Bem vindo ao blog Cuiqueiros, um espaço exclusivamente dedicado à cuica – instrumento musical pertencente à família dos tambores de fricção – e aos seus instrumentistas, os cuiqueiros. Sua criação e manutenção são fruto da curiosidade pessoal do músico e pesquisador Paulinho Bicolor a respeito do universo “cuiquístico” em seus mais variados aspectos. A proposta é debater sobre temas de contexto histórico, técnico e musical, e também sobre as peculiaridades deste instrumento tão característico da música brasileira e do samba, em especial. Basicamente através de textos, vídeos e músicas, pretende-se contribuir para que a cuica seja cada vez mais conhecida e admirada em todo o mundo, revelando sua graça, magia, beleza e mistério.
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Não há dúvidas de que o Rio de Janeiro e São Paulo são as cidades que concentram o maior número de cuiqueiros e cuiqueiras do Brasil. Afinal, são os locais onde se realizam os desfiles das escolas de samba mais tradicionais do país. No entanto, à exemplo da Confraria da Cuíca de Porto Alegre e do Clube da Cuíca de Floripa, que demarcam a forte presença da chorona na região Sul, temos no Clube da Cuíca do Ceará um importante núcleo cuiquístico dentro do rico cenário cultural nordestino.
A prova disso está na matéria Carícias e gemidos - reproduzida mais abaixo - publicada em 18 de janeiro de 2012 no caderno Vida & Arte do jornal O Povo. Outro exemplo está no vídeo a seguir, que registra o 1º Encontro de Cuíca do Estado do Ceará, realizado em 09 de abril de 2011. O evento contou com a ilustre presença de Arsênio de Castro, cuiqueiro consagrado da Portela, e de um bom contingente de cuiqueiros e cuiqueiras liderados por Júnior da Cuíca, patrimônio vivo do carnaval de Fortaleza.
Carícias e gemidos O POVO on-line (18/01/2012) - por Pedro Rocha
Instrumento impar na música brasileira, a cuíca viu multiplicar seus amantes nos últimos dois anos em Fortaleza. Ganhou até clube.
"Ó essa cuíca!", grita vez por outra Mônica Andrade, 46, lá de dentro. "Ai meus ouvidos!". A decoradora arrelia-se com o gemido agudo que vem do quintal. O marido, Geraldo Rodrigues Filho, o Júnior da Cuíca, todos os dias pega o instrumento e põe-se a viçar na vareta de bambu ali por dentro do corpo metálico. A danada se contorce toda em gaiatices com os agrados dele. "De vez em quando eu dou uns carão", conta Mônica. Ela reclama, mas acha bom. Quando o conheceu, ele já rodava por tudo que era samba da cidade. Não mudou nada de lá pra cá - pelo contrário, o coro aumentou.
No quintal do casal, na rua João Cordeiro, 556, há dois anos reuni-se o auspicioso Clube da Cuíca, criado pelo clamor dos homens e mulheres amantes do instrumento e organizado pelo próprio Júnior. O lugar colorido, decorado com espelhos e outros caprichos da dona da casa, é velho conhecido do samba. Ali nasceu há 29 anos o bloco carnavalesco Que Merda é Essa?, que desfilará mais uma vez no sábado, a partir das 20 horas, dedicado aos frevos, marchinhas e sambas das antigas.
"Aqui tem até piscina. Clube não tem que ter piscina, né?", brinca Júnior.
Às terça e quintas, e nas tardes de sábado, os sócios se encontram no dito endereço para conversar, tomar uma cervejinha e tocar cuíca, evidentemente. Hoje já são 46 inscritos no Cadastro de Cuiqueiros do Ceará, a grande maioria espalhados pelas alas dedicadas exclusivamente ao instrumento em blocos de Pré-Carnaval. Na bateria do Baqueta, por exemplo, desfilaram no último sábado 18 cuícas, incluindo a do Júnior. A ala da Unidos da Cachorra saiu com meia dúzia, entre elas, a de outro membro do clube, o historiador Renato Freire, 26.
Caçula do grupo, Renato chega ao quintal com o instrumento a tira-colo, que comprou há dois anos no Rio de Janeiro, quando ainda não sabia o que fazer com o pau e o couro. Não obstante as aulas de piano e violão da adolescência, a percussão demorou um pouco mais para entrar na sua vida, o que aconteceu depois de assistir a um cortejo da Cachorra. O caminho da caixa de guerra para a cuíca fez em um ano. Hoje é um dos instrutores da ala do instrumento na bateria.
"Eu já achava a cuíca impressionante", confessa Renato.
Novos artistas - A sabedoria popular comenta que a cuíca tem a mania de conquistar o sambista - ou a sambista, já que o número de cuiqueiras, dizem, cresceu absurdamente no último par de anos - aos poucos, de forma lenta e irrevogável. O sujeito começa pelo pandeiro ou tamborim, ensaia uns chamegos com o surdo, o rebolo, quiçá o repique de mão (existem relatos de homens perdidamente apaixonados por um reco-reco), mas por fim descansa nos braços da sua querida. A relação normalmente influi, para o bem ou para o mal, nas relações conjugais.
Renato é um caso à parte. O jovem afirma sem titubear: "Não tenho problema com mulher". Já Pasconith Franklin, 37, não pode dizer o mesmo, apesar de o fazer sorrindo. O percussionista, que começou menino batucando em um tamborim, faz dois carnavais que inventou de aprender a tocar cuíca e convocou os ciúmes da esposa. "A mulher tem raiva, porque acha que eu gosto mais da cuíca do que dela", conta. O caso promete repercussão: o filho Davi, de apenas 6 anos, ganhou uma mini-cuíca e não quer saber de outra coisa na vida.
"É uma onda, porque minha mulher é evangélica e tenta evitar", revela Pasconith, achando graça. "Eu também tento, vou pra igreja, mas quando chega esse período carnavalesco complica". Não bastasse, a esposa quer levá-lo para um retiro espiritual este ano, o que deve dividir o Carnaval do dono de oficina mecânica ao meio - a cisão milenar entre o sagrado e o profano. "É osso", conclui.
O exemplo vem de casa - Na conversa sobre o Clube da Cuíca, Mônica se derrete em elogios ao marido e o inclui entre os três melhores cuiqueiros do Brasil, ao lado do paulista Osvaldinho da Cuíca e de Arsênio da Cuíca, este último mestre da ala de cuícas da Portela, que em abril do ano passado participou do 1º Encontro do Clube da Cuíca de Fortaleza. A esposa ressalta também os dotes do marido no manejo com o instrumento.
- O Júnior faz a manutenção dessas cuícas todinhas. Ele pega o couro, bota o couro no caldo, tira os pelos, bota o cambito... Muito difícil de botar esse pau ai no meio, eu quero é que você veja. Pra acertar esse meio... Eu já vi muita coisa feia, pau bem aqui de lado. Ele bota bem direitinho - explica Mônica.
- Olha ai, o negócio é esculhambado... - ri Júnior.
- Ele bota beeeem direitinho!
Quem quiser, pois, consertar o seu instrumento ou aprender a tocá-lo, pode procurar o Júnior para se associar ao Clube da Cuíca. Durante o Carnaval, os encontros sofrem as intermitências naturais do período, mas, a partir de março, quem passar às terça, quintas e sábados pela rua João Cordeiro, 556, poderá ouvir os gemidos de satisfação.
SERVIÇO
Clube da Cuíca
Onde: Rua João Cordeiro, 556 - Praia de Iracema
Quando: O clube se encontra às terças, quintas e sábados.
Outras informações: (85) 3219 6945 / (85) 8870 8706.
Mais um ano que se encerra, mais um ano que aí vem. Divido com vocês uma breve retrospectiva das postagens que mais se destacaram em 2011. Até a próxima!
Essa postagem, sobre o lendário cuiqueiro Boca de Ouro, inaugurou a série de postagens sobre cuiqueiros celebres da história, seguida de outras duas que também valem ser lembradas aqui: uma sobre o Alfredo Bessa e a outra sobre o Casemiro da Portela.
Alguns acréscimos e correções importantes foram feitos nessa postagem sobre coisas publicadas anteriormente a ela. Dentre as correções, uma se refere justamente à postagem citada acima, e ainda é seguida de um vídeo incrível com cenas do Boca de Ouro tocando sua cuica.
Essa foi uma das postagens que mais gostei de fazer aqui no blog. Acho que a cuica é um instrumento capaz de se adequar a qualquer gênero ou estilo musical, e nessa postagem podemos constatar a presença dela no universo do jazz. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, sugiro que revejam também a postagem A cuica na música erudita.
Aqui nós temos um dos registros cuiquísticos mais preciosos já feitos até hoje. Trata-se de uma conversa musical entre dois dos principais cuiqueiros da história, Ministrinho e Mestre Marçal. Suas cuicas dialogam, riem, brincam, cada uma com seu sotaque, sua malandragem, seu balanço. Ouçam com atenção o que elas estão dizendo.
O que seriam dos cuiqueiros sem as passistas e das passistas sem os cuiqueiros? Não é difícil responder essa questão, pois certamente o som das cuicas não seria tão alegre sem o rebolado das passistas, e sem elas os cuiqueiros não se inspirariam tanto para tocar suas cuicas com tanta alegria.
Nessa postagem, podemos verificar o quanto a sonoridade da cuica foi se modificando no decorrer do tempo. Sugiro que vejam também uma outra postagem que enriquece esse estudo sobre a evolução sonora da cuica (Vídeo 8 - Jam da Silva et la cuica). Esse post trás um vídeo onde o músico Jam da Silva nos mostra o quanto a cuica se encaixa bem com o uso de novas tecnologias. Particularmente, acho que a cuica é um instrumento com uma natureza altamente tecnológica, quer dizer, que ela já possui em si uma tecnologia própria, e muito complexa. A pele, o gambito, a estrutura metálica, a relação entre esses elementos, o processo de afinação, enfim, são muitas coisas que exigem um estudo quase que científico por parte dos cuiqueiros, que o fazem, na maioria das vezes, sem se darem conta do quanto a cuica é um instrumento cheio de questões interessantes para refletir.
Os comentários feitos por alguns leitores contribuíram muito para encontrarmos a resposta da questão suscitada no título dessa postagem. Mas quem tiver alguma outra opinião a esse respeito, por favor, pronuncie-se também. Comentários são sempre muito bem vindos, aliás, em todas as postagens!
E por falar em comentário, essa é a postagem com o maior número de comentários dentre todas as postagens deste blog. Inclusive, o último comentário que está lá foi feito pelo amigo Wadinho Xavier, onde ele diz o seguinte: "Não sei colocar o gambito da minha cuica. O que faço?"Alguém se candidata a ajudá-lo?
Considero essa postagem como uma das mais especiais que já publiquei aqui no blog, mas também dentre as que ainda serão feitas futuramente, tamanha a importância de seu conteúdo. Nela, cito dois nomes muito importantes, mas que infelizmente pouca gente conhece. Falo do Djalma Sabiá e do J. Muniz Jr., dois verdadeiros "arquivos vivos" da história do samba, tanto pelas memórias que eles guardam em suas lembranças, quanto pelos documentos, fotografias e diversos registros que mantém preservados em suas casas. Tive o imenso privilégio de conhecê-los graças ao Sr. Zeca da Cuica, que foi quem me orientou a procurar o Djalma Sabiá, e o Osvaldinho da Cuica, grande amigo do J. Muniz Jr., de quem eu primeiro ouvi falar neste nome. Portanto, agradeço ao Sr. Zeca e ao Osvaldinho, que além de me passarem diversas informações sobre cuica já publicadas aqui no blog, ainda me apresentaram essas duas pessoas tão importantes. Muitas questões cuiquísticas que abordarei no ano que vem, pesquisei e aprendi nos encontros que tive com o Sabiá e com o J. Muniz. Vem muita coisa boa pela frente! Então, até lá meus amigos. Felicidades a todos!
A maioria das pessoas que costumam acessar esse blog já devem ter assistido no YouTube as cenas em que o Fritz Escovão faz um solo de cuica durante a apresentação do Trio Mocotó num programa de televisão. Acontece que existe uma razão muito especial para postá-lo aqui hoje, pois é aniversário do Fritz, e assim, poderemos todos comemorar e desejá-lo muita saúde e felicidade, como a que ele parecia sentir nessas imagens. Aliás, a pessoa que postou esse vídeo no YouTube foi muito feliz na escolha do título, porque realmente "Isso que é solo de cuíca!". Segue uma edição com o trecho do solo:
A principal característica no estilo cuiquístico do Fritz é o virtuosismo, sendo por essa razão, e também pelo cabelo black-power, chamado de "o Jimi Hendrix da cuica". Apesar de ter iniciado sua carreira artística no universo das escolas de samba do Rio de Janeiro, foi em São Paulo, para onde se mudou no fim dos anos 1960, que o Fritz começou a tocar cuica e como ele mesmo me revelou, não se lembra como exatamente isso aconteceu. Só lembra que foi tocando cuica pra lá e pra cá, gravando com um e com outro, até se firmar como integrante do Trio Mocotó, tocando cuica, cantando e compondo músicas para o conjunto, que se notabilizou ao lado de Jorge Ben Jor pelo balanço do samba-rock. E pelo fato do samba-rock exigir uma puxada de cuica diferente do samba "convencional", aos poucos ele foi encontrando o toque mais adequado ao gênero e se tornando esse cuiqueiro incrível.
Mas além da maneira virtuosística de tocar, outra qualidade bastante representativa do Fritz Escovão é a capacidade dele solar músicas na cuica. O vídeo acima nos mostra isso em alguns trechos, mas aproveito para postar novamente o áudio de duas músicas gravadas pelo Fritz com o Trio Mocotó, que nos dão a dimensão do talento desse grande cuiqueiro. A primeira é uma versão do clássico Rain Drops Keep Falling on My Head, gravada em 1973 com o título Gotas de Chuva na Minha Cuica. O arranjo dessa versão foi escrito pelo sensacional maestro Rogério Duprat e segundo o próprio Fritz, "essa foi a primeira vez em que uma cuica cantou em inglês".
Gotas de Chuva na Minha Cuica
A próxima música é uma das várias obras-primas compostas por Tom Jobim, Águas de Março, um clássico da Bossa Nova, onde o Trio Mocotó imprimiu o ritmo do samba-rock, com o Fritz Escovão em mais um sensacional solo de cuica. Essa gravação é de 2001.
Águas de Março
Parabéns Fritz! Obrigado por tudo! Muitos anos vida, saúde e felicidade! .
Costumo receber frequentemente e-mails e telefonemas de pessoas perguntado sobre aula de cuica e na maioria das vezes elas vivem em cidades onde não conheço nenhum professor para indicá-las. Portanto, convoco todos os professores de cuica no Brasil e no exterior para enviarem um e-mail - cuiqueiros@sarava.art.br - ou deixarem um comentário nesta postagem com os dados (nome - país - cidade - telefone - e-mail), pois irei criar uma lista permanente na lateral do blog com esses contatos. A ideia é armazenar o máximo de contatos possíveis e não importa se tiverem muitos professores numa mesma cidade. Isso pode ser bom, inclusive, pois dessa forma os interessados em ter aulas poderão escolher o seu professor de acordo com a proximidade do bairro onde vivem, o valor cobrado pela aula, o método de ensino, etc. Quem não for professor de cuica, mas conhece alguém que dê aulas, peço que comunique a esta pessoa para que ela também envie seus dados. E aqueles que desejam começar a dar aulas, aproventem a oportunidade! Como disse a poetisa Cora Coralina, "feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina".
A associação entre cuica e África é impossível de não ser feita. Dentre as diversas versões que explicam a origem da cuica, há quem diga que se trata de um instrumento originalmente africano, trazido para o Brasil pelos negros aqui escravizados. Hoje se celebra o dia da consciência negra, 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, e essa postagem é uma forma de homenagear o maravilhoso legado cultural deixado no Brasil pelos povos africanos.
Encontrei alguns registros que mostram o uso de instrumentos similares à nossa cuica em países da África, como essas fotografias e o vídeo mais baixo. As fotos foram tiradas no Congo, segundo o blog onde as encontrei. Já o vídeo, não pude identificar de onde é, mas o que realmente interessa nele não são as imagens, e sim a música, que é incrível! Várias "cuicas" soando juntas.
Uma história interessante sobre a suposta origem africana da cuica foi contada pelo amigo Dr. Kuika, num comentário que ele deixou aqui no blog. Segue um trecho do que ele disse:
"(...) alguns anos atrás me deliciei com esta história e acredito que seja verdade. Em uma cidade chamada Djibouti havia uma tribo de negros denominada Somalis e outra Afar. Eles realizavam um culto onde existia um instrumento chamado kuitá, nos mesmo moldes de nossa cuica. Era o assentamento de um orixá denominado Barä (Exú), e esse instrumento era feito de uma árvore oca chamada catombé, onde era colocada a pele do animal sacrificado no ritual e colocadas duas hastes de madeira em seu interior. Com a chegada do homem branco e o inicio da escravidão, alguns somalis e afar vieram para o interior de Minas Gerais. Para se manter o culto e ritual, como não existe catombé no Brasil, eles passaram a usar os barris de rum e/ou azeitona para fazer o Kuitá, que hoje nós chamamos de cuica."
Esse novo post segue a mesma ideia que já foi apresentada na postagem A cuica no jazz, só que dessa vez veremos exemplos da presença da cuica na música erudita.
Numa análise mais superficial à respeito desse tema, certamente há quem pense que isso não é possível. Como assim, cuica na música erudita? De fato, todos nós sabemos que a cuica é um instrumento musical típico do carnaval, que tem em sua sonoridade o simbolismo da alegria, da sensualidade, da festa, da malandragem, enfim, características muito distantes do ambiente austero e disciplinado da música clássica, como também é chamada a música que é "fruto da erudição e não das práticas folclóricas e populares". Além disso, o cuiqueiro geralmente não é o tipo de músico que estuda horas e horas o seu instrumento, como fazem os concertistas. Então, levando essas premissas em consideração, podemos concluir que a cuica realmente não tem vez dentro de uma orquestra, correto? Não!
Indio da Cuica - OSRJ
A OSRJ - Orquestra de Solistas do Rio de Janeiro - tem como um de seus integrantes o grande Indio da Cuica, esse aí da foto acima. Indicado ao maestro Rafael de Barros de Castro pelo saudoso Ovídio Brito, o Indio tem um papel fundamental nessa orquestra, onde ele toca pandeiro, reco-reco, tamborim, mas é com a cuica que ele faz toda a diferença, como se pode ver nesse vídeo:
Essa apresentação faz parte de uma série de espetáculos da OSRJ dedicada à música popular brasileira e fica claro que a proposta dessa orquestra não é seguir à risca a formalidade característica da música erudita. No caso desse vídeo, o espetáculo era em homenagem ao compositor Noel Rosa. Já a foto mais acima é de um concerto em homenagem à Nelson Cavaquinho, que hoje estaria completando cem anos! Inclusive, a OSRJ fará uma apresentação no próximo dia 08, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, às 19h, com entrada franca,em homenagem ao centenário do compositor.
O próximo caso é um exemplo que deixa a relação entre cuica e música erudita um pouco mais estreita. Trata-se de uma apresentação na abertura do programa do Jô Soares, que aconteceu a pouco mais de um mês. No piano, está o conceituado maestro João Carlos Martins, nas cordas, o Quarteto Bachiana e junto a eles, um cuiqueiro chamado Bocão, obviamente, na cuica. Eles tocam a peça Ária na Corda Sol, do compositor alemão Johann Sebastian Bach.
Para finalizar, o vídeo abaixo mostra uma orquestra executando a obra Ionisation, composta em 1931, por Edgar Verése, compositor francês naturalizado estadunidense. Essa música foi escrita apenas para instrumentos de percussão, como bumbo, tímpano, tarol, pratos, blocos de madeira, bem como instrumentos percussivos de altura definida, como o piano e os sinos. Algumas pessoas podem estranhar ou até mesmo pensar que não se trata de uma música. É que na realidade, Verése a compôs com a intenção de reproduzir os sons da vida urbana moderna, tanto é que ele utilizou até sirenes na sua criação. Mas o que nos interessa é que ele dedicou algumas poucas notas da partitura para um instrumento chamado lion's roar, que se assemelha à cuica, pois também pertence à família dos tambores de fricção.
É preciso ter um pouco de atenção ao assistir o vídeo para não perder os poucos momentos em que a "cuica" é tocada. Primeiro aos vinte segundos, depois aos 37 segundos e no final da música, não aparece na imagem, mas dá para ouvir que o instrumento está sendo novamente executado.
Dando continuidade à postagem anterior, além das dicas sobre o tratamento da pele animal dos instrumentos de percussão, o texto da IZZO cita outras questões que também merecem atenção. Logo no início, concordo quando é dito que "muitos fabricantes empacham o instrumento e colocam à venda sem tratar as peles", mas com a correção de que, no caso da cuica, absolutamente todos os fabricantes colocam o instrumento à venda sem tratar a pele antes, e pior ainda, o gambito também não recebe tratamento algum. Isso é ruim porque prejudica quem está começando a tocar cuica e ainda não possui conhecimento suficiente pra escolher uma boa pele e deixar o gambito de acordo com seu gosto pessoal, como fazem os cuiqueiros mais experientes.
Depois, fala que "a pele animal sofre muitas variações de acordo com o clima e a temperatura". Pensando como o texto aponta, o frio afrouxa a pele enquanto o calor estica, mas arrisco a dizer que não é bem isso. Na verdade, acho que o nível de umidade no ar é que faz a pele esticar ou afrouxar, e não a temperatura. Se persarmos, por exemplo, num ambiente como o de uma sauna, onde a temperatura é elevada, porém, muito úmida, será que a pele vai esticar ou afrouxar? Imagino que vai afrouxar. E no caso do ar condicionado? Já toquei num teatro com o ar condicionado ligado e pouco antes de começar o show, deixei a cuica no palco, já afinada, mas quando o show começou e eu dei a primeira puxada, a pele estava muito mais esticada do que a afinação que eu havia feito poucos minutos antes. Quer dizer, o ar condicionado deixou o ambiente frio, porém, com o ar seco, e por isso a pele esticou ao invés de afrouxar. Portanto, diria que a pele sofre variações de acordo com a umidade do dia ou do ambiente, tanto em locais abertos ou fechados. O "quente" ou "frio" certamente influenciam de alguma forma, mas não é a temperatura que faz a pele sofrer variações e sim o nível de umidade no ar.
Sobre a sugestão de se usar azeite de dendê para tratar a pele animal de instrumento de percussão, no caso da cuica, aproveito a opinião dos amigos Pierre do Pandeiro e Malabim, que deixaram, respectivamente, os seguintes comentários:
"eu acho que o sistema do azeite de dendê não seria um ótima opção pois ele engrossa a pele fazendo surtir mais os sons graves, sendo que na cuíca o que da aquele brilho é o som agudo"
"como sou adepto do candomblé já utilizava o azeite de dendê sendo que os atabaques são tratados desta forma. Cada um cada um, mas é uma ótima opção...".
Duas opiniões que se divergem, mas ao mesmo tempo se complementam. Malabim ainda finaliza dizendo: "tem um amigo meu, cuiqueiro, que utiliza creme hidratante".Usar creme hidratante para tratar a pele da cuica me parece mais viável e, quem sabe, mais eficaz do que o azeite de dendê.
Quanto à afinação em X, imagino que boa parte dos seguidores deste blog saibam o que isso significa, mas pra quem não sabe, a afinação em X é uma maneira utilizada por muitos cuiqueiros para afinar a cuica. Trata-se de apertar os parafusos alternadamente, formando um movimento de X realmente, como na imagem abaixo.
Essa ilustração mostra o movimento alternado de um parafuso para o outro: do primeiro para o segundo, do terceiro para o quarto e assim sucessivamente, do quinto para o sexto, do sétimo para o oitavo; independente do número de tirantes da cuica, a sequência segue dessa maneira, até chegar novamente no parafuso do início. O importante durante esse processo é dar o mesmo número de voltas em cada parafuso, geralmente com uma ou duas voltas, se a pele for nova, ou mais do que duas voltas, se a pele já tiver algum tempo de uso. Isso é o que vai determinar a altura da afinação, quer dizer, se o som da cuica vai ficar agudo, medio ou grave. Outra coisa muito importante para uma boa afinação é deixar todos os parafusos com a mesma pressão, então, depois de afinar em X, verifique se tem algum parafuso mais frouxo que os demais e, caso seja necesário, dê mais um aperto no parafuso identificado. Isso é o que vai resultar no equilíbrio da afinação e, consequentemente, no som harmonioso do instrumento.
Encontrei no site da IZZO - fabricante de instrumentos musicais - um texto com dicas de como tratar a pele animal de instrumentos de percussão. Bom, não sei dizer se as dicas desse texto são confiáveis e se de fato trazem benefícios à pele, mas achei o tema bastante interessante pra gente discutir aqui. Comentários serão bem vindos de quem tiver alguma opinião a respeito ou mais dicas de como cuidar da pele da cuica. Segue o texto:
Muitos músicos e instrumentistas solicitam que seus instrumentos de percussão sejam empachados com pele animal, a fim de obter maior durabilidade, elasticidade e sonoridade para estes. Mas não é somente empachar o instrumento e sair por aí tocando. Inclusive, alguém que compra um instrumento com pele animal pode ficar frustrado com o som estridente e achar que fez uma péssima compra, ou optou por um tipo de pele errada. Na grande realidade, o que falta é “tratar” essa pele, pois muitos fabricantes empacham o instrumento e colocam à venda sem tratar as peles. Anotem as dicas:
Primeiro, a pele animal sofre muitas variações de acordo com o clima e a temperatura. Por exemplo, em dias frios, ela fica frouxa, necessitando de uma leve afinação, e em dias de calor, ela estica sozinha. Por isso que não é bom deixar muito esticada no frio, pois quando esquentar o tempo, algumas fibras podem se romper e com o tempo, ela vir a rasgar.
O primeiro passo é tirar a pele do instrumento, mas sem tirar o aro em que ela foi empachada, para proceder com o tratamento adequado. Em seguida, pegue um pedaço de algodão, embebede com um pouco de azeite de dendê, tanto em cima, quanto embaixo da pele. Mas cuidado: não encharque. Passe pouco, apenas uma camadinha fina, e esfregue bem com algodão. O azeite de dendê possui propriedades que encorpam a pele, deixando-a mais resistente e com um som mais grave, reforçando as fibras sem agredir o instrumento. Não use azeite de oliva, pois ele quando seca, racha a pele por causa da grande quantidade de iodo (sal), ao contrário do azeite de dendê, que é feito de soja.
Em seguida, deixe descansar no sereno fino da noite. Coloque se possível, embaixo de alguma telha ou uma cobertura, para que receba apenas a brisa fina, fazendo com que a pele possa encorpar (cozinhar à frio). Mas atenção: não deixe a água cair direto na pele, pois encharcada a pele pode se soltar do aro, estragando todo o processo.
No dia seguinte, coloque de forma indireta sobre o sol (na sombra) para secar. Em baixo de alguma proteção, para que apenas o calor não intenso seque naturalmente a pele. Deixe secar por quatro horas e pronto. Coloque no instrumento novamente, afinando sempre em X. Aperte um parafuso com duas voltas, vá à outra extremidade e dê duas voltas também, procedendo assim em todos os parafusos.
Quando começar a dar o aperto, de meia em meia volta, vá apertando os parafusos e batendo levemente a mão logo em cima deles na pele, observando se em todos os parafusos o som é o mesmo. Se algum estiver com um som mais grave, vá apertando até dar o tom desejado. Assim, seu instrumento está afinado e com a pele tratada, a qual, se for bem cuidada, durará em média dois anos com um excelente som.
Há alguns dias este singelo informativo cuiquístico completou um ano de existência. Confesso que não imagina a proporção que este blog ganharia no decorrer desse tempo, mas estarei mentindo se disser que o criei sem nenhuma pretensão. A verdade é que sempre existiu um objetivo pré-definido, motivado por uma situação que vivenciei, mas que ainda não relatei aqui. Tudo começou no dia em que fui transferir minha carteira da OMB - Ordem dos Músicos do Brasil - do Conselho Regional do Distrito Federal para o do Rio de Janeiro. Quando tirei minha carteira em Brasília, eu ainda não tocava cuica, só cavaquinho. Foi no Rio de Janeiro, para onde me mudei em 2001, que comecei a tocar cuica, e então, quando pedi a transferência da documentação na OMB, quis incluir a cuica na relação de instrumentos que toco. Tudo ia muito bem até eu ser informado que seria cadastrado como percussionista e não como cuiqueiro. Acontece que na minha opinião cuica não é instrumento de percussão, logo, cuiqueiro não pode ser considerado percussionista. Levantei essa questão entre os funcionários da OMB e devido a ignorância de algumas pessoas da casa, os nervos se exaltaram, eu continuei insistindo para ser cadastrado como cuiqueiro, e a discussão terminou quando eu escutei a seguinte frase de uma alta funcionária da casa: "meu filho, se eu colocar cuiqueiro na sua carteira, é igual te dar atestado de burro". Depois disso, eu me calei e para não piorar as coisas, fui embora indignado. Hoje, quando me lembro desse episódio, tenho vontade de voltar lá e agradecer à distinta senhora que me disse essa bendita frase, pois foi o que motivou a começar minha pesquisa sobre cuica, criar esse blog para dividir com o mundo as coisas tenho encontrado e, quem sabe, evitar que alguém passe a mesma humilhação que eu passei. Infelizmente, a cuica ainda é um instrumento marginalizado e os cuiqueiros não são tratados com a dignidade que merecem.
Para descontrair esse clima tenso, pesquisando na rede algo que pudesse colocar aqui nessa postagem de comemoração, encontrei um bolo no formato de cuica. Mais apropriado impossível!
Até este momento foram feitas 18.589 visitas ao blog, divididas entre mais de trinta países, que estão representados aqui em baixo pelos dez visitantes principais. Mas além destes, constam também: Angola, Bélgica, Suécia, Bolívia, Itália, México, Moldávia, Irlanda, Ucrânia, Hungria, Colômbia, Noruega, Uruguai, Letônia, Venezuela, Dinamarca, Russia, Canadá, Espanha, Áustria, Grécia, e por aí vai!
Gostaria de agradecer na língua de cada uma dessas nações, mas como diria o saudoso João Nogueira: "eu não falo gringo, eu só falo brasileiro". Então, muito obrigado! É uma satisfação enorme ver que a cuica é um instrumento admirado em tantas partes do mundo. Inclusive, quero dar uma dica aos amigos estrangeiros: parece que o Google Translator - instalado na página inicial do blog - funciona apenas com navegador da Google [Google Chrome]. Sei que a tradução desse aplicativo não é perfeita, mas deve ajudar na compreensão dos textos. As dúvidas que ficarem, por favor, não exitem em perguntar.
Segue uma listagem de todas as 51 postagens feitas até agora, divididas nos assuntos em que elas mais ou menos se relacionam:
Bom meus amigos, é isso. Espero que continuem sempre acompanhando o blog, contribuindo com dicas, comentários e divulgando para os amigos. Meu esforço para encontrar e divulgar informações interessantes sobre cuica não vai parar. Não tem sido fácil, mas as dificuldades são superadas pelo prazer de conhecer tantas pessoas e aprender tanto com elas sobre cuica, mas acima de tudo, sobre a vida.
Quem acompanha o trabalho da Velha Guarda da Portela certamente já conhece o Sr. Casemiro, mas pra quem ainda não teve esse prazer, segue uma breve descrição sobre ele encontrada no livro A Velha Guarda da Portela, de João Batista M. Vargens e Carlos Monte:
Nasceu em São João de Meriti, em 4 de março de 1921. Exerceu a profissão de ladrilheiro e teve três filhos. Tocou cuica na bateria da Portela durante muitos anos. Em um desfile, conseguiu o feito heróico de acertar a bateria da escola, que havia atravessado o ritmo ao desviar de uma enorme poça na pista. Casemiro e sua cuica ficaram de frente para o grupo até a harmonia ser recuperada. Incorporou-se à Velha Guarda da Portela no início dos anos 1980, em substituição a Olímpio. Segundo ele, “o segredo do instrumento é saber encourar, saber amarrar a vaqueta da cuica, a marca do passo”. Afirma que “a maioria dos cuiqueiros de hoje não sabe disso” e conclui: “A afinação da cuica da Velha Guarda é diferente de todas as outras”. Na sua opinião, o maior cuiqueiro que já se ouviu tocar foi o Boca de Ouro, da Lapa, e destaca como baluartes da Velha Guarda Monarco, Casquinha e Manacéa. Nos shows do grupo, Casemiro é apresentado por Casquinha como o “Leão da Cuica”. É também compositor, e sua música Tentação, em parceria com Ramon Russo, foi gravada no CD Tudo azul.
O Sr. Casemiro faleceu no dia 8 de janeiro de 2009, dois meses antes de completar 90 anos. Pude conhecer uma de suas filhas, a Dona Regina, que acompanhou o pai nos difíceis momentos que precederam o seu falecimento. Ela me contou algumas coisas sobre ele, como a forte teimosia que marcava a sua personalidade e uma história que me foi contada por outro ícone da Velha Guarda, o Sr. Monarco, comprova bem isso. É que ele usava querosene ao invés de água pra tocar cuica e o pessoal da Velha Guarda já não gostava muito do cheiro forte que ficava no ambiente. Acontece que surgiu um show pra Velha Guarda fazer em Paris, mas antes da viagem, o Monarco foi ao Casemiro e pediu pra que ele não levasse o vidrinho de querosene, temendo qualquer problema no aeroporto por conta do esquema antiterrorismo que alarmava o mundo naquele período. Imaginem só: “Velha Guarda da Portela é detida na França por suspeita de terrorismo!”. O Monarco estava coberto de razão, mas apesar do pedido, quando chegaram em Paris, lá estava o Casemiro com seu vidrinho de querosene. Outro caso engraçado é esse dele ser chamado pelo apelido de “Leão da Cuica”. A Dona Regina me mostrou também alguns pertences, fotos e documentos do pai, como a carteirinha da Portela e este papel aqui embaixo. Uma brincadeira que os seus companheiros da Velha Guarda gostavam de fazer com ele nos camarins.
Na foto: Casemiro (indicado por uma seta), com Tia Surica e Monarco
Como vimos, ele considerava o Boca de Ouro o maior cuiqueiro que já se viu tocar, mas também não era de bobeira não, pois tinha uma maneira muito particular de tocar e afinar o instrumento. Além de desfilar na bateria da Portela, participou também de algumas gravações, como na música abaixo, Canção da Liberdade, de Antônio Candeia Filho, lançada em 1966 no disco A Vez do Morrodo antológico conjunto Mensageiros do Samba da Portela, inclusive já citado aqui anteriormente, na postagem Villa Candeia.
Infelizmente, o Sr. Casemiro já não está mais aqui pra contar suas próprias histórias e passar pra gente um pouco do que ele sabia sobre cuica, mas como bem resumiu sua filha no papo que tivemos: "ele soube aproveitar a vida". Segue um vídeo com imagens do Sr. Casemiro obtidas do filme O Mistério do Samba. Belas imagens!
Mais uma postagem musical! Dessa vez, a música é Cozinha(Ritmo com Osvaldinho da Cuica e Grupo Vai Vai). Essa gravação é de 1974 e saiu no disco Vamos Sambar - Osvaldinho da Cuíca e Grupo Vai Vai. O início da música é um passeio por improvisações de cada instrumento, mas sempre com a afinadíssima cuíca do Osvaldinho no acopanhamento, até chegar o momento do seu solo. Daí em diante, é melhor não falar mais nada, só escutar. Até a próxima!
Seguindo no mesmo texto reproduzido na postagem anterior, Estudo da Cuica, de J. Muniz Jr., desta vez o trecho em recorte é sobre o lendário couro de gato.
Vale como nota curiosa transcrever uma descrição de Orestes Barbosa sobre a cuica: “Mas veio o samba. E com o samba veio a cuica. E para a cuica o malandro descobriu que o couro mais forte e mais harmonioso é o do gato. Assim, são trágicas as caçadas noturnas, nos arrebaldes e nos subúrbios da Capital. O malandro anda pelos telhados e coradores ladeando laços de arame no enforcamento do simpático animal. Laçado o gato, fazem-lhe dois cortes nas patas dianteiras. Sopram-lhes os cortes com canudos de mamoeiro. E o gato, morto e cheio de vento, fica como uma bola. Então é só dar um talho reto da guela ao fim do ventre, e o couro sai todo. Dentro de oito dias é uma cuica vibrando surda no samba de tão singular emoção. Aquele couro facilmente retirado e posto ao sol, com a cinza do fogão que foi leito amável do animal encantador, continua a nostalgia de bicho trucidado que vem formar na melodia dos que se divertem, líricos como ele, e talvez nostálgicos também, tirando sons da barrica musical, sem pensar na matéria prima emocional, que era aquele companheiro contemplativo, e também cantor nas horas mortas, quando o amor e o luar dos abat-jours fazem as suas conspirações...”. Informa David Nasser* numa reportagem intitulada Vida, Paixão e Morte no Samba, que “a lamurienta cuica é onde todos os gatos do mundo choram as suas dores.” (*) David Nasser, A Cigarra-Magazine, (fevereiro de 1944).
Particularmente, fiquei bastante impressionado com essa descrição do Orestes Barbosa na parte em que ele fala sobre os cortes nas patas etc, etc... ainda bem que hoje em dia não precisamos mais fazer isso! E pra aliviar um pouco esse clima tenso, segue abaixo um curta-metragem filmado em 1960/61, com direção de Joaquim Pedro, de conteúdo mais romântico sobre o cruel destino que os felinos tinham antigamente. O título do filme não poderia ser outro: Couro de Gato.
Há algumas semanas tive a imensa honra de conhecer um grande baluarte do samba, o Sr. Djalma Sabiá, fundador da Acadêmicos do Salgueiro e autor de sambas-enredo memoráveis da vermelho e branco. Nascido no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1925, na altura de seus 86 anos, o Sr. Djalma impressiona pela quantidade de lembranças que ainda guarda na memória. Mas o que me deixou mais emocionado durante esse encontro foi perceber o amor e respeito que ele tem pelo samba. Em sua modesta residência, ele preserva um verdadeiro tesouro com fotos e diversos registros sobre o Salgueiro e o samba de maneira geral. As paredes são tomadas por esses documentos, que guardam histórias maravilhosas de se ouvir, contadas por este senhor que viu tudo aquilo acontecer. A generosidade com que fui recebido por Sr. Djalma em seu grande arquivo/residência me deixou numa dívida eterna com ele, que me emprestou um livro intitulado Do batuque à escola de samba, publicado em 1976, cujo autor é *J. Muniz Jr., outro grande sambista, além de jornalista, e que escreveu neste livro um capítulo chamado Estudo da Cuica. O texto é um pouco grande pra colocar em apenas uma postagem, então, separei alguns trechos que virão em postagens futuras.
Estudo da Cuica
Existe uma afirmativa de que a cuica é de origem oriental, e por ser um instrumento utilizado pelo povo durante as festividades típicas, acabou espalhando-se por toda a Europa. O interessante é que a sua forma sempre foi variada, inclusive o seu nome, pois é chamada ronca em Portugal (...) pouti-pout, em Nápoles (Itália); buha, na Romênia; bukat, na Tchecolslováquia; rum-motopi, na Alemanha, e rommel-pot, na Holanda. Consta que na Romênia, o instrumento servia para animar os festejos natalinos, inclusive na Venezuela, onde é chamado furruco. Também já foi vista na Argélia, Cuba, em Luisiana (Estados Unidos) e na Argentina. No batuque de Angola, a puíta era utilizada como um tambor de fricção, sendo ainda chamada lukombey, no Congo. E com a vinda do elemento africano para o Brasil, foi recebendo várias denominações, conforme a região que ia sendo introduzida. Por exemplo: “tambor-de-onça”, no Maranhão; “roncador”, no Pará; “puíta”, no Ceará; “fungador”, “socador”, “boi” e “porca”, no Nordeste e ainda “puíta” e “cuica”, no Rio de Janeiro e noutras regiões do Centro-Sul. Ladislau Batalha já descreveu a puíta como sendo um tambor indígena, formado por um pedaço de tronco grosso, oco, tendo uma das bases coberta por uma pele de animal, bem ressequida e furada no meio e que “a atravessam por um pequeno atilho também de couro, e atalham-lhe por dentro um pau áspero. Produzem uma espécie de troar monótono e feio, correndo os dedos úmidos pela parte interior que, assim manejado, imprime a pele um movimento vibratório. Sobre esse tipo constroem outros instrumentos que produzem roncos mais ou menos agudos”. (...) Embora os indígenas conhecessem uma espécie de puíta, (...) foi com o africano que o instrumento se projetou, pois estava sempre presente nos batuques das senzalas e nos terreiros das casas grandes, passando depois para os foguedos populares e carnavalescos por todo o território brasileiro. Entretanto, a cuica somente veio a popularizar-se em nosso país a partir de 1915, quando passou a ser adotada pelos cordões carnavalescos e grupamentos, aparecendo, posteriormente, na Praça Onze junto com as “escolas de samba”, em forma de barrica, com a vareta presa por dentro do couro, quando o batuqueiro, que a levava debaixo do braço, acompanhava a cadência do samba com um som bastante rouco. (...) A versatilidade dos brasileiros fez com que o instrumento, que apenas produzia um ronco soturno, chegasse ao ponto de soltar notas agudas e graves, e até de fazer solos de músicas populares e clássicas. (...) foi no Brasil que a cuica se adaptou melhor, adquirindo uma sonoridade bem variada, alcançando uma perfeição que não obteve em nenhum outro país. (...) E por se tratar de um instrumento curioso (até muito melindroso), a cuica mereceu de nossa parte um estudo mais acurado, pois no tempo em que o autor desfilava em escolas de samba, ela teve, também a minha preferência, e embora eu não tenha me tornado nenhum mestre da especialidade, cheguei a conhecê-la muito bem, pois a primeira que tive também era de barrica e inclusive foi montada pelas minhas próprias mãos.
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*J. Muniz Jr. – Jornalista e escritor brasileiro nascido em Penedo, AL, em 1933, e radicado em Santos, SP, desde 1939. Sambista ativo, ex-ritmista, passista, mestre-sala, carnavalesco e dirigente, dedicou-se, a partir de 1957, a promover o intercâmbio entre o samba de sua cidade e o do Rio de Janeiro. Assim, participou de congressos e articulações que levaram à realização, em Santos, de eventos como o Primeiro Simpósio Nacional do Samba (1966) e o Primeiro Festival de Samba (1970). Ex-conselheiro da antiga União das Escolas de Samba do Estado de São Paulo, publicou, assinando-se J. Muniz Jr., vários livros sobre o universo dos sambistas, entre os quais Do batuque à escola de samba e Sambistas imortais, ambos de 1976. Fonte: Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (Nei Lopes)
Vareta, bambu, cambito, palheta, pauzinho... são alguns nomes dados à famosa"haste de madeira presa no centro da membrana de couro, pela parte interna da cuica", mais conhecida também comogambito - pelo menos esse é o nome quea maioria dos cuiqueiros que eu conheço costumam usar.O gambito, assim como a pele, é um elemento importantíssimo da cuicae todo cuiqueiro deve conhecê-lo bem para obter um bom som do instrumento. Sem contar que para nossa imensa frustração, devido a sua fragilidade, volta e meia o gambito quebra e é aí que geralmente percebemos ou nos lembramos do quanto somos dependentes deste ítem.
Falando de uma maneira bem simples,o formato do gambito é o mesmo de um prego, ou seja,ele tem uma "cabeça" em uma das extremidades, que serve para auxiliar sua amarração na pele. O tamanho pode variar na medida de um palito de fósforo à de um palito de churrasquinho, tanto no comprimento, quanto na espessura. O gambito é feito de bambu - parece que já tentaram usar outros materiais, mas não deu muito certo - e existem duas maneiras de fabricá-lo. Uma delas é pegar uma lasca de bambu e lixar até ela ficar na espessura desejada, esculpindo a cabeça em uma das pontas. Esse é ogambito inteiriço, um verdadeiro trabalho de entalhe na madeira. A outra, é colher um broto de bambu ainda em crescimento e cortá-lo no tamanho desejado, aproveitando o seu nó natural como cabeça.
Nessa foto, vemos três gambitos inteiriços em estágios diferentes de fabricação.
Nessa outra, estão dois brotos de bambu. O maior, ainda para ser preparado e o menor, pronto para ser utilizado.
Abaixo, vemos diferentes tipos de cabeças. Reparem as diferenças entre elas (da esquerda para direita): 1) forma triangular; 2) esculpida em diferentes níveis; 3) broto de bambu lixado; 4) forma circular fina; 5) forma circular grossa e estreita; 6) cabeça colada; 7) forma arredondada. No centro, há um broto de bambu com o nó ainda em estado natural.
O importante na cabeça de um gambito é que ele tenha uma regularidade em sua circunferência em relação à haste, pois assim, irá garantir uma melhor fixação do nó que amarra o gambito na pele.
Uma dica: antes de tocar, é bom sempre passar uma lixa d'água ou um pedaço de bombril no gambito pra limpar e tirar qualquer imperfeição da madeira.
Por experiência própria, confesso que não sei dizer a diferença na prática entre o gambito inteiriço e o broto de bambu. Já toquei com esses dois tipos de gambito e dou preferência ao inteiriço porque tenho a impressão de que é mais resistente do que o broto. Quem souber algo mais sobre a diferença entre um e outro ou mais informações à respeito deste assunto, por favor, deixe um comentário nessa postagem. É isso pessoal... até!
Imagino que a maioria dos visitantes deste blog não lêem os comentários que o pessoal faz em algumas postagens. Eu mesmo não tenho esse costume quando acesso outros blogs, mas tenho a obrigação de ler todos os comentários feitos aqui e na semana passada o amigo Islan Scape me fez uma pergunta que acredito ser do interesse de todos. Não soube muito bem o que dizer sobre essa questão, mas achei um bom tema pra gente debater. Alguém sabe a resposta?
A postagem de hoje dá continuidade à análise sobre aevolução sonora da cuíca apresentada na postagem anterior. Vimos que mudanças na técnica de execução e no modo de fabricação influenciaram diretamente o processo de transformação que a sonoridade da cuíca sofreu entre as décadas de 1930 e 1950. Mas outros fatores também contribuíram nesse mesmo sentido, como a concepção crescente do uso da cuíca como um instrumento solista, além do avanço nos aparatos tecnológicos que permitem a captação e processamento dos sons do instrumento em shows e estúdios de gravação. O vídeo abaixo, do percussionista Jam da Silva, é uma prova do quanto a tecnologia agregada à cuíca proporciona alternativas ao processo criativo e, de alguma forma, também traz efeitos ao aspecto sonoro em nível prático e conceitual.
Assim como os demais instrumentos típicos do samba, a cuíca sofreu muitas modificações desde as suas primeiras inserções em discos e agremiações carnavalescas. Este processo envolveu transformações em todos os seus aspectos, impactando diretamente sua sonoridade, que mudou radicalmente num curto espaço de tempo. Duas questões principais explicam a razão de tal mudança: a primeira diz respeito à técnica de execução e a segunda à fabricação do instrumento.
Com relação à técnica de execução, no vídeo abaixo vemos um cuiqueiro tocando de uma forma muito comum no passado, que consistia no uso exclusivo de uma das mãos para friccionar o gambito, sem pressionar a pele por fora com a outra mão. Logo, os sons obtidos ressoavam invariavelmente numa região de frequências mais baixa do que seu padrão sonoro atual.
A sonoridade da cuíca também se modificou em função de inovações no seu processo de fabricação. Os primeiros modelos do instrumento tinham o corpo de madeira, o que imprimia ao timbre uma textura bem menos brilhante do que temos hoje com diferentes tipos de metal. O método de empachamento também era bastante diferente do atual, principalmente em relação à maneira de fixar o gambito no couro, que se dava de modo a não permitir que a pele vibrasse com muita intensidade. Além disso, as primeiras cuícas não possuíam as tarraxas que hoje nos permitem afinar o instrumento. A pele era presa com tachinhas e o método de afinação se dava ao redor de uma fogueira. O calor emitido pelo fogo esticava o couro, mas logo a cuíca voltava a ficar frouxa. Com a adaptação das tarraxas, ficou possível esticar o couro com mais rigidez, bem como manter o instrumento afinado por mais tempo.
Tudo isso contribui para o desenvolvimento da sonoridade que extraímos da cuíca atualmente. A título de ilustração, seguem abaixo três registros que exemplificam o desenrolar deste processo entre as décadas de 1930 e 1950.
O primeiro exemplo, A Cuíca tá Roncando, é uma composição de Raul Torres gravada pelo próprio autor, em 1934, e destaca a sonoridade grave que o instrumento tinha naquela época, parecendo de fato com um "ronco".
O segundo exemplo, Iaiá, Ioiô e a Cuíca, originalmente lançado em 1940, é uma composição de Fausto Vasconcelos e Felisberto Martins interpretada de Nena Robledo e J. B. de Carvalho. Percebe-se aí que o cuiqueiro pressiona a pele da cuíca por fora para produzir sons médio-agudos, conforme fazemos atualmente.
Por fim, outra versão de A Cuica tá Roncando, mas dessa vez interpretada pelo multi-instrumentista Mário Gennari Filho, em gravação de 1952. Neste caso, percebe-se que a sonoridade do instrumento já está bem próxima de como o escutamos hoje em dia. Isto nos permite concluir que sua sonoridade tenha atingido, já na década de 1950, o caráter estético que ainda se mantém como padrão nos dias atuais.