantes do ambiente austero e disciplinado da música clássica, como também é chamada a música que é "fruto da erudição e não das práticas folclóricas e populares". Além disso, o cuiqueiro geralmente não é o tipo de músico que estuda horas e horas o seu instrumento, como fazem os concertistas. Então, levando essas premissas em consideração, podemos concluir que a cuica realmente não tem vez dentro de uma orquestra, correto? Não! 

Indio da Cuica - OSRJ

A OSRJ - Orquestra de Solistas do Rio de Janeiro - tem como um de seus integrantes o grande Indio da Cuica, esse aí da foto acima. Indicado ao maestro Rafael de Barros de Castro pelo saudoso Ovídio Brito, o Indio tem um papel fundamental nessa orquestra, onde ele toca pandeiro, reco-reco, tamborim, mas é com a  cuica que ele faz toda a diferença, como se pode ver nesse vídeo:


Essa apresentação faz parte de uma série de espetáculos da OSRJ dedicada à música popular brasileira e fica claro que a proposta dessa orquestra não é seguir à risca a formalidade característica da música erudita. No caso desse vídeo, o espetáculo era em homenagem ao compositor Noel Rosa. Já a foto mais acima é de um concerto em homenagem à Nelson Cavaquinho, que hoje estaria completando cem anos! Inclusive, a OSRJ fará uma apresentação no próximo dia 08, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, às 19h, com entrada franca, em homenagem ao centenário do compositor.

O próximo caso é um exemplo que deixa a relação entre cuica e música erudita um pouco mais estreita. Trata-se de uma apresentação na abertura do programa do Jô Soares, que aconteceu a pouco mais de um mês. No piano, está o conceituado maestro João Carlos Martins, nas cordas, o Quarteto Bachiana e junto a eles, um cuiqueiro chamado Bocão, obviamente, na cuica. Eles tocam a peça Ária na Corda Sol, do compositor alemão Johann Sebastian Bach.


Para finalizar, o vídeo abaixo mostra uma orquestra executando a obra Ionisation, composta em 1931, por Edgar Verése, compositor francês naturalizado estadunidense. Essa música foi escrita apenas para instrumentos de percussão, como bumbo, tímpano, tarol, pratos, blocos de madeira, bem como instrumentos percussivos de altura definida, como o piano e os sinos. Algumas pessoas podem estranhar ou até mesmo pensar que não se trata de uma música. É que na realidade, Verése a compôs com a intenção de reproduzir os sons da vida urbana moderna, tanto é que ele utilizou até sirenes na sua criação. Mas o que nos interessa é que ele dedicou algumas poucas notas da partitura para um instrumento chamado lion's roar, que se assemelha à cuica, pois também pertence à família dos tambores de fricção.


É preciso ter um pouco de atenção ao assistir o vídeo para não perder os poucos momentos em que a "cuica" é tocada. Primeiro aos vinte segundos, depois aos 37 segundos e no final da música, não aparece na imagem, mas dá para ouvir que o instrumento está sendo novamente executado.

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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Continuação da postagem anterior

Dando continuidade à postagem anterior, além das dicas sobre o tratamento da pele animal dos instrumentos de percussão, o texto da IZZO cita outras questões que também merecem atenção. Logo no início, concordo quando é dito que "muitos fabricantes empacham o instrumento e colocam à venda sem tratar as peles", mas com a correção de que, no caso da cuica, absolutamente todos os fabricantes colocam o instrumento à venda sem tratar a pele antes, e pior ainda, o gambito também não recebe tratamento algum. Isso é ruim porque prejudica quem está começando a tocar cuica e ainda não possui conhecimento suficiente pra escolher uma boa pele e deixar o gambito de acordo com seu gosto pessoal, como fazem os cuiqueiros mais experientes.

Depois, fala que "a pele animal sofre muitas variações de acordo com o clima e a temperatura". Pensando como o texto aponta, o frio afrouxa a pele enquanto o calor estica, mas arrisco a dizer que não é bem isso. Na verdade, acho que o nível de umidade no ar é que faz a pele esticar ou afrouxar, e não a temperatura. Se persarmos, por exemplo, num ambiente como o de uma sauna, onde a temperatura é elevada, porém, muito úmida, será que a pele vai esticar ou afrouxar? Imagino que vai afrouxar. E no caso do ar condicionado? Já toquei num teatro com o ar condicionado ligado e pouco antes de começar o show, deixei a cuica no palco, já afinada, mas quando o show começou e eu dei a primeira puxada, a pele estava muito mais esticada do que a afinação que eu havia feito poucos minutos antes. Quer dizer, o ar condicionado deixou o ambiente frio, porém, com o ar seco, e por isso a pele esticou ao invés de afrouxar. Portanto, diria que a pele sofre variações de acordo com a umidade do dia ou do ambiente, tanto em locais abertos ou fechados. O "quente" ou "frio" certamente influenciam de alguma forma, mas não é a temperatura que faz a pele sofrer variações e sim o nível de umidade no ar.

Sobre a sugestão de se usar azeite de dendê para tratar a pele animal de instrumento de percussão, no caso da cuica, aproveito a opinião dos amigos Pierre do Pandeiro e Malabim, que deixaram, respectivamente, os seguintes comentários:

"eu acho que o sistema do azeite de dendê não seria um ótima opção pois ele engrossa a pele fazendo surtir mais os sons graves, sendo que na cuíca o que da aquele brilho é o som agudo"

"como sou adepto do candomblé já utilizava o azeite de dendê sendo que os atabaques são tratados desta forma. Cada um cada um, mas é uma ótima opção...".

Duas opiniões que se divergem, mas ao mesmo tempo se complementam. Malabim ainda finaliza dizendo: "tem um amigo meu, cuiqueiro, que utiliza creme hidratante". Usar creme hidratante para tratar a pele da cuica me parece mais viável e, quem sabe, mais eficaz do que o azeite de dendê.

Quanto à afinação em X, imagino que boa parte dos seguidores deste blog saibam o que isso significa, mas pra quem não sabe, a afinação em X é uma maneira utilizada por muitos cuiqueiros para afinar a cuica. Trata-se de apertar os parafusos alternadamente, formando um movimento de X realmente, como na imagem abaixo.



Essa ilustração mostra o movimento alternado de um parafuso para o outro: do primeiro para o segundo, do terceiro para o quarto e assim sucessivamente, do quinto para o sexto, do sétimo para o oitavo; independente do número de tirantes da cuica, a sequência segue dessa maneira, até chegar novamente no parafuso do início. O importante durante esse processo é dar o mesmo número de voltas em cada parafuso, geralmente com uma ou duas voltas, se a pele for nova, ou mais do que duas voltas, se a pele já tiver algum tempo de uso. Isso é o que vai determinar a altura da afinação, quer dizer, se o som da cuica vai ficar agudo, medio ou grave. Outra coisa muito importante para uma boa afinação é deixar todos os parafusos com a mesma pressão, então, depois de afinar em X, verifique se tem algum parafuso mais frouxo que os demais e, caso seja necesário, dê mais um aperto no parafuso identificado. Isso é o que vai resultar no equilíbrio da afinação e, consequentemente, no som harmonioso do instrumento
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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Como tratar a pele da cuica

Encontrei no site da IZZO - fabricante de instrumentos musicais - um texto com dicas de como tratar a pele animal de instrumentos de percussão. Bom, não sei dizer se as dicas desse texto são confiáveis e se de fato trazem benefícios à pele, mas achei o tema bastante interessante pra gente discutir aqui. Comentários serão bem vindos de quem tiver alguma opinião a respeito ou mais dicas de como cuidar da pele da cuica. Segue o texto: 

Muitos músicos e instrumentistas solicitam que seus instrumentos de percussão sejam empachados com pele animal, a fim de obter maior durabilidade, elasticidade e sonoridade para estes. Mas não é somente empachar o instrumento e sair por aí tocando. Inclusive, alguém que compra um instrumento com pele animal pode ficar frustrado com o som estridente e achar que fez uma péssima compra, ou optou por um tipo de pele errada. Na grande realidade, o que falta é “tratar” essa pele, pois muitos fabricantes empacham o instrumento e colocam à venda sem tratar as peles. Anotem as dicas: 

Primeiro, a pele animal sofre muitas variações de acordo com o clima e a temperatura. Por exemplo, em dias frios, ela fica frouxa, necessitando de uma leve afinação, e em dias de calor, ela estica sozinha. Por isso que não é bom deixar muito esticada no frio, pois quando esquentar o tempo, algumas fibras podem se romper e com o tempo, ela vir a rasgar.

O primeiro passo é tirar a pele do instrumento, mas sem tirar o aro em que ela foi empachada, para proceder com o tratamento adequado. Em seguida, pegue um pedaço de algodão, embebede com um pouco de azeite de dendê, tanto em cima, quanto embaixo da pele. Mas cuidado: não encharque. Passe pouco, apenas uma camadinha fina, e esfregue bem com algodão. O azeite de dendê possui propriedades que encorpam a pele, deixando-a mais resistente e com um som mais grave, reforçando as fibras sem agredir o instrumento. Não use azeite de oliva, pois ele quando seca, racha a pele por causa da grande quantidade de iodo (sal), ao contrário do azeite de dendê, que é feito de soja.

Em seguida, deixe descansar no sereno fino da noite. Coloque se possível, embaixo de alguma telha ou uma cobertura, para que receba apenas a brisa fina, fazendo com que a pele possa encorpar (cozinhar à frio). Mas atenção: não deixe a água cair direto na pele, pois encharcada a pele pode se soltar do aro, estragando todo o processo.

No dia seguinte, coloque de forma indireta sobre o sol (na sombra) para secar. Em baixo de alguma proteção, para que apenas o calor não intenso seque naturalmente a pele. Deixe secar por quatro horas e pronto. Coloque no instrumento novamente, afinando sempre em X. Aperte um parafuso com duas voltas, vá à outra extremidade e dê duas voltas também, procedendo assim em todos os parafusos.

Quando começar a dar o aperto, de meia em meia volta, vá apertando os parafusos e batendo levemente a mão logo em cima deles na pele, observando se em todos os parafusos o som é o mesmo. Se algum estiver com um som mais grave, vá apertando até dar o tom desejado. Assim, seu instrumento está afinado e com a pele tratada, a qual, se for bem cuidada, durará em média dois anos com um excelente som.

sábado, 24 de setembro de 2011

Um ano de Blog

Há alguns dias este singelo informativo cuiquístico completou um ano de existência. Confesso que não imagina a proporção que este blog ganharia no decorrer desse tempo, mas  estarei mentindo se disser que  o criei sem nenhuma pretensão. A verdade é que sempre existiu um objetivo pré-definido, motivado por uma situação que vivenciei, mas que ainda não relatei aqui. Tudo começou no dia em que fui transferir minha carteira da OMB - Ordem dos Músicos do Brasil - do Conselho Regional do Distrito Federal para o do Rio de Janeiro. Quando tirei minha carteira em Brasília, eu ainda não tocava cuica, só cavaquinho. Foi no Rio de Janeiro, para onde me mudei em 2001, que comecei a tocar cuica, e então, quando pedi a transferência da documentação na OMB, quis incluir a cuica na relação de instrumentos que toco. Tudo ia muito bem até eu ser informado que seria cadastrado como percussionista e não como cuiqueiro. Acontece que na minha opinião cuica não é instrumento de percussão, logo, cuiqueiro não pode ser considerado percussionista. Levantei essa questão entre os funcionários da OMB e devido a ignorância de algumas pessoas da casa, os nervos se exaltaram, eu continuei insistindo para ser cadastrado como cuiqueiro, e a discussão terminou quando eu escutei a seguinte frase de uma alta funcionária da casa: "meu filho, se eu colocar cuiqueiro na sua carteira, é igual te dar atestado de burro". Depois disso, eu me calei e para não piorar as coisas, fui embora indignado. Hoje, quando me lembro desse episódio, tenho vontade de voltar lá e agradecer à distinta senhora que me disse essa bendita frase, pois foi o que motivou a começar minha pesquisa sobre cuica, criar esse blog para dividir com o mundo as coisas tenho encontrado e, quem sabe, evitar que alguém passe a mesma humilhação que eu passei. Infelizmente, a cuica ainda é um instrumento marginalizado e os cuiqueiros não são tratados com a dignidade que merecem.

Para descontrair esse clima tenso, pesquisando na rede algo que pudesse colocar aqui nessa postagem de comemoração, encontrei um bolo no formato de cuica. Mais apropriado impossível! 

Fonte: http://doceconquista.blogspot.com/2011/03/bolo-cuica.html

Até este momento foram feitas 18.589 visitas ao blog, divididas entre mais de trinta países, que estão representados aqui em baixo pelos dez visitantes principais. Mas além destes, constam também: Angola,  Bélgica, Suécia, Bolívia, Itália, México, Moldávia, Irlanda, Ucrânia, Hungria, Colômbia, Noruega, Uruguai, Letônia, Venezuela, Dinamarca, Russia, Canadá, Espanha, Áustria, Grécia, e por aí vai! 


Gostaria de agradecer na língua de cada uma dessas nações, mas como diria o saudoso João Nogueira: "eu não falo gringo, eu só falo brasileiro". Então, muito obrigado! É uma satisfação enorme ver que a cuica é um instrumento admirado em tantas partes do mundo. Inclusive, quero dar uma dica aos amigos estrangeiros: parece que o Google Translator -  instalado na página inicial do blog - funciona apenas com navegador da Google [Google Chrome]. Sei que a tradução desse aplicativo não é perfeita, mas deve ajudar na compreensão dos textos. As dúvidas que ficarem, por favor, não exitem em perguntar.

Segue uma listagem de todas as 51 postagens feitas até agora, divididas nos assuntos em que elas mais ou menos se relacionam:   






Bom meus amigos, é isso. Espero que continuem sempre acompanhando o blog, contribuindo com dicas,  comentários e divulgando para os amigos. Meu esforço para encontrar e divulgar informações interessantes sobre cuica não vai parar. Não tem sido fácil, mas as dificuldades são superadas pelo prazer de conhecer tantas pessoas e aprender tanto com elas sobre cuica, mas acima de tudo, sobre a vida.

Obrigado!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Cuiqueiros 3 - Casemiro


Casemiro Vieira

Quem acompanha o trabalho da Velha Guarda da Portela certamente já conhece o Sr. Casemiro, mas pra quem ainda não teve esse prazer, segue uma breve descrição sobre ele encontrada no livro A Velha Guarda da Portela, de João Batista M. Vargens e Carlos Monte:

Nasceu em São João de Meriti, em 4 de março de 1921. Exerceu a profissão de ladrilheiro e teve três filhos. Tocou cuica na bateria da Portela durante muitos anos. Em um desfile, conseguiu o feito heróico de acertar a bateria da escola, que havia atravessado o ritmo ao desviar de uma enorme poça na pista. Casemiro e sua cuica ficaram de frente para o grupo até a harmonia ser recuperada. Incorporou-se à Velha Guarda da Portela no início dos anos 1980, em substituição a Olímpio. Segundo ele, “o segredo do instrumento é saber encourar, saber amarrar a vaqueta da cuica, a marca do passo”. Afirma que “a maioria dos cuiqueiros de hoje não sabe disso” e conclui: “A afinação da cuica da Velha Guarda é diferente de todas as outras”. Na sua opinião, o maior cuiqueiro que já se ouviu tocar foi o Boca de Ouro, da Lapa, e destaca como baluartes da Velha Guarda Monarco, Casquinha e Manacéa. Nos shows do grupo, Casemiro é apresentado por Casquinha como o “Leão da Cuica”. É também compositor, e sua música Tentação, em parceria com Ramon Russo, foi gravada no CD Tudo azul.

O Sr. Casemiro faleceu no dia 8 de janeiro de 2009, dois meses antes de completar 90 anos. Pude conhecer uma de suas filhas, a Dona Regina, que acompanhou o pai nos difíceis momentos que precederam o seu falecimento. Ela me contou algumas coisas sobre ele, como a forte teimosia que marcava a sua personalidade e uma história que me foi contada por outro ícone da Velha Guarda, o Sr. Monarco, comprova bem isso. É que ele usava querosene ao invés de água pra tocar cuica e o pessoal da Velha Guarda já não gostava muito do cheiro forte que ficava no ambiente. Acontece que surgiu um show pra Velha Guarda fazer em Paris, mas antes da viagem, o Monarco foi ao Casemiro e pediu pra que ele não levasse o vidrinho de querosene, temendo qualquer problema no aeroporto por conta do esquema antiterrorismo que alarmava o mundo naquele período. Imaginem só: “Velha Guarda da Portela é detida na França por suspeita de terrorismo!”. O Monarco estava coberto de razão, mas apesar do pedido, quando chegaram em Paris, lá estava o Casemiro com seu vidrinho de querosene. Outro caso engraçado é esse dele ser chamado pelo apelido de “Leão da Cuica”. A Dona Regina me mostrou também alguns pertences, fotos e documentos do pai, como a carteirinha da Portela e este papel aqui embaixo. Uma brincadeira que os seus companheiros da Velha Guarda gostavam de fazer com ele nos camarins.

Na foto: Casemiro (indicado por uma seta), com Tia Surica e Monarco


Como vimos, ele considerava o Boca de Ouro o maior cuiqueiro que já se viu tocar, mas também não era de bobeira não, pois tinha uma maneira muito particular de tocar e afinar o instrumento. Além de desfilar na bateria da Portela, participou também de algumas gravações, como na música abaixo,  Canção da Liberdade, de Antônio Candeia Filho, lançada em 1966 no disco A Vez do Morro do antológico conjunto Mensageiros do Samba da Portela, inclusive já citado aqui anteriormente, na postagem Villa Candeia.



Infelizmente, o Sr. Casemiro já não está mais aqui pra contar suas próprias histórias e passar pra gente um pouco do que ele sabia sobre cuica, mas como bem resumiu sua filha no papo que tivemos: "ele soube aproveitar a vida". Segue um vídeo com imagens do Sr. Casemiro obtidas do filme O Mistério do Samba. Belas imagens!

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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Música 8 - Cozinha

Alô amigos!

Mais uma postagem musical! Dessa vez, a música é Cozinha (Ritmo com Osvaldinho da Cuica e Grupo Vai Vai). Essa gravação é de 1974 e saiu no disco Vamos Sambar - Osvaldinho da Cuíca e Grupo Vai Vai. O início da música é um passeio por improvisações de cada instrumento, mas sempre com a afinadíssima cuíca do Osvaldinho no acopanhamento, até chegar o momento do seu solo. Daí em diante, é melhor não falar mais nada, só escutar. Até a próxima!





quinta-feira, 28 de julho de 2011

Couro de Gato

Seguindo no mesmo texto reproduzido na postagem anterior, Estudo da Cuica, de J. Muniz Jr., desta vez o trecho em recorte é sobre o lendário couro de gato. 

Vale como nota curiosa transcrever uma descrição de Orestes Barbosa sobre a cuica: “Mas veio o samba. E com o samba veio a cuica. E para a cuica o malandro descobriu que o couro mais forte e mais harmonioso é o do gato. Assim, são trágicas as caçadas noturnas, nos arrebaldes e nos subúrbios da Capital. O malandro anda pelos telhados e coradores ladeando laços de arame no enforcamento do simpático animal. Laçado o gato, fazem-lhe dois cortes nas patas dianteiras. Sopram-lhes os cortes com canudos de mamoeiro. E o gato, morto e cheio de vento, fica como uma bola. Então é só dar um talho reto da guela ao fim do ventre, e o couro sai todo. Dentro de oito dias é uma cuica vibrando surda no samba de tão singular emoção. Aquele couro facilmente retirado e posto ao sol, com a cinza do fogão que foi leito amável do animal encantador, continua a nostalgia de bicho trucidado que vem formar na melodia dos que se divertem, líricos como ele, e talvez nostálgicos também, tirando sons da barrica musical, sem pensar na matéria prima emocional, que era aquele companheiro contemplativo, e também cantor nas horas mortas, quando o amor e o luar dos abat-jours fazem as suas conspirações...”. Informa David Nasser* numa reportagem intitulada Vida, Paixão e Morte no Samba, que “a lamurienta cuica é onde todos os gatos do mundo choram as suas dores.”
(*) David NasserA Cigarra-Magazine, (fevereiro de 1944).

Particularmente, fiquei bastante impressionado com essa descrição do Orestes Barbosa na parte em que ele fala sobre os cortes nas patas etc, etc... ainda bem que hoje em dia não precisamos mais fazer isso! E pra aliviar um pouco esse clima tenso, segue abaixo um curta-metragem filmado em 1960/61, com direção de Joaquim Pedro, de conteúdo mais romântico sobre o cruel destino que os felinos tinham antigamente. O título do filme não poderia ser outro: Couro de Gato.
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sábado, 16 de julho de 2011

Estudo da Cuica (por J. Muniz Jr.)

Há algumas semanas tive a imensa honra de conhecer um grande baluarte do samba, o Sr. Djalma Sabiá, fundador da Acadêmicos do Salgueiro e autor de sambas-enredo memoráveis da vermelho e branco. Nascido no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1925, na altura de seus 86 anos, o Sr. Djalma impressiona pela quantidade de lembranças que ainda guarda na memória. Mas o que me deixou mais emocionado durante esse encontro foi perceber o amor e respeito que ele tem pelo samba. Em sua modesta residência, ele preserva um verdadeiro tesouro com fotos e diversos registros sobre o Salgueiro e o samba de maneira geral. As paredes são tomadas por esses documentos, que guardam histórias maravilhosas de se ouvir, contadas por este senhor que viu tudo aquilo acontecer. A generosidade com que fui recebido por Sr. Djalma em seu grande arquivo/residência me deixou numa dívida eterna com ele, que me emprestou um livro intitulado Do batuque à escola de samba, publicado em 1976, cujo autor é *J. Muniz Jr., outro grande sambista, além de jornalista, e que escreveu neste livro um capítulo chamado Estudo da Cuica. O texto é um pouco grande pra colocar em apenas uma postagem, então, separei alguns trechos que virão em postagens futuras. 

Estudo da Cuica

Existe uma afirmativa de que a cuica é de origem oriental, e por ser um instrumento utilizado pelo povo durante as festividades típicas, acabou espalhando-se por toda a Europa. O interessante é que a sua forma sempre foi variada, inclusive o seu nome, pois é chamada ronca em Portugal (...) pouti-pout, em Nápoles (Itália); buha, na Romênia; bukat, na Tchecolslováquia; rum-motopi, na Alemanha, e rommel-pot, na Holanda. Consta que na Romênia, o instrumento servia para animar os festejos natalinos, inclusive na Venezuela, onde é chamado furruco. Também já foi vista na Argélia, Cuba, em Luisiana (Estados Unidos) e na Argentina. No batuque de Angola, a puíta era utilizada como um tambor de fricção, sendo ainda chamada lukombey, no Congo. E com a vinda do elemento africano para o Brasil, foi recebendo várias denominações, conforme a região que ia sendo introduzida. Por exemplo: “tambor-de-onça”, no Maranhão; “roncador”, no Pará; “puíta”, no Ceará; “fungador”, “socador”, “boi” e “porca”, no Nordeste e ainda “puíta” e “cuica”, no Rio de Janeiro e noutras regiões do Centro-Sul. Ladislau Batalha já descreveu a puíta como sendo um tambor indígena, formado por um pedaço de tronco grosso, oco, tendo uma das bases coberta por uma pele de animal, bem ressequida e furada no meio e que “a atravessam por um pequeno atilho também de couro, e atalham-lhe por dentro um pau áspero. Produzem uma espécie de troar monótono e feio, correndo os dedos úmidos pela parte interior que, assim manejado, imprime a pele um movimento vibratório. Sobre esse tipo constroem outros instrumentos que produzem roncos mais ou menos agudos”. (...) Embora os indígenas conhecessem uma espécie de puíta, (...) foi com o africano que o instrumento se projetou, pois estava sempre presente nos batuques das senzalas e nos terreiros das casas grandes, passando depois para os foguedos populares e carnavalescos por todo o território brasileiro. Entretanto, a cuica somente veio a popularizar-se em nosso país a partir de 1915, quando passou a ser adotada pelos cordões carnavalescos e grupamentos, aparecendo, posteriormente, na Praça Onze junto com as “escolas de samba”, em forma de barrica, com a vareta presa por dentro do couro, quando o batuqueiro, que a levava debaixo do braço, acompanhava a cadência do samba com um som bastante rouco. (...) A versatilidade dos brasileiros fez com que o instrumento, que apenas produzia um ronco soturno, chegasse ao ponto de soltar notas agudas e graves, e até de fazer solos de músicas populares e clássicas. (...) foi no Brasil que a cuica se adaptou melhor, adquirindo uma sonoridade bem variada, alcançando uma perfeição que não obteve em nenhum outro país. (...) E por se tratar de um instrumento curioso (até muito melindroso), a cuica mereceu de nossa parte um estudo mais acurado, pois no tempo em que o autor desfilava em escolas de samba, ela teve, também a minha preferência, e embora eu não tenha me tornado nenhum mestre da especialidade, cheguei a conhecê-la muito bem, pois a primeira que tive também era de barrica e inclusive foi montada pelas minhas próprias mãos.
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*J. Muniz Jr. – Jornalista e escritor brasileiro nascido em Penedo, AL, em 1933, e radicado em Santos, SP, desde 1939. Sambista ativo, ex-ritmista, passista, mestre-sala, carnavalesco e dirigente, dedicou-se, a partir de 1957, a promover o intercâmbio entre o samba de sua cidade e o do Rio de Janeiro. Assim, participou de congressos e articulações que levaram à realização, em Santos, de eventos como o Primeiro Simpósio Nacional do Samba (1966) e o Primeiro Festival de Samba (1970). Ex-conselheiro da antiga União das Escolas de Samba do Estado de São Paulo, publicou, assinando-se J. Muniz Jr., vários livros sobre o universo dos sambistas, entre os quais Do batuque à escola de samba e Sambistas imortais, ambos de 1976. Fonte: Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (Nei Lopes)
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quarta-feira, 29 de junho de 2011

O gambito



Vareta, bambu, cambito, palheta, pauzinho... são alguns nomes dados à famosa "haste de madeira presa no centro da membrana de couro, pela parte interna da cuica", mais conhecida também como gambito - pelo menos esse é o nome que a maioria dos cuiqueiros que eu conheço costumam usar. O gambito, assim como a pele, é um elemento importantíssimo da cuica e todo cuiqueiro deve conhecê-lo bem para obter um bom som do instrumento. Sem contar que para nossa imensa frustração, devido a sua fragilidade, volta e meia o gambito quebra e é aí que geralmente percebemos ou nos lembramos do quanto somos dependentes deste ítem.

Falando de uma maneira bem simples, o formato do gambito é o mesmo de um prego, ou seja, ele tem uma "cabeça" em uma das extremidades, que serve para auxiliar sua amarração na pele. O tamanho pode variar na medida de um palito de fósforo à de um palito de churrasquinho, tanto no comprimento, quanto na espessura.

O gambito é feito de bambu - parece que já tentaram usar outros materiais, mas não deu muito certo - e existem duas maneiras de fabricá-lo. Uma delas é pegar uma lasca de bambu e lixar até ela ficar na espessura desejada, esculpindo a cabeça em uma das pontas. Esse é o gambito inteiriço, um verdadeiro trabalho de entalhe na madeira. A outra, é colher um broto de bambu ainda em crescimento e cortá-lo no tamanho desejado, aproveitando o seu nó natural como cabeça.

Nessa foto, vemos três gambitos inteiriços em estágios diferentes de fabricação.


 

Nessa outra, estão dois brotos de bambu. O maior, ainda para ser preparado e o menor, pronto para ser utilizado.


Abaixo, vemos diferentes tipos de cabeças. Reparem as diferenças entre elas (da esquerda para direita): 1) forma triangular; 2) esculpida em diferentes níveis; 3) broto de bambu lixado; 4) forma circular fina; 5) forma circular grossa e estreita; 6) cabeça colada; 7) forma arredondada. No centro, há um broto de bambu com o nó ainda em estado natural.  


O importante na cabeça de um gambito é que ele tenha uma regularidade em sua circunferência em relação à haste, pois assim, irá garantir uma melhor fixação do nó que amarra o gambito na pele.

Uma dica: antes de tocar, é bom sempre passar uma lixa d'água ou um pedaço de bombril no gambito pra limpar e tirar qualquer imperfeição da madeira.  

Por experiência própria, confesso que não sei dizer a diferença na prática entre o gambito inteiriço e o broto de bambu. Já toquei com esses dois tipos de gambito e dou preferência ao inteiriço porque tenho a impressão de que é mais resistente do que o broto. Quem souber algo mais sobre a diferença entre um e outro ou mais informações à respeito deste assunto, por favor, deixe um comentário nessa postagem. É isso pessoal... até!

sábado, 18 de junho de 2011

Por que não "cuiquinista"?

Imagino que a maioria dos visitantes deste blog não lêem os comentários que o pessoal faz em algumas postagens. Eu mesmo não tenho esse costume quando acesso outros blogs, mas tenho a obrigação de ler todos os comentários feitos aqui e na semana passada o amigo Islan Scape me fez uma pergunta que acredito ser do interesse de todos. Não soube muito bem o que dizer sobre essa questão, mas achei um bom tema pra gente debater. Alguém sabe a resposta?


terça-feira, 14 de junho de 2011

Vídeo 8 - Jam da Silva et la cuíca

A postagem de hoje dá continuidade à análise sobre a evolução sonora da cuíca apresentada na postagem anterior. Vimos que mudanças na técnica de execução e no modo de fabricação influenciaram diretamente o processo de transformação que a sonoridade da cuíca sofreu entre as décadas de 1930 e 1950. Mas outros fatores também contribuíram nesse mesmo sentido, como a concepção crescente do uso da cuíca como um instrumento solista, além do avanço nos aparatos tecnológicos que permitem a captação e processamento dos sons do instrumento em shows e estúdios de gravação. O vídeo abaixo, do percussionista Jam da Silva, é uma prova do quanto a tecnologia agregada à cuíca proporciona alternativas ao processo criativo e, de alguma forma, também traz efeitos ao aspecto sonoro em nível prático e conceitual.


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sexta-feira, 10 de junho de 2011

A evolução sonora da cuíca

Assim como os demais instrumentos típicos do samba, a cuíca sofreu muitas modificações desde as suas primeiras inserções em discos e agremiações carnavalescas. Este processo envolveu transformações em todos os seus aspectos, impactando diretamente sua sonoridade, que mudou radicalmente num curto espaço de tempo. Duas questões principais explicam a razão de tal mudança: a primeira diz respeito à técnica de execução e a segunda à fabricação do instrumento. 

Com relação à técnica de execução, no vídeo abaixo vemos um cuiqueiro tocando de uma forma muito comum no passado, que consistia no uso exclusivo de uma das mãos para friccionar o gambito, sem pressionar a pele por fora com a outra mão. Logo, os sons obtidos ressoavam invariavelmente numa região de frequências mais baixa do que seu padrão sonoro atual.  


A sonoridade da cuíca também se modificou em função de inovações no seu processo de fabricação. Os primeiros modelos do instrumento tinham o corpo de madeira, o que imprimia ao timbre uma textura bem menos brilhante do que temos hoje com diferentes tipos de metal. O método de empachamento também era bastante diferente do atual, principalmente em relação à maneira de fixar o gambito no couro, que se dava de modo a não permitir que a pele vibrasse com muita intensidade. Além disso, as primeiras cuícas não possuíam as tarraxas que hoje nos permitem afinar o instrumento. A pele era presa com tachinhas e o método de afinação se dava ao redor de uma fogueira. O calor emitido pelo fogo esticava o couro, mas logo a cuíca voltava a ficar frouxa. Com a adaptação das tarraxas, ficou possível esticar o couro com mais rigidez, bem como manter o instrumento afinado por mais tempo. 

Tudo isso contribui para o desenvolvimento da sonoridade que extraímos da cuíca atualmente. A título de ilustração, seguem abaixo três registros que exemplificam o desenrolar deste processo entre as décadas de 1930 e 1950. 

O primeiro exemplo, A Cuíca tá Roncando, é uma composição de Raul Torres gravada pelo próprio autor, em 1934, e destaca a sonoridade grave que o instrumento tinha naquela época, parecendo de fato com um "ronco".


O segundo exemplo, Iaiá, Ioiô e a Cuíca, originalmente lançado em 1940, é uma composição de Fausto Vasconcelos e Felisberto Martins interpretada de Nena Robledo e J. B. de Carvalho. Percebe-se aí que o cuiqueiro pressiona a pele da cuíca por fora para produzir sons médio-agudos, conforme fazemos atualmente.



Por fim, outra versão de A Cuica tá Roncando, mas dessa vez interpretada pelo multi-instrumentista Mário Gennari Filho, em gravação de 1952. Neste caso, percebe-se que a sonoridade do instrumento já está bem próxima de como o escutamos hoje em dia. Isto nos permite concluir que sua sonoridade tenha atingido, já na década de 1950, o caráter estético que ainda se mantém como padrão nos dias atuais.

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terça-feira, 31 de maio de 2011

Villa Candeia


A fotografia acima registra um quadro com a imagem da capa do disco Axé!, de Antônio Candeia Filho, inquestionavelmente um dos maiores sambistas que esse mundo já viu; e pendurada no canto do quadro está a caricatura de Heitor Villa Lobos, um dos maiores compositores de música de concerto de todos os tempos.

Já faz um tempo que penso em escrever uma postagem reunindo esses dois gênios e fui praticamente obrigado a finalmente escrevê-la ao me deparar com a cena dessa fotografia, há poucos dias, num bar chamado Semente, pequenininho, mas de uma importância sem tamanho para o atual cenário musical do Rio de Janeiro.

Mas essa história é só pretexto para introduzir a verdadeira razão dessa postagem, que é reunir aqui outras duas imagens incríveis destes mesmo personagens (pasmem!) tocando cuíca. O detalhe é que nenhum dos dois era cuiqueiro de fato. O Candeia, como sua própria filha Selma me contou, mal sabia tocar violão; cuíca mesmo, ela nunca viu o pai tocar. Já o Villa Lobos, pelo que nos consta, tocava violoncelo e violão; cuíca também não era a praia dele não.

Capa do LP "A Vez do Morro"
Acima, vemos a imagem da capa do disco A vez do Morro, do conjunto Mensageiros do Samba da Portela. Da esquerda para a direita, estão: Arlindo, no cavaquinho (pai do famoso Arlindo Cruz); Casquinha, no afoxé; Candeia, na cuíca; Picolino, no tamborim; e Jorge do Violão, no próprio violão. Na realidade, o Candeia está apenas fazendo pose com a cuíca para a foto, pois quem realmente gravou a cuíca neste disco foi Casemiro Vieira, eterno integrante da Velha Guarda da Portela, falecido há cerca de dois anos.

Já a foto do Villa Lobos me foi enviada por um grande amigo e professor, Tuninho, vulgo Antônio Miranda, a quem devo minha iniciação no mundo cuiquístico. Não sei onde ele encontrou essa foto maravilhosa do Villa brincando com uma cuíca, que de fato mais parece um brinquedo do que uma cuíca propriamente dita. Trata-se de um registro que demonstra aquilo que nunca foi segredo na personalidade deste genial compositor, sempre atento em aproximar a cultura erudita e a cultura popular, o que aliás é marcante em sua obra.

Heitor Villa Lobos
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Já que estamos falando de "cuiqueiros" inusitados, aproveito o ensejo para dizer que fui informado pelo amigo Barão do Pandeiro, que o cuiqueiro na cena do filme Alô, Alô Carnaval, citado da postagem Vídeo 7 - Molha o Pano, é Alcebíades Barcellos, imortalizado como Bide, autor de sambas antológicos ao lado de Armando Marçal, pai do nosso venerado cuiqueiro Mestre Marçal. Assim como Candeia e Villa Lobos, não constam muitos registros que comprovem a atuação de Bide como cuiqueiro, mas pelas cenas do filme, ele parece ter sim alguma intimidade com a chorona. Completando a bem-vinda informação do amigo Barão, aparecem também naquela cena: Benedito Lacerda, na flauta; Canhoto, no cavaquinho; Ney Orestes e Carlos Lentine nos violões; e Russo do Pandeiro. 
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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Música 7 - Cuica e Viola

Este samba, Cuica e Viola, foi gravado em 1974 pela Elizeth Cardoso, no maravilhoso disco Feito em Casa. Os autores são Romildo e Toninho, hoje em dia conhecido como Toninho Nascimento.


Todo o repertório desse álbum é excelente! As interpretações da Elizeth são "divinas" e o acompanhamento dos músicos, nem se fale! Tenho esse LP, mas está sem o encarte e não pude verificar a ficha técnica para saber quem são os músicos. Mas afirmo com 99,9% de certeza de que a cuica foi gravada pelo Mestre Marçal. Suas frases são inconfundíveis, cheias de sentimento, sutileza e muita malandragem...


Cuica e Viola (Romildo e Toninho)  



Cuica e Viola
(Romildo e Toninho)

Troquei minha viola por uma cuica
Eu troquei
Vamos ver como é que fica
Eu não sei

Viola tem corda, mas não repinica
Viola se afina, cuica se estica
Em roda de samba viola é quem chama
Cuica reclama quem forma o cordão
Diz um verso e vai embora
Quem fica de fora é quem puxa o refrão

Refrão

O meu sapato é o piso do meu bairro
Ando firme e só deslizo quando é ponta de cigarro
A minha casa não tem porta é só telhado
É por lá que o vento entorta, entra e sai por todo lado
O meu pandeiro dá canseira em quem maneja
Ele é feito de madeira e com tampa de cerveja

Refrão

Foste o primeiro embaraço em meu caminho
E passei um bom pedaço com meu peito em desalinho
Sou da Portela, sou de fato partideiro
Teu olhar é meu retrato, teu sorriso é meu dinheiro
Eu nunca fico preso em remandiola
Nem aceito o teu desprezo por cuica ou por viola


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Curtume São Sebastião

Encontrei ontém nuns guardados aqui em casa uma matéria do Jornal do Brasil falando sobre o Curtume São Sebastião. Foi escrita pelo jornalista Múrcio Bezerra e publicada no dia 1º de fevereiro de 2004. Resumi o texto nas partes mais interessantes. Vejam que bacana!

Jornal do Brasil (01/fev/2004)
Um curtume do barulho entra no maior cartaz nessa época do ano, quan- do se transforma no prin- cipal pronto-socorro de cuicas furadas, tamborins estropiados, repiques que- brados e bumbos velhos de guerra. É no curtume São Sebastião, na Rua Doutor Alberto Torres, 2003, em Porto Velho, São Gonçalo, que desde 1930 funciona uma ofici- na de consertos de ins- trumentos de percussão conhecida por dez entre cada dez mestres de bateria das escolas de samba do Rio. (...) Aqui só uso os couros de cabra, bode e cabrito que vêm do Nordeste - diz Nílton Rocha Lopes, viúvo, 71 anos, dono do curtume herdado de seu pai. (...) Nílton também vende couros curtidos e já cortados no tamanho adequado a cada instrumento. Devoto de São Sebastião - há uma imagem do santo, sempre iluminada com luz vermelha dentro do curtume - ele reza para que o tempo fique ensolarado até o carnaval. Precisamos do sol para secar os couros. Sem sol, tenho medo de não dar conta dos pedidos - diz ele, que não está aceitando mais encomendas para este carnaval. Antes de ficar um dia sob o sol, os couros passam dois dias mergulhados numa solução de ácido sulfúrico e alume de potássio. De lá, passam para um tanque com cloro. Em seguida, um funcionário raspa os pelos do couro. As peles, então, são esticadas, pregadas em tábuas e postas para secar. A última fase é a do corte. Um couro de cabra, bode ou cabrito só dá pra fazer um bumbo. (...) Nílton só assiste aos desfiles das escolas de samba pela televisão, em Araruama, para onde vai descansar uns dois dias antes de voltar a preparar os couros para o desfile das campeãs. E diz que o serviço nessa época do ano é duro, mas compensa, porque é preciso acumular dinheiro para enfrentar a fase das vacas magras - ou, no caso, das cabras.

Fotos do Curtume São Sebastião:

 Oficina

Peles de cabra antes do curtimento

Peles já curtidas sendo preparadas para secar ao sol

Peles já curtidas secando ao sol

Peles curtidas secas prontas para o corte

Peles já cortadas prontas para o uso

domingo, 8 de maio de 2011

Cuiqueiros 2 - Alfredo Bessa



Alfredo Bessa nasceu no Rio de Janeiro, em 1933. É um percussionista completo, mas tocando cuica, dava um "molho" todo especial acompanhando um dos maiores compositores da música brasileira, Baden Powell, com quem viveu os principais momentos de sua carreira. Além de tocar com Baden, Alfredo trabalhou também com muitos outros nomes importantes da MPB, dentre eles: Martinho da Vila, Elis Regina, Lamartine Babo, Clara Nunes, Tom Jobim, Chico Buarque de Holanda, Vinícius de Moraes e Paulo César Pinheiro, com quem compôs Ponto do Caboclo Desengano, numa tríplice autoria com João de Aquino. Com esses artistas, teve a oportunidade de fazer inúmeras gravações e se apresentar em diversos  países como Japão, Holanda, Cuba, Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Espanha, tornando-se um cidadão do mundo. Atualmente vive em Oslo, capital da Noruega, onde desenvolve um trabalho de terapia musical com o governo local, mas morou também em outros países, como o Marrocos, onde participou de diversos eventos musicais e deu aulas de música no conservatório de Rabat. Alfredo Bessa é, portanto, um grande representante da música brasileira no exterior, tendo sempre a cuica entre as suas ferramentas de trabalho e tocando com muita alegria, como vemos nos registros abaixo.  

Nesse primeiro vídeo, reparem que ele toca com uma cuica de cinco tarrachas e com porcas-borboleta na extremidade do aro superior, próximas à pele. Muito diferente das cuicas que costumamos ver atualmente, com porcas de chave na base do aro inferior.


Nesse outro vídeo - bem mais recente - Alfredo tira o maior som com uma cuica pequenininha, de apenas seis polegadas, e canta uma sequencia de músicas brasileiras num bar chamado Café Brasil, em Oslo - Noruega.

sábado, 30 de abril de 2011

Blog do Cuica Play


Conheci o Blog do Cuica Play a um tempinho e procuro sempre acompanhar as postagens mais recentes. No dia 31 de março o Luciano - responsável pelo blog - publicou uma postagem sobre o Theo da Cuica e isso me instigou a procurar mais postagens sobre outros cuiqueiros no arquivo do blog. É que o Blog do Cuica Play, apesar do nome, não fala apenas sobre cuica, mas sim sobre percussão de uma maneira geral. As postagens são ricas em fotos, vídeos, músicas e textos, sempre enaltecendo valores da música brasileira e internacional, que dificilmente receberiam a atenção na grande mídia como neste trabalho realizado pelo Luciano. Além da ótima postagem sobre o Theo, encontrei também uma sobre o sr. Zeca da Cuica, outra sobre um jovem sambista de São Paulo chamado Tito Amorim e uma sobre o grande Ovídio Brito. Bom, mas pra começar, acho legal que todos vejam a postagem sobre o próprio Luciano Cuica Play e conheçam um pouco mais sobre este camarada que faz esse belo trabalho em nome da percussão e de todos os percussionistas. Seguem as postagens:


Dêem uma olhada também em tudo do blog porque tem muita coisa legal! Por exemplo, a postagem sobre o maestro Luciano Perrone, já citado aqui algumas vezes. Tem outra muito bacana também sobre o Don Chacal, que para minha surpresa, aparece tocando cuica numa foto. Sabia que ele era um grande percussionista, mas que também tocava cuica, não. Infelizmente o Don Chacal faleceu a pouco tempo e merece muitas homenagens como essa do Cuica Play.

É isso pessoal, tá aí a dica. Aproveitem!